A pesquisadora Tings Chak, do Instituto Tricontinental, analisou, em conversa no BdF Entrevista, da Rádio Brasil de Fato, o papel da China na transição ecológica mundial e sua participação na 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), que acontece em Belém (PA). Segundo ela, o país asiático, embora seja o maior emissor de gases de efeito estufa, “tem avançado bastante em várias áreas, como tecnologias renováveis”, e deve atuar na conferência para fortalecer a cooperação entre países do Sul Global.
“Um papel importante é tentar promover, na medida do possível, a colaboração internacional para a transição energética, especialmente para os países do Sul Global”, afirmou.
A pesquisadora destacou que a virada ecológica da China ocorreu nas últimas duas décadas, após o país enfrentar um grave quadro de poluição. “A China pagou um preço alto ambiental para se tornar a chamada fábrica do mundo”, lembrou. Segundo ela, o reconhecimento oficial de que o desenvolvimento chinês foi “desequilibrado, descoordenado e insustentável” levou à criação de novas instituições ambientais e à inclusão do conceito de “civilização ecológica” na Constituição.
“Quando coloca o conceito da civilização ecológica na Constituição, isso significa muitas coisas, por exemplo, os planos quinquenais, como organizar todas as prioridades nacionais para investir nas pesquisas de energia renovável para construir todas as cadeias produtivas para implementar isso”, explicou.
Tings Chak citou a campanha nacional “Guerra contra a poluição”, lançada em 2013 pelo governo de Xi Jinping, que acelerou a eletrificação das cidades e reduziu em quase 50% o índice de poluição atmosférica. “Essa campanha adicionou 2,2 anos na expectativa de vida de todos os chineses. A China, nesses quase oito anos, alcançou o que os Estados Unidos levaram três décadas para fazer”, comparou.
Para a pesquisadora, a diferença entre a China e os Estados Unidos na pauta ambiental é marcada pelo planejamento estatal e pela cooperação científica. “A China é uma sociedade que acredita na ciência, sabem que tem que fazer políticas públicas a partir disso”, afirmou, ressaltando que o país aposta no socialismo científico para guiar as políticas climáticas.
Ela também defendeu o princípio de “responsabilidade comum, porém diferenciada”, que orienta a postura chinesa nas negociações internacionais. “Existe uma dívida ecológica não paga pelo Norte Global. Esses países têm de lidar com essa realidade histórica, porque só se industrializaram por causa da exploração das nossas terras e povos”, disse.
Ao falar sobre o papel geopolítico da China, Chak esclareceu que o país não quer substituir a hegemonia dos Estados Unidos, mas defender os interesses dos países em desenvolvimento. “A China não tem essa vontade de ser um poder expansionista, mas vai defender seu território e seu povo. É um país pacífico, mas que quer continuar representando o Sul Global”, avaliou.
Por fim, ela destacou as possibilidades de cooperação entre Brasil e China na área ambiental. “A China já fez um acordo para juntar com a proposta do Brasil sobre as florestas tropicais. Também há espaço para cooperações em energias renováveis e no combate ao desmatamento. Precisamos fortalecer essa cooperação Sul-Sul”, apontou.
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 21h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo. No YouTube do Brasil de Fato o programa é veiculado às 19h.
