Revirando o caos

Essa história de ‘unir o Brasil’ vem da direita golpista, afirma Helder Maldonado

‘É possível unir o Brasil?’: jornalista e criador do canal Galãs Feios lança livro que mergulha no caos nacional com humor

Segundo turno das eleições presidenciais aumenta polarização política
Segundo turno das eleições presidenciais em 2022 | Crédito: Miguel Schincariol/AFP

“O reverendo Pablo Marçal não é professor, palestrante, pastor ou mesmo coach. Ele é apenas a dominatrix do neoliberalismo. Agora você está apanhando como nunca. Mas quem sabe um dia, se você mudar seu mindset, chegue sua vez de torturar os outros.” Quem escreve é Helder Maldonado, jornalista, criador do canal Galãs Feios e autor do recém-lançado É possível unir o Brasil? – O sonho improvável de um Brasil sem treta no grupo da família (Editora Planeta).

O livro chega às livrarias após o sucesso de sua primeira obra, Amanhã Vai Ser Pior, e é uma coletânea de textos inéditos que mantém o padrão do canal de analisar o caos brasileiro com humor, sem perder de vista a gravidade dos temas abordados. Ao BdF Entrevista, Maldonado falou sobre o trabalho de “mergulhar no mar de lama e lixo que é o Brasil”, a importância do humor como ferramenta política e por que se considera um pessimista convicto.

O livro parte de casos reais que poderiam parecer ficção se não tivessem acontecido. Um deles é a live de Wesley Safadão durante a pandemia, patrocinada por um garimpeiro da Amazônia com ligações com o narcotráfico. “A família do Wesley é uma família de políticos. O irmão dele acabou de ser caçado lá no Ceará. A mãe dele, Dona Bill, é envolvidíssima com política há anos”, contextualiza Maldonado.

Para ele, o episódio revela algo mais profundo: “Isso fecha um grande combo do que é a direita brasileira. Essas pessoas que chegam nas suas lives arrotando virtude e moralismo, nos bastidores, se você fizer um pente-fino, não fica pedra sobre pedra. Estão sempre aliadas a coisas muito sujas”.

O jornalista cita outros exemplos: Gusttavo Lima em um iate com investigado da Bette e Ronaldo Caiado na Grécia, Leonardo acusado de trabalho análogo à escravidão, Nikolas Ferreira no avião da família de Daniel Vorcaro. “O tempo inteiro a gente tem reforços do quanto a direita está muito, mas muito próxima do crime organizado em suas várias facetas aqui no Brasil.”

O título do livro é uma provocação. “Eu sou um pessimista nato. O primeiro livro se chamava Amanhã Vai Ser Pior. E, durante muito tempo, foi pior. Esse É Possível Unir o Brasil surge como uma provocação. No subtítulo a gente já dá a resposta: é um sonho improvável.”

“O que temos de extrema esquerda no Brasil é irrelevante do ponto de vista representativo. A gente tem um projeto democrático e amplo, que é o do Lula, com o Alckmin como vice, ministros do PP, do União Brasil. Não tem nada de extrema esquerda, nunca teve em nenhum governo do Lula. Do outro lado, sim, é uma extrema direita que se espelha em Trump e Milei”, aponta.

Maldonado provoca: “Durante o governo Bolsonaro, existia espaço para ministro do PT, Psol, PCdoB? Muito difícil. Já no governo Lula, sempre tem a figurinha da direita, às vezes até na vice-presidência, como Michel Temer, agora com o Alckmin”.

Com Bolsonaro preso, o campo da extrema direita busca se reconfigurar. “Evidente que ele já é meio que superado dentro desse movimento, mas ele ainda dá as cartas de dentro do presídio. Só que ele não pode ser eleito. E nisso surgem os oportunistas, pessoas que querem ganhar o legado do Bolsonaro.”

Maldonado aposta em nomes como o deputado federal Nikolas Ferreira como possível herdeiro político. “Ele quer fazer o próprio clã familiar dele em Minas Gerais. O pai dele vai ser eleito esse ano, com certeza.” O jornalista destaca as tensões internas: Nikolas foi recentemente criticado por Alan dos Santos e Paulo Figueiredo — “garganta de aluguel do Eduardo Bolsonaro” —, sinal de disputa nos bastidores.

