Contra o racismo

‘Panteras Negras não estão voltando, mas seu legado segue vivo’: professor analisa resistência negra nos EUA e a força do partido que inspirou o mundo

Henrique Marques Samyn traça a trajetória do Partido dos Panteras Negras e a influência duradoura em tempos de xenofobia e violência do governo Trump

Panteras Negras e a força do seu legado
Panteras Negras e a força do seu legado | Crédito: Wikimedia Commons

Nos Estados Unidos, a sociedade civil tem se organizado para resistir às ações do ICE, a truculenta polícia migratória. Entre os grupos e indivíduos que têm tomado as ruas de cidades como Nova Orleans, se destacam pessoas negras fortemente armadas, usando boinas e camisetas com o logo do Partido dos Panteras Negras. O grupo original nasceu em 1966, valendo-se da legislação permissiva em relação ao porte de armas para patrulhar bairros negros e interpelar abordagens policiais. A figura da pantera foi adotada como símbolo por ser um animal que não ataca primeiro, mas reage se for ameaçado.

Mas afinal, os Panteras Negras estão voltando? Para entender esse fenômeno e a força do legado do partido, o BdF Entrevista conversou com Henrique Marques Samyn, professor de literatura da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), escritor, autor do livro Os Panteras Negras: uma introdução e organizador da coletânea Por uma revolução antirracista: uma antologia de textos dos Panteras Negras.

Samyn começa fazendo uma distinção importante: “Os Panteras Negras não estão voltando. Esse movimento é liderado por Paul Birdsong. Não é a primeira vez que um grupo se proclama o sucessor dos panteras e nem vai ser a última. Esse grupo tem recebido essa visibilidade tão grande por algumas razões específicas: primeiro, por conta de toda a visibilidade que o próprio ICE tem recebido e as reações contra o ICE. A gente vê todos os absurdos que o Trump vem cometendo, tudo isso já está nas manchetes. Aí a gente tem esse grupo que tem reagido efetivamente, implementado uma linha de reação mais eficaz, e isso faz com que esse grupo chegue às manchetes.”

Ele explica que o grupo de Birdsong está implementando estratégias semelhantes às que o Partido Pantera Negra adotou em seu surgimento. “O que o grupo do Birdsong faz? Ele pega armas de uma maneira lícita, respeitando as leis, e começa a reagir contra abusos das autoridades. Isso foi exatamente o que Huey Newton, Bobby Seale e os panteras estavam fazendo lá em 1967. Ele está imitando as estratégias que os Panteras Negras fizeram lá atrás.”

No entanto, Samyn ressalta a diferença fundamental: o programa original dos panteras ia muito além da reação à violência policial. “Quando os Panteras Negras fizeram isso lá atrás, havia um motivo para eles fazerem isso quando a gente olha o programa de 10 pontos seguido pelos Panteras Negras. O programa não falava apenas dessa questão da reação à violência policial. Falava também de disponibilizar moradia para o povo negro, educação para o povo negro, empregos para o povo negro. E disponibilizar esses outros direitos para essa população negra e pobre demandaria tempo. O que se conseguiria fazer muito rapidamente era propiciar a proteção. As armas, o Partido Pantera Negra consegue muito rapidamente.”

Samyn destaca a origem dos fundadores como um elemento central para compreender o partido. “Os Panteras Negras são fundados por dois estudantes pretos e pobres, o Bobby Seale e o Huey Newton. Isso mostra muito bem a origem popular desse movimento que vai se tornar um movimento referencial para a luta negra historicamente.”

“O partido começa a surgir quando o Malcolm X é assassinado, e aí o Bobby Seale fica muito indignado e revoltado, ele não sabe muito bem como agir. Tem a história de que ele vai para a rua, pega uma pedra, começa a atacar os carros dos brancos que passavam como uma maneira de extravasar essa raiva. Só que em um determinado momento ele se dá conta de que isso não ia levar ele para lugar nenhum. Então ele volta para casa e fica um tempo recolhido, pensando em como ele poderia canalizar essa raiva dele de uma maneira produtiva”, contextualiza.

Quando Seale se encontra com Huey Newton no final de 1966, eles decidem fundar um grupo que fosse realmente diferente dos outros coletivos da época. “Eles não queriam algo que fosse muito teórico, apenas um grupo de estudos, como havia muitos outros. Uma maneira de diferenciar o Partido Pantera Negra dos grupos de estudo era realizando essas patrulhas contra os abusos policiais, uma maneira de demonstrar que eles estavam fazendo uma coisa prática a favor da comunidade negra.”

Isso não significa, porém, que os panteras negligenciaram a formação teórica. Samyn relembra uma história emblemática: “Um cara chega para se alistar nos panteras e diz: ‘Ah, eu quero me tornar uma Pantera Negra, me dá logo as armas aí que eu quero ir lá participar das patrulhas contra os policiais’. E eles vão e dão para ele um monte de livros. ‘Você quer se tornar uma Pantera Negra, lê tudo isso aqui e aí você se junta a nós’.”

