A cientista política Mara Telles, presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais (Abrapel) e professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), avalia que a extrema direita vive um racha profundo, marcado por disputas dentro da própria família do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), condenado a 27 anos e três meses de prisão, e pela ascensão de novos grupos. Segundo ela, “eles [família Bolsonaro] querem ser os únicos representantes da pauta [de extrema direita]. Manter o nome da família para eles é muito importante.”
Ao BdF Entrevista, da Rádio Brasil de Fato, Telles esclarece que o embate não é apenas ideológico, mas também de poder. “Eu diria que o governo Bolsonaro é um governo de extrema direita, mas ‘primeiro a minha família, depois os interesses da extrema direita’. Quando os interesses coincidem, está muito bem. Quando os interesses não coincidem, isso pode gerar cisões, como agora, por exemplo”, observa.
A cientista política avalia que a tentativa do deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), réu na Justiça por tentar interferir no julgamento do pai, de ser candidato à presidência em 2026 enfrenta uma forte rejeição dentro do próprio campo político. “Eu acho que a hipótese de aceitar a candidatura do Eduardo Bolsonaro é nula”, afirma. Ela lembra que o parlamentar “produziu várias declarações contundentes, inclusive contra a soberania brasileira”, o que o afastou de possíveis aliados, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Telles destaca que a extrema direita “é algo muito maior e muito mais estruturado”, com grupos que influenciam pautas nacionais e ganharam espaço institucional. Mesmo assim, diz que Tarcísio ainda é o nome mais competitivo para a eleição do próximo ano. “Ele tem um grande estado, que é São Paulo, e tende a ser o candidato mais viável. O seu grupo vai tentar retirar os demais candidatos da disputa”, prevê.
Sobre o vereador Carlos Bolsonaro (PL-RJ), que quer disputar o Senado por Santa Catarina em 2026, Telles vê uma jogada pragmática. “O fato de ele sair de um estado e ir para Santa Catarina significa que ele não vê a sua reeleição de forma tão segura. Santa Catarina não precisa dele, mas é é o estado onde o ex-presidente Bolsonaro conseguiu o maior número de votos proporcionalmente”, analisa.
Fora da família Bolsonaro, ela chama atenção para a ascensão do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), que, segundo a pesquisadora, desponta como uma nova referência do bolsonarismo digital. “Para mim, hoje, ele é o representante digital mais importante dos grupos de extrema direita. Então, olho em Nikolas”, indica.
Para Telles, o surgimento do novo partido Missão, ligado ao Movimento Brasil Livre (MBL), reforça a fragmentação do campo. “O MBL está sabendo perceber a conjuntura nacional e internacional e está apostando nesse segmento, e isso pode dar certo de fato”, pontua. Na sua avaliação, a legenda tenta capturar a juventude insatisfeita. “Os jovens estão sendo muito atraídos por soluções simplistas. É natural que um partido percebesse essa brecha para buscar os eleitores mais jovens”, explica.
A cientista política conclui que, enquanto a extrema direita se reorganiza, a esquerda segue distante de parte da população. “A esquerda está fugindo das pautas materiais. Os movimentos populares são débeis, estão frágeis, precarizados”, opina. Para 2026, ela prevê uma disputa acirrada. “Vai ser uma eleição bastante competitiva, contudo depende dos eventos que ocorrerão no ano que vem, da economia, de quem será o candidato, as articulações a mídia… O eleitor brasileiro é volátil, de alguma maneira”, aponta.
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 21h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo. No YouTube do Brasil de Fato o programa é veiculado às 19h.
