Pausa no canal

Criador de Rita von Hunty relaciona pausa no canal a esgotamento emocional e pessimismo político: ‘Optaram pelo extermínio’

Guilherme Terreri fala sobre hiato da personagem drag, política e queer marxismo

Guilherme Terreri anunciou, em setembro, hiato em seu canal no YouTube
Guilherme Terreri anunciou, em setembro, hiato em seu canal no YouTube | Crédito: Arquivo pessoal

O ator, professor e crítico cultural Guilherme Terreri, criador da drag queen Rita von Hunty, comentou o hiato anunciado em setembro em seu canal no YouTube, que funcionava como uma plataforma pedagógica articulada com humor, performance e crítica social, e analisava temas centrais da conjuntura política brasileira e mundial. Ao BdF Entrevista, da Rádio Brasil de Fato, ele explica o pessimismo que o atravessa, falou sobre misoginia, queer marxismo e detalhou a criação estética e política de sua persona drag.

Rita von Hunty nasceu nos primeiros anos da década de 2010 como uma experiência artística e se tornou uma ferramenta educativa. “Rita se transforma muito rapidamente no veículo por meio do qual eu me comunico com as pessoas”, contou.

Ao abordar a pausa do canal onde aparecia como von Hunty, Terreri revelou estar “vivendo uma espécie de luto”. A ausência de avanços reais após a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30) e a intensificação global da exploração de combustíveis fósseis o levaram ao esgotamento. “Os detentores dos meios de produção optaram pelo extermínio, pela sexta extinção em massa”, apontou.

Ele afirmou não ver possibilidades concretas de transformação no horizonte e que, por isso, recuou da comunicação em larga escala. “Quem não tem esperança não deve comunicar”, explicou. Mesmo assim, ele mantém a atuação em espaços menores, dando aulas, orientando pesquisas e participando de formações, enquanto elabora os rumos de sua prática. “Estou olhando só para as coisas miúdas, mas pensar no futuro tem resultado em pensamento apocalíptico”, indicou.

Sobre aprovação do Projeto de Lei (PL) da Dosimetria na Câmara, Terreri lamentou que “mais uma vez, o Congresso dá um demonstrativo muito explícito para a sociedade brasileira de que está a serviço das elites”. Para ele, a combinação entre a liberação de emendas, a violência institucional e os retrocessos em pautas como o marco temporal projeta “derrotas acachapantes para os setores progressistas e democratas” em 2026.

Terreri também comentou a escalada da violência contra mulheres, sustentando que o enfrentamento não pode se limitar ao campo subjetivo. “A violência contra a mulher é constituinte do capitalismo”, declarou. Ele defendeu estratégias amplas, da educação emancipatória às mudanças estruturais no trabalho e na organização social, e que “a masculinidade é uma espécie de pacto social. Vamos precisar de homens que sejam anti-machistas.”

Ao discutir queer marxismo, que une Karl Marx a estudos queer, o professor observou que a teoria clássica naturalizou gênero e sexualidade. Depois, ele apontou, pesquisas antropológicas, feministas e culturais do século 20 permitiram desnaturalizar essas categorias. “O queer marxismo é um desdobramento da teoria marxista capaz de olhar para a questão que faltou em uma série de análises”, esclareceu.

Para ouvir e assistir

BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 21h, na Rádio Brasil de Fato98.9 FM na Grande São Paulo. No YouTube do Brasil de Fato, o programa é veiculado às 19h.

Editado por: Luís Indriunas

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