O sociólogo e influenciador Thiago Torres, conhecido como o Chavoso da USP, afirmou que o desprezo de parte da juventude por empregos com carteira assinada é consequência das reformas implementadas no governo do ex-presidente Michel Temer (MDB). Ao BdF Entrevista, da Rádio Brasil de Fato, ele indicou que as mudanças trabalhistas e do ensino médio prepararam o terreno para um mercado “informal, precário e sem direitos”.
“A Reforma Trabalhista basicamente acaba com as leis trabalhistas no Brasil, acaba com a proteção aos trabalhadores através da CLT [Consolidação das Leis do Trabalho] ou enfraquece muito. Por consequência, muita gente foi demitida, muita gente foi para a informalidade, foi para a pejotização”, observa.
Segundo Chavoso, a valorização do empreendedorismo individual é parte de uma “ideologia” disseminada pelas grandes mídias, especialmente pela Rede Globo, que teria ajudado a transformar o termo “empreendedor” em sinônimo de trabalhador informal. Ele critica o que chama de “captura de pautas da classe trabalhadora” pela burguesia.
“Os trabalhadores querem não ter patrão, não ter chefe, que é justamente o que o comunismo propõe. Mas a direita é especialista em capturar pautas da classe trabalhadora e subverter para os interesses dela. Antes que o trabalhador comece a conhecer as ideias comunistas, mente-se dizendo que ele pode ser um empreendedor”, explica.
O influenciador apontou que o discurso do empreendedorismo vem sendo associado a pautas sociais, como a luta contra o racismo e o machismo, reforçando a ideia de que “o empreendedorismo é a melhor coisa do mundo”. “A Globo une o neoliberalismo econômico com pautas sociais importantes. Quando é Dia da Mulher, Dia da Consciência Negra ou Dia do Orgulho LGBT+, ela faz matérias especiais pra falar de empreendedorismo feminino, negro e LGBT+”, exemplifica.
Para ele, essa ideologia afeta a juventude, levando ao desinteresse pela faculdade, escola e emprego formal. “Vem o discurso de que fazer faculdade não serve para nada. Aí o adolescente quer largar a escola pra abrir o próprio negócio, trabalhar com aplicativo, virar influencer. Isso inclui até apostar em bet, tigrinho, que é problemático, mas compreensível. As pessoas estão sendo influenciadas a acreditar que vão enriquecer assim”, lamenta.
Crítica a Lula e defesa de esquerda anti-capitalista
Chavoso também criticou o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por, segundo ele, reforçar essa lógica com a criação do Ministério do Empreendedorismo da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte. Ele relaciona o fenômeno à desvalorização da educação formal e ao aumento da busca por enriquecimento rápido. “O teto de gastos só mudou de nome, o novo ensino médio só teve uma coisinha muito minúscula que mexeu, mais privatizações estão acontecendo. Foram 2023, 2024 e metade de 2025 fazendo um governo de direita e neoliberal”, analisa.
“Nós, que somos dessa esquerda mais radical, estamos começando a crescer agora porque temos essa fala contra tudo que está aí, que inclui essa esquerda tradicional petista lulista, a direita tradicional e a extrema direita também. Porque dizemos: o problema é o sistema capitalista. O problema não é o partido A, B ou C. O buraco é muito mais embaixo”, conclui.
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 21h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo. No YouTube do Brasil de Fato o programa é veiculado às 19h.
