Mulheres famosas e anônimas se tornaram vítimas de uma “trend” que ganhou força no X, a rede social de Elon Musk, nos últimos dias de 2025. O Grok, inteligência artificial da plataforma, passou a publicar imagens modificadas que despiam as vítimas – incluindo crianças. Em apenas um dia, foram cerca de 6,7 mil casos confirmados.
A prática é considerada crime em países como o Brasil. Com as imagens comuns do cotidiano dessas mulheres usadas como ferramenta para as agressões, a empresa de Musk agiu, mas não vetou completamente a ferramenta, que passou a ficar disponível apenas para assinantes pagos do Grok. A ameaça continua.
A socióloga Clarissa Mendes, pesquisadora em inteligência artificial, destaca que montagens do tipo já existiam antes mesmo da popularização das ferramentas de inteligência artificial, mas atualmente o acesso é facilitado e as imagens, cada vez mais realistas, são produzidas em segundos.
Segundo a especialista, as pesquisas sobre as chamadas deep fakes inicialmente tinham como foco os riscos políticos. Entretanto, o aprofundamento dos estudos mostrou que a grande maioria dos conteúdos falsos que circulam nas redes são pornográficos, quase sempre com mulheres como vítimas.
“Os efeitos podem ser sentidos tanto na saúde física como mental, tem impacto sobre emprego, família, vida social, além de ter um efeito inibitório sobre a liberdade de expressão das mulheres. Então a gente sabe que mesmo [as imagens] não sendo reais, os efeitos são”, resumiu Mendes.
No Brasil, houve alguns casos emblemáticos. Em uma escola de Maceió, por exemplo, os alunos não apenas criaram e compartilharam, como também venderam as imagens. Também não são raros os casos em que as montagens foram criadas por amigos, colegas de trabalho, companheiros ou até pais.
“A gente não está falando de um agressor individual, distante, doentio. A gente está falando de um problema sistêmico, por isso que ele tem se espalhado dessa forma, mesmo entre pessoas que estão em formação. Isso ajuda a pensar sobre as coisas que a gente naturaliza cotidianamente. O que é visto como uma brincadeira, o que é visto como uma piada, o que é aceitável fazer com a imagem e o corpo de uma mulher”, alertou.
O combate às agressões e a responsabilização das plataformas e das pessoas que estão por trás da criação das imagens ainda esbarra em limitações da legislação.
“Embora o Brasil tenha uma série de leis contra o abuso, contra a exploração sexual de criança e adolescente, a gente não tem ainda uma regulamentação específica para criação, distribuição e comercialização dessas plataformas. Essas regulações são super relevantes para impedir desde a concepção até a redistribuição do mercado consumidor”, cobrou a especialista.
Para Clarissa Mendes, é preciso pensar em políticas públicas estruturadas voltadas para a educação crítica digital, que envolva as crianças e adolescentes, mas também os educadores e famílias, visando criar uma rede de proteção.
“No meio digital, as coisas aparecem numa velocidade absurda e muito difícil de acompanhar, então é muito importante que isso se converta também numa política pública”, sugeriu.
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo. No YouTube do Brasil de Fato, o programa é veiculado às 19h.
