Disputa da direita

‘Sem voto de Evo Morales, esquerda não ganha eleições na Bolívia’, diz professor

Gladstone Leonel Jr. analisa que a crise econômica e o racha na esquerda favoreceram a direita

Para professor, campanha pelo voto nulo liderada pelo ex-presidente Evo Morales no primeiro turno prejudicou candidaturas de esquerda
Para professor, campanha pelo voto nulo liderada pelo ex-presidente Evo Morales no primeiro turno prejudicou candidaturas de esquerda | Crédito: Fernando CARTAGENA / AFP

No próximo domingo (19), os bolivianos vão às urnas para decidir entre dois candidatos de direita: o senador Rodrigo Paz Pereira e o ex-presidente Jorge “Tuto” Quiroga. É a primeira vez em duas décadas que a esquerda fica fora do segundo turno na Bolívia – um revés que, para o professor Gladstone Leonel Júnior, da Universidade de Brasília (UnB), resulta de uma combinação entre crise econômica, fragmentação política e a força ainda decisiva do ex-presidente Evo Morales.

“Sem o voto de Evo, a esquerda não ganha as eleições na Bolívia”, afirma o pesquisador em entrevista ao BdF Entrevista, da Rádio Brasil de Fato. Mesmo com 65 anos e impedido de concorrer, após uma decisão judicial que limitou a dois mandatos o cargo de presidente, Morales segue sendo a principal figura da esquerda boliviana.

“Sem Evo Morales dificilmente a esquerda volta a governar a Bolívia”, afirma Júnior. Para ele, o ex-presidente ainda pode ter um papel decisivo nas próximas eleições, “seja como candidato, seja como articulador de um bloco popular”.

Golpe de 2019 e crise econômica moldaram cenário atual

Júnior destaca que o atual contexto eleitoral só pode ser entendido à luz dos acontecimentos de 2019, quando Morales foi derrubado por um golpe de Estado apoiado pela Organização dos Estados Americanos (OEA). “O que aconteceu naquele período contribui em larga medida para entendermos o resultado das eleições atuais”, diz.

Ele lembra que o governo interino de Jeanine Áñez perseguiu lideranças indígenas e de esquerda e abriu caminho para o retorno de uma direita radical articulada. “A partir daquele momento, e com a ascensão da extrema direita, símbolos históricos dos governos populares, como a Wiphala [bandeira indígena andina] e a Constituição de 2009, foram atacados”, relata.

Além disso, segundo Júnior, o desgaste econômico do governo de Luis Arce, sucessor de Evo e ex-ministro da Fazenda, fragilizou o bloco progressista. “As reformas econômicas precisavam ser renovadas, mas Arce não as fez”, avalia. “Há falta de combustível, alta nos alimentos, e isso impacta diretamente a vida das pessoas”, explica.

Racha interno e voto nulo enfraqueceram esquerda

O professor conta que a ruptura entre Evo Morales e Arce, antigos aliados no Movimento ao Socialismo (MAS), dividiu a base política e desorientou o eleitorado. Morales, impedido de concorrer pela Justiça, lançou uma campanha pelo voto nulo, que alcançou cerca de 20% dos eleitores no primeiro turno.

“A fragmentação ficou muito nítida ao se realizar uma campanha pelo voto nulo. Isso tirou votos da esquerda organizada e de candidaturas promissoras, como a do [senador] Andrónico Rodriguez”, analisa. Ele acredita que Arce cometeu um “erro estratégico” ao tratar Evo como um inimigo político. “Luis Arce foi presidente por casualidade e foi colocado por Evo. Os 55% de votos que ele teve em 2020 não eram dele, eram de Evo”, indica.

Entre as novas lideranças, o professor cita Andrónico Rodríguez, que é ex-aliado de Evo, e a ex-senadora Adriana Salvatierra, ainda ligada ao líder cocaleiro. “Essas figuras vão protagonizar o próximo ciclo de resistência à direita e podem herdar o legado político do Evo”, projeta.

Retrocessos da direita podem esbarrar na Constituição

Sobre os dois candidatos do segundo turno, Júnior avalia que Rodrigo Paz representa uma direita mais moderada, que tenta dialogar com setores populares, enquanto Tuto Quiroga é “ligado aos setores empresariais e às elites tradicionais”. “O perfil do Paz é de centro-direita, mas ele capturou parte do eleitorado indeciso e até setores do MAS, especialmente em El Alto”, aponta. Já Quiroga, segundo ele, “vem com mais dinheiro e articulação com o empresariado e setores neoliberais”.

A Bolívia detém as maiores reservas de lítio do planeta, recurso estratégico usado em baterias. Para o professor, a disputa pelo controle desse mineral aumenta o interesse das potências globais. “Falar em imperialismo é falar da tentativa de extrair mais valor das riquezas bolivianas, sobretudo do lítio e do gás natural”, afirma. Ele alerta que uma vitória de Quiroga poderia reaproximar o país dos Estados Unidos, enquanto Paz poderia “buscar algum equilíbrio com o Brics e o Mercosul”.

Gladstone Júnior alerta que um eventual governo liberal pode tentar reverter avanços conquistados desde a Constituição de 2009, marco do Estado Plurinacional da Bolívia, mas acredita na força da democracia boliviana para frear essas tentativas. “Podem haver retrocessos, sim, mas a Constituição ainda tem força como instrumento de resistência popular”, avalia. Ele lembra que mudanças constitucionais exigem referendos populares. “Isso a torna mais rígida e garante certa proteção às conquistas sociais e indígenas”, explica.

Para ouvir e assistir

BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 21h, na Rádio Brasil de Fato98.9 FM na Grande São Paulo. No YouTube do Brasil de Fato o programa é veiculado às 19h.

Editado por: Luís Indriunas

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