A islamofobia vem sendo usada como uma arma política por grupos de extrema direita nos Estados Unidos e na Europa, denuncia a criadora de conteúdo e professora Fabíola Oliveira, muçulmana brasileira, em conversa com o BdF Entrevista, da Rádio Brasil de Fato. Segundo ela, eles têm fabricado narrativas sobre uma suposta “invasão muçulmana” para produzir medo e, assim, ganhar o apoio da população.
Oliveira cita os ataques recentes ao prefeito eleito de Nova York, Zohran Mamdani, alvo de publicações que o comparavam ao regime iraniano e de montagens como a Estátua da Liberdade vestida de burca, para ilustrar como a desinformação é mobilizada para demonizar muçulmanos. Em Portugal, diz, o partido de extrema direita Chega segue a mesma lógica ao divulgar imagens de muçulmanos rezando nas ruas para sugerir que o país estaria sendo “tomado” por eles.
A influenciadora, que sofre agressões diariamente nas redes sociais, observa que esse discurso cresce em momentos de crise e é alimentado há décadas pela mídia e pela indústria cultural. “Sempre existe um inimigo que as pessoas querem difamar para ignorar as questões importantes daquela sociedade”, analisa. Para ela, o aumento da violência islamofóbica depois do 7 de outubro e durante o genocídio em Gaza já indicava um modus operandi. “A extrema direita precisa criar um inimigo, manipulando para causar medo na população”, explica.
Um dos pilares dessa manipulação, indica, é a distorção da Sharia, a lei islâmica. Oliveira esclarece que Sharia significa “caminho” e se refere a princípios éticos e religiosos — como rezar cinco vezes ao dia, jejuar no Ramadã ou seguir regras alimentares — e não a punições ou códigos penais. “Não é uma Constituição, uma lei de punição. Muçulmanos seguem a Sharia há séculos no Brasil”, pontua. Casos de punições violentas atribuídos à Sharia, como na Indonésia, são frequentemente distorções ou ações de governos autoritários que usam a religião como justificativa, acrescenta.
A ativista também destaca como mulheres que usam hijab se tornam alvos preferenciais, fenômeno que ela chama de “hijabofobia”, e critica a apropriação de discursos feministas e LGBT+ para justificar o preconceito. “Quem fala pelas muçulmanas não são muçulmanas. O machismo oprime, não a religião”, critica. A criadora de conteúdo ressalta, inclusive, que existe diversidade religiosa, política e sexual entre muçulmanos, incluindo comunidades queer e mesquitas inclusivas em vários países.
Para combater a desinformação, Fabíola Oliveira produz conteúdo nas redes desmentindo mitos e mostrando a vida cotidiana de muçulmanos no Brasil e no mundo. “As pessoas falam: ‘A sua dor é a minha dor também’ ou ‘Não é isso que eu estava acostumada a ouvir’. É desmontar toda essa narrativa“, conta. Ainda que reconheça enfrentar uma máquina de propaganda muito poderosa, ela acredita na mudança gradual. “Pode parecer um trabalho de formiguinha, mas depois dá um avanço real nessa mudança de comportamento”, fala.
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 21h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo. No YouTube do Brasil de Fato o programa é veiculado às 19h.
