Ameaça externa

Ataques no Caribe são ‘questão de política doméstica dos EUA’, diz cientista política

Para Ana Penido, tensões envolvendo Venezuela revelam disputa interna nos EUA e não indicam invasão iminente

Porta-aviões enviados pelos EUA chegando ao Caribe
Porta-aviões enviados pelos EUA chegando ao Caribe | Crédito: Reprodução / Comando Sul dos EUA

Os recentes ataques dos Estados Unidos a embarcações que navegam em águas internacionais do mar do Caribe têm menos relação com a Venezuela e mais com a política interna norte-americana, avalia a cientista política Ana Penido, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ao BdF Entrevista, da Rádio Brasil de Fato. A ofensiva iniciada no fim de agosto já deixou pelo menos 80 mortos.

“O assunto não é a Venezuela, são os Estados Unidos porque toda essa movimentação, na verdade, diz respeito às mudanças na política doméstica dos EUA”, analisa. Segundo Penido, apesar da mobilização militar, que inclui o envio do maior porta-aviões do mundo ao Caribe, ela destaca que “em geral, os EUA não entram em conflitos só pela vitória militar. Pelo contrário, muitas vezes eles vão encontrar derrota militar, mas vão encontrar também a vitória econômica”.

Penido acredita que o cenário de “botas em solo” na Venezuela é “pouco provável”, tanto pelo custo político e econômico para o governo estadunidense quanto pela capacidade de defesa venezuelana, baseada na integração entre as Forças Armadas e a população. “Entrar na Venezuela não é uma coisa simples. E sair de lá é uma coisa que eu não imagino”, declara. Para ela, “a principal estrutura de defesa da Venezuela é o povo venezuelano”, um modelo que aperfeiçoa experiências do Vietnã, Cuba e Nicarágua.

Na leitura da pesquisadora, o Caribe ocupa para os EUA um lugar quase “interno” no mapa estratégico. “Uma expressão que me ajudou a quantificar isso [a ideia da América Latina como quintal dos EUA] é que eles imaginam que o Caribe é o Mediterrâneo. É como se, para eles, fosse, de fato, parte do mar dos EUA”, explica.

Militares brasileiros defenderiam país de ataque dos EUA?

Em relação ao Brasil, Penido vê uma incapacidade atual de reação a uma agressão externa de uma potência como os EUA. Questionada se os militares brasileiros defenderiam o país em caso de ataque, ela responde que “não tem clima, equipamento, estômago, nada”. Segundo ela, o país continua preso a uma lógica de dependência doutrinária e tecnológica, sem um desenho de defesa compatível com sua realidade e com uma política externa mais autônoma.

Essa vulnerabilidade, afirma, está ligada ao comportamento dos militares na política interna, evidenciado na tentativa de golpe durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). “Tem um desencontro entre população e Forças Armadas. Isso impacta nossa política de defesa”, aponta. Para ela, o episódio mostrou que a instituição age sem um alinhamento a um projeto nacional de soberania e tende a assumir sozinha o custo de aventuras golpistas. “Se der certo, é bom para todo mundo. Se der errado, é ruim só para quem é militar”, resume.

Para ouvir e assistir

BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 21h, na Rádio Brasil de Fato98.9 FM na Grande São Paulo. No YouTube do Brasil de Fato o programa é veiculado às 19h.

Editado por: Luís Indriunas

|

Newsletter