O moto-frentista, ativista e rapper Paulo Galo, conhecido como Galo de Luta, defendeu que a base trabalhadora não pode ser tratada como “de direita” quando se olha para a vida concreta. “Uma das críticas que foi mal absorvida nos últimos tempos é essa que eu fiz de que não existe pobre de direita. Materialmente não tem. Na narrativa, beleza. Aí você está caindo no jogo do neoliberalismo”, afirmou ao BdF Entrevista, da Rádio Brasil de Fato.
Para Galo, o que define o campo do trabalhador não é o discurso, mas a prática diante da exploração. “O motoboy ele pode pegar essa narrativa aqui: ‘Bolsonaro 2018’, e colar na bag dele. Essa é a narrativa. ‘Bandido bom é bandido morto’. Essa é a narrativa. Se ele fizer greve, é materialidade suficiente pra você não considerar ele de direita. Porque quem faz uma greve? É um cara de direita fazendo uma greve?”, questionou.
Na visão do entregador, colar o rótulo de “pobre de direita” na periferia significa entregar de bandeja uma parte da classe trabalhadora ao campo conservador. “Chamar o pobre de pobre de direita é um presente pra direita. A direita não tem nem como agradecer isso”, criticou. Ele relaciona essa disputa à vitória ideológica do neoliberalismo. “O neoliberalismo venceu nesse sentido. E aí a saída fica um pouco mais difícil”, lamentou.
Galo defende que o ponto de partida para entender e organizar a luta deve ser as contradições que o capitalismo produz na vida real, e não a “narrativa” que o trabalhador repete. “O capitalismo por si só gera contradições na vida da classe trabalhadora. Aí o que eu tenho para trabalhar contra o capitalismo? Essas contradições”, diz. Ele cita o fascínio por vias individuais de ascensão, como “jogo do tigrinho”, “OnlyFans” e carreira de “influenciador”, como sinais de ódio contra um sistema que não oferece saídas dignas. “Tudo isso é fuga do capitalismo”, caracteriza.
Por isso, sua palavra de ordem é direcionar esse sentimento para um projeto coletivo. “Os trabalhadores estão cheios de ódio. Aí para onde vai o ódio deles? Contra o capitalismo”, explica. Para ele, o desafio da esquerda é “organizar o ódio” sem descartar quem hoje se expressa por meio de discursos conservadores. “Mesmo que eles não saibam que o nome disso é capitalismo”, concluiu.
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 21h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo. No YouTube do Brasil de Fato o programa é veiculado às 19h.