O professor também explica como os Panteras se diferenciavam de outras correntes do movimento negro, como o nacionalismo cultural representado por Ron Karenga. “Eles viam o nacionalismo negro como a ideia de que você poderia realizar uma revolução retornando a uma visão africana idealizada, o que para os panteras era algo reacionário. O grupo do Ron Karenga defendia, por exemplo, que as mulheres negras deveriam permanecer em uma posição submissa em relação aos homens negros, porque nas sociedades africanas deveria ser assim. No grupo dos Panteras Negras não era assim. A orientação geral do partido é de que a distribuição das tarefas deveria ser igualitária.”

Alianças para além da raça

Samyn também esclarece um ponto que pode gerar confusão. “Os Panteras Negras nunca foram sectários nesse sentido. Muito pelo contrário. Os Panteras Negras sempre entenderam que qualquer luta que fosse efetivamente revolucionária precisava ser uma luta anticapitalista e anti-imperialista. Isso significava que, se o capitalismo está oprimindo, você vai ter pessoas negras que vão ser capitalistas, que vão ser beneficiadas pelo capitalismo. Nem todos os negros vão estar numa posição de oprimidos. Assim como você vai ter pessoas que não vão ser negras que também vão estar nessa condição de serem oprimidos e com as quais você pode se aliar.”

Ele cita o exemplo de Fred Hampton, liderança fundamental em Chicago. “Fred Hampton vai trabalhar com lideranças indígenas, com os chicanos, com os trabalhadores rurais para construir uma grande coalizão que vai ser a famosa Coalizão Arco-Íris, que vai de fato pacificar aquela região e unir tudo isso num grande movimento com uma proposta revolucionária. E isso é o que vai colocar o Fred Hampton na mira das autoridades.”

Samyn lembra ainda que havia pessoas não negras que eram oficialmente Panteras Negras, como Richard Aoki, um nipodescendente que foi importantíssimo para o partido. “Os Panteras Negras acabaram inspirando por conta disso outros grupos que foram formados em outros países, como os Dalits Panthers na Índia, e, nos Estados Unidos, a Guarda Vermelha, um grupo asiático que trabalha a partir dos 10 pontos dos panteras.”

Os panteras se colocavam como marxistas-leninistas, mas com uma diferença fundamental em relação à ortodoxia. Samyn explica: “Eles davam muita ênfase à figura do lumpemproletariado, aquela pessoa que vive à margem da sociedade – traficante, prostituta, delinquente juvenil. Eles queriam atrair essas pessoas para as suas fileiras. O que estava por trás disso era a própria origem dos fundadores, uma galera que estava muito próxima das ruas, principalmente o Huey Newton. Ele viu um potencial político, um potencial revolucionário nessas pessoas.”

O professor ressalta que o ideário político dos panteras nunca foi monolítico. “Se a gente olhar os textos publicados ao longo do tempo, nós vamos ter alguns que vão ter uma orientação um pouco mais ortodoxa, principalmente por parte daquelas figuras mais intelectualizadas. Mas a gente também vai ter textos que vão ser francamente mais revisionistas. O Eldridge Cleaver disse: ‘Se o Marx lesse isso que a gente está escrevendo aqui, ele iria se revirar no túmulo, mas isso não é um problema. A gente está repensando tudo isso em função da nossa briga, daquilo que a gente quer enfrentar’.”

A estética como arma revolucionária

Samyn dedica especial atenção ao trabalho de Emory Douglas, responsável pela arte gráfica do partido. “Ele tem uma trajetória parecida com a do Eldridge Cleaver, no sentido de ser esse cara que também vem das ruas e que passa por todo esse processo de conscientização. Os Panteras percebem o potencial que a estética tem naquele contexto específico.”

A valorização da estética negra tinha múltiplas dimensões. “Tanto no sentido de colocar em questão a maneira como a sociedade faz com que pessoas negras odeiem a si mesmas, odeiem o seu fenótipo, as suas características físicas, quanto no efeito que isso acaba tendo na própria relação entre as pessoas negras. Tem textos dos Panteras Negras que vão questionar o fato de homens negros não valorizarem mulheres negras. Isso é uma questão que ainda hoje em dia é importante, e que está lá nos textos publicados pelos Panteras Negras na década de 60, na década de 70.”

O trabalho de Emory Douglas vai criar a figura do negro revolucionário e, de forma ainda mais inovadora, da mãe negra revolucionária. “É uma mulher negra, grávida, com uma arma nas costas. Isso é uma figura absolutamente revolucionária naquele contexto. É num momento em que tantas vezes nas próprias comunidades negras se pensava que a função da mulher negra era gerar filhos para comunidade negra, se pensava na mulher negra como tendo esse espaço doméstico. O Emory Douglas está trazendo essa outra figura: ela pode gerar filhos, sim, mas também ela pode pegar em armas, nos Panteras Negras elas vão ter esse treinamento também. Ela também pode ir para a linha de frente do combate, ela também está ali participando da revolução.”

