O Joio e o Trigo

Indústria de ultraprocessados é mantida por dinheiro público e lucra ‘ao maior custo social’, diz fundador do O Joio e o Trigo

Jornalista defende regular tamanho e poder das empresas e fortalecer arranjos locais e populares de produção de alimento

Criado em 2017, O Joio e o Trigo se consolidou como um projeto de jornalismo investigativo sobre alimentação, saúde e poder
Os ultraprocessados são a expressão de um modelo em que a lógica do lucro se impõe sobre qualquer compromisso com a saúde das pessoas | Crédito: Pexels

A indústria de ultraprocessados no Brasil é sustentada por recursos públicos e garante lucros bilionários às custas da saúde da população. É o que afirma ao BdF Entrevista, da Rádio Brasil de Fato, o jornalista João Peres, fundador do site O Joio e o Trigo, que investiga a relação entre a alimentação, o poder e as grandes corporações. Para ele, as empresas que mais lucram com o sistema alimentar atual “produzem lucro ao maior custo social possível”, e o Estado mantém políticas que favorecem quem adoece o país.

Ao comentar reportagem publicada neste ano que mostra que fabricantes de ultraprocessados receberam R$ 15 bilhões por ano em isenções fiscais, Peres aponta o desequilíbrio das escolhas do Estado. “Elas cresceram às custas de recurso público, portanto, às custas de um recurso sobre o qual teríamos que ter tido governança, e não tivemos”, denuncia.

Segundo ele, as renúncias premiam gigantes do agronegócio, empresas ligadas ao desmatamento e ao trabalho análogo à escravidão, indústrias de maquinário que viabilizam grilagem e fabricantes de ultraprocessados. “Não tem nenhuma lógica nessa história, é simplesmente um monte de setor que consegue abocanhar alguma renúncia”, critica. Para Peres, esses recursos poderiam financiar programas de agricultura familiar e políticas de acesso a comida de verdade, em vez de fortalecer corporações que adoecem a população.

Na avaliação do jornalista, os ultraprocessados são a expressão de um modelo em que a lógica do lucro se impõe sobre qualquer compromisso com a saúde das pessoas. Ele afirma que a violação – ambiental, trabalhista, fiscal ou sanitária – “não é um efeito colateral desse negócio”, mas parte do modo de operação das empresas.

“A produção da externalidade, desse efeito negativo, não é colateral, é central”, aponta, citando casos como frigoríficos e o histórico de adoecimento de trabalhadores. Para se manterem competitivas e atrair investidores, argumenta, companhias priorizam margens altas, mesmo à custa de danos sociais e ambientais.

Peres também critica a narrativa de que o agronegócio “alimenta o mundo”. Ele relaciona o modelo baseado em monoculturas, pecuária extensiva e commodities à destruição de territórios, expulsão de povos tradicionais e aumento da fome. Ele defende a importância da agroecologia, da agricultura familiar e da reforma agrária, destacando a produção de diversidade alimentar e experiências como a Feira Nacional da Reforma Agrária. O desafio, diz, é recolocar esses temas no centro da disputa política e redefinir o que é o “bom uso” da terra.

Para enfrentar a crise alimentar, o jornalista acredita que é preciso regular o tamanho e o poder das empresas, além de fortalecer arranjos locais e populares de produção e distribuição de alimentos. “O que soluciona a questão da alimentação de forma mais ampla é olharmos para as corporações como corporações. Elas produzirem o lucro ao maior custo social possível, isso faz parte do negócio delas. O que tem que mudar é como vamos olhar para elas e, portanto, como vamos regular esse negócio”, afirma.

O Joio e o Trigo

Criado em 2017, O Joio e o Trigo se consolidou como um projeto de jornalismo investigativo sobre alimentação, saúde e poder. Peres conta que o veículo nasceu da experiência em coberturas de direitos humanos, conflitos no campo e grandes empresas, em diálogo com referências como o jornalista Michael Pollan e com o avanço do debate público sobre políticas alimentares no Brasil.

Um dos eixos centrais do trabalho do Joio é investigar o “poder privado”. Para Peres, não é possível discutir a alimentação sem olhar para a força política e econômica das corporações. “As corporações são o maior agente do século 21. Várias corporações são hoje muito maiores do que os Estados”, afirma.

Ele critica a lógica que restringe a fiscalização ao poder público e deixa em segundo plano os interesses empresariais que capturam recursos, políticas e o imaginário social. “Tem uma lição do jornalismo do século 20 que é aquela de ‘siga o dinheiro’. Achamos que é importante seguir o dinheiro, mas entender para qual estrutura esse dinheiro está ligado, no fim das contas”, diz.

Para ouvir e assistir

BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 21h, na Rádio Brasil de Fato98.9 FM na Grande São Paulo. No YouTube do Brasil de Fato o programa é veiculado às 19h.

Editado por: Luís Indriunas

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