A guerra contra a linguagem neutra virou uma das pautas favoritas da extrema direita no Brasil e no mundo, segundo a linguista Jana Viscardi, convidada do BdF Entrevista, da Rádio Brasil de Fato. A ofensiva aparece em quase 30 projetos de lei na Câmara dos Deputados e em pelo menos 80 propostas em assembleias estaduais e câmaras municipais, sempre com o mesmo alvo: formas de fala que reconhecem pessoas trans e não binárias. “No campo da extrema direita, essa é uma pauta bem produtiva. É uma lógica de que o mundo está acabando e a língua também”, observou.
Viscardi explicou que a linguagem neutra – que inclui formas como “menine”, “todes”, “elu” – é uma “moda recente”, nem uma invenção exclusivamente brasileira. Ela lembrou que “línguas do mundo todo também vêm apresentando essa forma não binária” e citou pesquisas que identificam traços desse tipo de uso em “guias ou manifestos de pessoas travestis já há muitos anos”. Para a linguista, o que mudou nos últimos anos foi o enquadramento político desse debate, “uma coisa de um pânico moral”.
Em novembro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sancionou a Política Nacional da Linguagem Simples, a fim de facilitar a comunicação entre órgão oficiais e os cidadãos. Um dos artigos, incluído por emenda pelo deputado Junio Amaral (PL-MG), proíbe a utilização da linguagem neutra. Na avaliação da especialista, essa operação transformou um tema de acesso à informação em mais um capítulo da guerra cultural promovida pela extrema direita.
Ela apontou que a mídia reduziu a discussão a manchetes como “Lula proíbe linguagem neutra” e invisibilizou o objetivo central da lei. “Falou-se sobre a linguagem neutra de uma maneira torta, e não se falou sobre a importante discussão que é a linguagem simples”, pontuou. Segundo ela, se bem aplicada, a linguagem simples pode “ser muito importante para a nossa existência nesses espaços”, ao facilitar o entendimento de textos jurídicos e administrativos hoje quase inacessíveis para grande parte da população.
Ao responder por que a pauta virou quase uma obsessão da extrema direita, Viscardi pontuou que “estamos falando do direito de minorias muito específicas: pessoas trans, não binárias, que de acordo com esse olhar bastante conservador e violento, estão erradas, não deveriam ser assim”. Atacar a linguagem não binária, argumentou, é uma forma de atacar essas pessoas em um país que figura entre os que mais matam pessoas trans no mundo. “É um ataque direto a um grupo muito específico da sociedade, que na verdade já é excluído, diminuído e violentado com muita regularidade”, ressaltou.
Para a linguista, a ideia de que a linguagem neutra seria uma imposição ou ameaça à compreensão também é construída para alimentar o pânico moral. Ela mencionou estudos que mostram a criatividade cotidiana no uso da língua e recordou que as formas neutras circulam em diferentes comunidades, sem que isso impeça o entendimento. “Não tem a ver com uma imposição, como quer dizer essa lógica de uma ditadura LGBTQIAP+”, rebateu. O que está em jogo, na sua avaliação, é “um conjunto de discursos para despertar o pânico em torno da noção de família, de quem pode ou não existir no mundo”.
Viscardi insistiu ainda que o debate sobre a gramática e a “defesa da língua” funciona como uma cortina de fumaça para disputas de poder. “Esses discursos sobre língua são, na verdade, discursos sobre poder”, sintetizou. Em vez de usar a norma culta como uma barreira simbólica, ela defendeu enxergar o português brasileiro como uma língua em constante transformação, marcada pela história de povos indígenas, populações negras e camadas populares. “O objetivo é mostrar aquilo que nos expande na língua, não o que nos reduz”, indicou.
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 21h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo. No YouTube do Brasil de Fato o programa é veiculado às 19h.