O inimigo na linha de frente e a repressão do Estado

Sobre a escolha dos policiais como alvo principal, Samyn esclarece: “A polícia era a linha de frente. Não é que a polícia fosse o único alvo. Na verdade, os grandes inimigos eram os capitalistas, os que estavam lá atrás de tudo. E como eu disse, os capitalistas não eram apenas brancos. Havia essa noção de que os grandes inimigos estavam por trás, mas o problema é que a linha de frente quem estava ali oprimindo concretamente nas ruas eram os policiais. Então, esses que estavam ali o tempo todo oprimindo o povo, eram os que estavam invadindo os capítulos dos Panteras, eram os que estavam chegando lá com arma, metendo bala, atacando bomba. Era preciso saber reconhecer o inimigo, e o porco tinha sua função nesse sentido também, um sentido didático.”

O professor descreve a dimensão da repressão sofrida pelos panteras: “É muito difícil a gente conseguir dimensionar, conseguir explicar o que foi essa repressão contra os panteras, porque foi algo descomunal. Em 1968, o Cointelpro, o serviço de contrainteligência estatal, se volta prioritariamente contra os panteras. Mas é importante entender que o Cointelpro já estava funcionando desde muito antes, desde os anos 50, ele já tinha agido contra Malcolm X, contra Martin Luther King. Eles já sabiam muito bem como agir, já tinham um aparato colossal de repressão atuando, e aí eles elegem os panteras como alvo prioritário porque os Panteras estavam chegando longe demais.”

O que tornava os panteras tão perigosos aos olhos do Estado não era apenas o porte de armas. “O que realmente preocupava as autoridades era que os panteras estavam alimentando gente demais, distribuindo comida para as crianças nas escolas da libertação. Eles foram os primeiros a distribuir refeições de qualidade nas escolas para as crianças. Eles perceberam que as crianças negras, as crianças pobres, não estavam tendo condições de aprender decentemente porque estavam passando fome.”

Os Panteras Negras implementaram diversos programas comunitários: clínicas de saúde, distribuição gratuita de roupas, programas de ambulância, serviços de referência legal, programas de tratamento dentário, aulas culturais, aulas de teatro, aulas de nutrição, distribuição de sapatos, transporte gratuito para prisões.

“Eles estavam de fato realizando programas de reforma de base no nível muito substancial. Isso estava se espalhando pelos diferentes capítulos. Eles estavam angariando a simpatia de gente demais. Isso é o que começa a tornar os panteras perigosos demais para as autoridades estadunidenses”, acrescenta.

O Cointelpro então mobiliza todos os seus esforços. “Ele infiltra gente nos capítulos dos partidos, instala escutas de maneira ilegal em tudo quanto é canto. Quando eu falo que ele infiltra pessoas, não é de uma maneira inofensiva só para obter informações. É para assassinar pessoas. Eles começam a realizar detenções ilegais, detenções que resultam em condenações de integrantes do Partido à morte. Tem membros do Partido Pantera Negra condenados à morte até hoje, presos nos Estados Unidos. Chegou um momento lá em 68 em que todos os líderes dos partidos estão presos, dezenas estão condenados à morte, centenas estão detidos, centenas estão sendo procurados.”

É nesse contexto que Fred Hampton, o “Messias Negro” que unificava diferentes setores revolucionários, é assassinado enquanto dormia, em uma operação covarde que simboliza a brutalidade da repressão.

O legado que permanece

Ao final, Samyn reflete sobre a influência duradoura dos Panteras Negras. “É muito difícil a gente pensar hoje em alguma coletividade negra, em algum movimento negro, que não tenha sido influenciado de alguma maneira pelos Panteras Negras. Na verdade, foi isso inclusive que me levou a publicar a antologia. Eu me dei conta naquele momento de que a gente falava muito sobre os panteras, a gente tinha muita referência dentro do movimento negro, dentro de aulas sobre cultura negra, sobre a história do movimento negro, mas a gente conhecia muito pouco sobre os panteras.”

“Eles vão incorporar definitivamente as questões estéticas às lutas negras. Você afirmar a sua estética negra como uma questão política, isso se torna uma questão muito central. E para a gente trazer uma questão muito fundamental, eles vão, de uma certa maneira, consolidar aquilo que a gente entende como uma militância interseccional, porque eles vão entender que raça, classe e gênero são questões indissociáveis. Você não consegue combater um eixo de opressão sem combater os outros ao mesmo tempo. Se você fizer isso, você não consegue enfrentar uma questão dessas de uma maneira eficiente, de uma maneira eficaz. Você precisa atacar todas essas frentes se você quiser, de fato, construir uma luta efetivamente revolucionária”, destaca.

O legado dos Panteras Negras, conclui Samyn, está aí o tempo todo. “A questão é a gente lidar com esse legado de uma maneira consciente, aprendendo com a história, não se apropriando desse termo de uma maneira inconsequente.”

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

Editado por: Luís Indriunas

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