O Brasil é o terceiro país do mundo que mais busca o termo “não-monogamia”, segundo levantamento do Google Trends. A curiosidade é justificada. A expressão agrupa diferentes formas de relacionamento afetivo, como poliamor, relacionamento aberto, relações livres e anarquia relacional.
A edição desta sexta-feira (9) do podcast BdF Entrevista se propõe a responder à pergunta: “O que é não-monogamia?”. Spoiler: não há apenas uma resposta. Para ajudar a entender o tema, o programa recebe o antropólogo Antonio Cerdeira Pilão, autor de Infinitos amores: um estudo antropológico sobre o poliamor, publicado pela Editora Telha.
Segundo o especialista, as discussões sobre o tema não são recentes. Já no Século 19, por exemplo, havia debates para entender se a monogamia era algo histórico ou natural, fundado em um “ciúme universal” dos seres humanos.
“Alguns autores diziam que era que era uma instituição histórica e outros que era uma instituição baseada na natureza. Eu tendo a trabalhar mais com a ideia de que era é uma instituição histórica. Mas isso não significa que ela foi inventada muito recentemente”, destacou.
Pilão lembra que diferentes culturas e formas de organização familiar e sexual sempre existiram – com relações exclusivas ou não exclusivas. Por isso, a discussão se torna até mesmo perigosa.
“Quando a gente diz que uma forma é expressão da natureza, a gente joga todas as outras para uma anomalia. Então, se a monogamia é natureza, ou se a poligamia é a natureza, a outra parte que sobra disso é visto como uma como uma aberração, como uma patologia, como uma doença. E não, são variações da organização social, são variações também dos indivíduos”, alertou.
Há discussões, também, sobre as diferentes formas de não-monogamia. O antropólogo aponta que não é possível associar todo tipo de relação não-monogâmica a um tipo de projeto político ou conjugal, já que as pessoas vivem relações distintas.
“Tem não-monogamias que são bastante conservadoras do ponto de vista de normas sexuais e normas em relação ao casamento”, exemplifica. “Então seria um equívoco se a gente associasse não-monogamia necessariamente a uma a uma ruptura de padrões normativos sobre família, sobre sexualidade”.
Quem topa uma relação não-monogâmica deve negociar os termos com as outras partes envolvidas, e essas discussões nem sempre são fáceis. Muitas vezes há um acordo que não é cumprido à risca, o que gera pontos de tensão.
“Se todo mundo fizer o que quer, no sentido de que cada um pensa na sua própria liberdade e constrói as relações que quer, a gente acaba de alguma forma atropelando os limites e causando sofrimento para as pessoas com quem a gente está se relacionando”, resumiu.
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo. No YouTube do Brasil de Fato, o programa é veiculado às 19h.
