Fora de cena

Partido do MBL tenta espaço na direita, mas carece de projeto claro e surfa em sensacionalismo, diz cientista política

Para Tathiana Chicarino, legenda herda do movimento união entre neoliberalismo radical, cruzada moral e estratégias espetaculosas

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Partido Missão, ligado ao Movimento Brasil Livre (MBL)
Partido Missão, ligado ao Movimento Brasil Livre (MBL) | Crédito: Reprodução/Redes sociais

O recém-criado partido Missão, ligado ao Movimento Brasil Livre (MBL), tem tentado se apresentar como uma alternativa à direita para 2026, mas ainda não demonstra ter um programa consistente nem uma base social organizada, segundo a cientista política Tathiana Chicarino. Ao BdF Entrevista, da Rádio Brasil de Fato ela avalia que a legenda nasce apoiada mais no modus operandi do MBL, marcado por ações espetaculosas e pela aposta em pautas de forte apelo sensacionalista nas redes sociais, do que em propostas concretas.

“Eu não sei o que o MBL defende, só conheço o modus operandi, porque realmente é um movimento que se consolidou muito mais por ações espetaculosas do que realmente por pautas concretas”, analisou. Chicarino destaca, por exemplo, que o partido omite no site oficial referências ao liberalismo, pauta histórica do MBL, e aposta em valores genéricos. “Nos chama atenção, visto que o MBL tem o liberalismo como uma de suas principais pautas”, apontou.

Para ela, essa indefinição acompanha o próprio percurso do movimento, que transitou do “neoliberalismo radical” para a adoção de uma agenda moral conservadora, especialmente após episódios como a cruzada contra a mostra Queermuseu em 2017, cancelada posteriormente pelo Santander Cultural, em Porto Alegre. “Havia um contexto em que isso fazia sentido e dava repercussão, visibilidade, legitimidade dentro de um campo que estava se constituindo na extrema direita”, pontuou.

A cientista política também analisou a tentativa do presidente do Missão, Renan Santos, de se apresentar como uma espécie de “[Nayib] Bukele brasileiro”, em referência ao presidente de El Salvador, que tem como foco o discurso da segurança pública. Para Chicarino, trata-se menos de um projeto e mais de oportunismo eleitoral. “Não é algo programático, é mais surfar em algo que é legítimo e está sendo pauta de debate”, observou.

Nesse contexto, ela alertou para o risco de propostas como a divulgada nas redes do partido, que defende restringir direitos básicos de acusados ligados a facções. “O que eles estão tentando dizer é exatamente isso: eliminar pilares de construção democrática”, criticou.

Fora do timing

No campo eleitoral, Chicarino avalia que o Missão pode até encontrar algum espaço entre jovens de direita que não se identificam com o bolsonarismo, mas isso depende de articulação política e capilaridade, hoje inexistentes. A legenda também não conta com acesso a recursos públicos significativos. “Eu acho que eles perderam um pouco o timing, a conjuntura não é tão favorável mais a esse partido Missão”, afirmou.

Ela defende ainda que a fragmentação atual da extrema direita, evidenciada pelas brigas públicas entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) e os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), deve levar esse campo ao enfraquecimento. “A extrema direita não deveria existir enquanto viabilidade eleitoral numa democracia”, defendeu. “Ela não só deveria estar rachada, mas deveria estar em extinção”, acrescentou.

Para Chicarino, o melhor cenário seria o Missão contribuir para reorganizar uma direita democrática, afastada do bolsonarismo. “Espero que esse partido, assim como outros políticos, não acenem mais à extrema direita”, concluiu.

Para ouvir e assistir

BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 21h, na Rádio Brasil de Fato98.9 FM na Grande São Paulo. No YouTube do Brasil de Fato o programa é veiculado às 19h.

Editado por: Luís Indriunas

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