Para as eleições deste ano, Maldonado não tem boas notícias. “Vai ser muito parecido com 2022. O bolsonarismo ainda vem muito forte. Eles vão colocar inúmeros deputados nas câmaras e assembleias.” O grande risco, alerta, é a ocupação de cadeiras no Senado. “A grande jogada da extrema direita era justamente tomar de assalto o Senado. Ganhar a presidência pode ser um bônus, mas tomar o Senado era a grande tática para emparedar o STF e o Lula em um eventual quarto mandato.”

Ele cita arranjos já em curso: no Distrito Federal, a provável eleição de Damares Alves e Michelle Bolsonaro, em substituição a Leila do Vôlei, “uma política que trabalha, é séria, ao contrário do Romário”. Em Santa Catarina, a tentativa de eleger Carlos e Carol de Toni escanteando Esperidião Amin.

“Você fazer uma análise de esperança para a esquerda, pelo menos em nível legislativo, é tentar enganar o eleitor. A gente não tem estrutura para bater de frente com as campanhas de extrema direita para a Câmara, Assembleia e Senado”, destaca.

Um dos pontos mais originais da análise de Maldonado é a crítica ao que chama de “derrotismo” da esquerda diante dos resultados eleitorais, sem considerar a estrutura clientelista que domina os municípios brasileiros. “Tem cidade em que o único objetivo da vida da pessoa é trabalhar na prefeitura. O único emprego que não é precário. Como você vai chegar numa cidade assim e falar que apoiar o prefeito é errado, que é preciso ter consciência de classe?”, explica.

O jornalista argumenta que a autocrítica é importante, mas não explica a derrota diante de máquinas políticas consolidadas. “O PT já teve muito mais prefeituras porque muita gente se filiou ao PT porque era interessante. O presidente era o Lula. Hoje as coisas mudaram, a força do bolsonarismo é enorme nessas cidades. O cara às vezes migrou do lulismo para o bolsonarismo e está tranquilo.”

O humor como trincheira

O canal Galãs Feios, que completa 10 anos de história (8 de canal no YouTube), ocupa um lugar específico no ecossistema da esquerda na internet: o do humor como ferramenta política. “Durante muitos anos, a esquerda não usou esse artifício. Isso era exclusividade da direita. Hoje a gente tem um ecossistema legal — Brasil de Fato, ICL, Galãs — que pode bater de frente, embora a direita ainda seja muito maior.”

A mistura de pautas é uma marca: política séria intercalada com “pauta lixo” — padres em situações constrangedoras, prefeitos brigando na rua, música, cultura pop. “Eles cobram isso, né? ‘Hoje tem muita política, cadê a pauta lixo?’ É uma coisa da Galãs, exclusividade nossa.”

Para ele, a extrema direita facilita o trabalho. “A bola já vem levantada. As manifestações dos ‘patriotários’, com aquelas declarações desconexas, baseadas em tags e frases de efeito, com pessoas de olhar perdido — eu não preciso fazer quase nada. Basta comentar em cima e colocar o vídeo. O próprio conteúdo já é involuntariamente muito engraçado.”

Parte do sucesso do canal vem da capacidade de encontrar personagens obscuros que só a Galãs parece conhecer, como o lendário Luciano César, que acredita que Lula morreu e foi substituído por cinco clones. “Tem o envio do próprio público, mas também tem a minha garimpagem de chafurdar o lixo da internet. Durante anos, fiz parte de grupos de bolsonaristas no WhatsApp. Muitos morreram depois da derrota de 2022, mas dali tirei muito conteúdo.”

Sobre Luciano César, Maldonado ironiza: “Pra ele, todo mundo morreu. E quem morreu, na verdade, tá vivo. Bregman Hall, Elvis Presley. Imagina viver dentro da cabeça de um sujeito como esse. Não teria como ele não ser atraído pelo pior movimento político que a gente já teve.”

Lançamento

É possível unir o Brasil? será lançado oficialmente na terça-feira (24), a partir das 19h, na livraria Megafauna, na região da Consolação, em São Paulo. O livro já está em pré-venda em todas as livrarias do país. Se for sucesso, promete Maldonado, haverá lançamentos em outras cidades.

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

Editado por: Nathallia Fonseca e Rafaella Coury

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