A nova configuração da indústria cultural, marcada pelo domínio das plataformas de streaming, não democratizou o acesso nem melhorou as condições de quem faz música. Ao contrário: reforçou desigualdades históricas e submeteu artistas a uma lógica ainda mais predatória, segundo o youtuber Filipe Boni, convidado no BdF Entrevista, da Rádio Brasil de Fato.
“O Spotify não apenas vai reproduzir as desigualdades históricas no campo da música, como também vai reforçar e reorganizar elas, agora com base nessa arquitetura tecnológica e econômica sofisticada”, afirma. Na avaliação de Boni, “por trás dessa aparência de inovação, vamos ter, na verdade, um novo regime de acumulação”.
Para ele, ao centralizar a vitrine musical e operar com o modelo de remuneração chamado Pro Rata, a plataforma concentra renda nas grandes gravadoras e restringe o alcance dos pequenos artistas. “O artista que fica ali fica refém de um processo”, diz. “A tela do Spotify tem poucos lugares pra ver um artista, é uma vitrine muito pequena”, complementa.
Boni também critica como o modelo define a estética das músicas. “Se eu sou um artista que quero criar músicas longas, [não posso porque] tem que criar uma música dentro de um roteiro de 3 minutos ali”, exemplifica. Ele compara a lógica às redes sociais. “Existe a fórmula da retenção dos conteúdos curtos, você vai perder aquela pessoa e aí o tempo de retenção vai cair”, explica.
De acordo com o youtuber, a mesma lógica restringe a descoberta de novos sons. “Isso nos fecha para novas experiências. Então você não vai adquirir novas experiências de som, porque você vai estar sempre fechado”, analisa.
Impactos políticos
Filipe Boni lembra ainda a polêmica envolvendo o CEO do Spotify, Daniel Ek, que também investe em tecnologia militar. “Uma plataforma deveria ser neutra e, claramente, isso não está acontecendo”, aponta.
De acordo com ele, a forma como carreiras são geridas hoje também explica a dificuldade de artistas se posicionarem politicamente, incluindo no caso da Palestina. “É muito mais fácil diminuir o alcance de uma pessoa através dos algoritmos”, diz. “Hoje a música vendida no disco não dá tanto dinheiro, então você tem que pensar 360, o artista como produto completo”, esclarece.
Boni cita casos recentes, como o Massive Attack retirando músicas do Spotify, mas ficando “num limbo” porque alternativas como a plataforma Bandcamp atendem majoritariamente independentes. Para ele, o cenário deve piorar. “Eu acho que no futuro muito próximo as pessoas vão sentir saudade desse momento, sendo bem sincero. Vão falar ‘em 2025 ainda estava bom’”, prevê.
Análises com músicas
Apesar do pessimismo estrutural, Boni conta que seu canal no YouTube surgiu justamente da vontade de discutir cultura a partir das condições materiais. Seus vídeos analisam movimentos como grunge, black metal, k-pop e jazz, relacionando estética, política e economia.
Para ele, falar de música é também uma porta de entrada para discutir sociedade. “Eu pego e falo lá do Ghost [banda sueca de heavy metal]. É de esquerda ou de direita? Eu não sei. Ninguém sabe. Mas conseguimos demonstrar processos que acontecem na humanidade”, aponta.
Mesmo produzindo vídeos quase diários, o youtuber reconhece os limites impostos pela própria dinâmica que critica. “Eu acho que a questão do algoritmo é sempre saúde mental versus produção”, fala. “Se você deixar, você é [sugado]. Infelizmente, é essa a lógica hoje”, indica.
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 21h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo. No YouTube do Brasil de Fato o programa é veiculado às 19h.
