Nos últimos dias de 2025, iranianos foram às ruas em protestos motivados pela forte desvalorização da moeda local e pelo aumento do custo de vida. Aos poucos, porém, a mobilização ganhou uma nova cara: os manifestantes passaram a pedir o fim do regime comandado pelo Aiatolá Khamenei, líder supremo do país. Reza Palavi, filho do xá deposto na revolução, anunciou “estar pronto” para liderar a transição, enquanto o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, incentivou os manifestantes a continuarem nas ruas.
Guardadas as proporções, o episódio no Irã lembra o que aconteceu no Brasil em 2013. Protestos contra o aumento nos preços das passagens do transporte público em São Paulo ganharam corpo e, em pouco tempo, ganharam caráter nacional. As pessoas que iam às ruas passaram a incorporar pautas mais difusas, como o “fim da corrupção” e a rejeição aos partidos políticos. Após a mudança de tom, o movimento angariou amplo apoio da mídia comercial.
Esse tipo de fenômeno é conhecido como “revolução colorida”. Para entender melhor o conceito e os atores envolvidas, o BdF Entrevista desta quinta-feira (22) recebeu o cientista político Mateus Mendes, autor de Guerra híbrida e neogolpismo: geopolítica e luta de classes no Brasil (2013-2018), publicado pela Expressão Popular.
“No meu entendimento a revolução colorida é o ápice da guerra ideológica. Porque uma série de atores e agências que operam para a guerra ideológica, os aparelhos de hegemonia, vão trabalhando e disseminando as ideias da democracia liberal e do neoliberalismo”, afirmou o cientista político.
O trabalho não tem resultados imediatos. O investimento é a longo prazo. Entre os agentes apontados pelo especialista estão think tanks, associações, empresas privadas, veículos da mídia comercial e, claro, órgãos de governo a serviço do imperialismo. E, em geral, os ataques acontecem em países do Sul Global.
“Essas agências fazem um trabalho de cooptar corações e mentes para sua causa. Em algum momento, ocorre no cenário político local algo percebido como um potencial gatilho para estourar uma revolução colorida. Então, toda a engrenagem entra no funcionamento para colocar pessoas na rua”, explicou.
O especialista explica que, em diferentes casos, protestos legítimos são, em algum momento, alvo de ações desses grupos organizados, que se apropriam das pautas. Afinal, é preciso que as pessoas estejam mobilizadas por causas que são relevantes em cada local. E isso não é incomum.
“Em qualquer regime, sob qualquer governo, em qualquer país, em qualquer tempo, há motivo para os mais pobres e o que a gente chama de ‘classe média’ estar insatisfeita. Sempre há motivos. A questão é que determinadas pautas permitem a apropriação para eleições coloridas”, ressaltou.
Após estudar sobre o caso de 2013 no Brasil, Mendes afirma que não há qualquer indício que vincule o Movimento Passe Livre a esses agentes neoliberais – a pauta do direito ao transporte é essencialmente anticapitalista. Depois de pouco tempo, o movimento foi sequestrado.
“É importante as pessoas terem clareza do calendário: quando [as manifestações de junho de 2013] ficam gigantes, elas já eram de direita. As manifestações de esquerda param uma semana antes de estourar mesmo a revolução colorida. A imprensa muda a abordagem uns dias antes das manifestações ficarem gigantes”, relatou.
“O fato é: o conjunto de pautas que vai permitir uma revolução colorida tem que ser algo que seja amplo e cujo ataque seja quase impossível. ‘Ah, é contra a corrupção’. Ninguém é contra corrupção'”, resumiu.
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo. No YouTube do Brasil de Fato, o programa é veiculado às 19h.
