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Conselho de Paz existe para ‘servir ao ego’ de Trump, diz especialista em relações internacionais

Ana Carolina Marson apontou uma série de problemas e incoerências na proposta do presidente dos EUA

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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante o lançamento de seu 'Conselho da Paz'
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante o lançamento de seu ‘Conselho da Paz’ | Crédito: Mandel Ngan/AFP

Lançado formalmente em 22 de janeiro, o Conselho de Paz idealizado e presidido por Donald Trump segue gerando controvérsia. O grupo, que foi anunciado como uma ferramenta para reconstrução da Faixa de Gaza, pode, na verdade, esconder outros objetivos do presidente dos Estados Unidos, e representa, até mesmo, uma ameaça à Organização das Nações Unidas (ONU) como instância multilateral. Até por isso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é um dos líderes que ainda não responderam se vão ou não fazer parte.

Para a professora de relações internacionais Ana Carolina Marson, da Escola Paulista de Sociologia e Política (FESPSP), Trump lançou o grupo com objetivos pessoais claros: satisfazer seu próprio ego.

A especialista conversou com a apresentadora Raquel Setz na edição desta quarta-feira (28) do podcast BdF Entrevista, do Brasil de Fato, e apontou uma série de problemas e incoerências na proposta do presidente dos EUA. Uma delas: o estatuto do tal Conselho prevê que Trump será o presidente vitalício da instituição, mesmo depois que deixar a presidência do país.

“Ou seja, mesmo que ele não seja mais um estadista, ele seria o responsável por aquele conselho. Então, na verdade, essa característica do conselho nos mostra esse caráter de servir ao ego, ao narcisismo de Donald Trump. Ele querer se mostrar como essa figura internacional. Esse estatuto é bastante complicado”, resumiu.

A especialista criticou também o fato de a versão publicada do estatuto do grupo sequer mencionar a Faixa de Gaza, mesmo que, em tese, tenha sido criado para administrar a reconstrução do território palestino. A amplitude de espaços de atuação mostra que o objetivo de Trump com o Conselho pode ir além de Gaza, abrindo a possibilidade de tentar suplantar a ONU. Com uma diferença relevante: o absolutismo no poder.

“A ONU, por exemplo, não tem um presidente vitalício. Ela não tem mesmo um secretário-geral vitalício. Ou seja: existe um mecanismo de pesos e contrapesos. Existe uma rotatividade no poder. E quando nesse órgão, o Donald Trump se coloca como presidente vitalício, ele se dá esse poder excepcional, inclusive de escolher quem vai entrar e quem não vai”, prosseguiu Marson.

Trump exigiu, ainda, que os líderes e representantes de países que decidirem aderir ao Conselho devem pagar US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5,2 bilhões) para garantir a cadeira. “Parece a entrada de um clube. Um clube comandado por ele. Ele escolhe quem entra, quem não entra, e quem quiser entrar ainda tem de pagar essa taxa”, disse a especialista.

Para Marson, reações como a do presidente Lula, com quem mantém boa relação nos últimos meses e que ainda não se posicionou, ou até mesmo recusas expressas, de países como Suécia, Alemanha e Espanha, podem fazer Trump recuar ou recalcular os planos em relação ao Conselho – assim como fez em outros episódios em que criou ruído internacional, como as ameaças de anexação da Groenlândia.

“Ele é uma pessoa de muita bravata, de uma retórica muito dura, e eu acredito que ele vai sentindo a temperatura internacional. Na Groenlândia, a resistência foi muito mais alta. Então, ele já retrocedeu. A mesma coisa com as tarifas. Publicou aquela série de tarifas, houve resistência internacional, ele começou a retroceder”, comparou.

A avaliação da especialista é que Trump, em seu segundo mandato como presidente dos Estados Unidos, tenta colocar em prática algumas coisas que não conseguiu quando passou pela primeira vez pela Casa Branca, entre 2017 e 2021.

“Ele quer uma mudança dessa ordem internacional, ele não aceita um cenário internacional multipolar, ele não aceita esse multilateralismo. Ele gosta muito dessa linha de ‘venham a mim’. Então, colocou as tarifas, como nós comentamos, e deixou que os países fossem atrás dele para negociar, tenta criar esse Conselho de Paz. Ele vem tentando subverter essa ordem internacional e tentar colocar os Estados Unidos de novo como a única liderança incontestável no cenário internacional”, resumiu.

Para ouvir e assistir

BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato98.9 FM na Grande São Paulo. No YouTube do Brasil de Fato, o programa é veiculado às 19h

Editado por: Maria Teresa Cruz

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