Solução ou risco ?

‘O belicismo imperou e triunfou’: antropólogo avalia PL Antifacção

Lenin Pires critica endurecimento penal como resposta à violência e alerta para os perigos de uma intervenção estrangeira na soberania nacional

Militariy police officers patrol during the Operacao Contencao (Operation Containment) at the Vila Cruzeiro favela, in the Penha complex, in Rio de Janeiro, Brazil, on October 28, 2025. At least 2,500 security forces agents took part in an operation to arrest drug traffickers from the Comando Vermelho (CV), which resulted in 18 suspects and several police officers dead. (Photo by Mauro PIMENTEL / AFP)
Polícia Militar durante Operação Contenção na favela Vila Cruzeiro, no Complexo da Penha, Rio de Janeiro, em 28 de outubro de 2025 | Crédito: Mauro Pimentel / AFP

Após o Congresso Nacional aprova o chamado PL Antifacção, que endurece penas e amplia o escopo das investigações, o debate sobre segurança pública no Brasil se intensifica. De um lado, a aposta no confronto armado e no encarceramento em massa; do outro, a necessidade de compreender a complexidade do crime organizado, que movimenta bilhões, atravessa fronteiras e se infiltra no sistema financeiro. Em meio a esse cenário, a pressão dos Estados Unidos para classificar facções brasileiras como “organizações terroristas” acende alertas sobre soberania e interesses externos.

“Foi um projeto que se contaminou com o processo político às vésperas das eleições. Acabou cumprindo o objetivo de uma maioria parlamentar voltada para a repressão, com riscos de atropelar direitos e atender interesses de mercados variados — de armas, de tecnologias digitais, de profissionais da segurança, da advocacia. O belicismo imperou e triunfou”, avalia o antropólogo e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), Lenin Pires, no BdF Entrevista.

Para ele, o texto final privilegia o endurecimento penal em detrimento de abordagens mais sofisticadas, como Operação Carbono Oculto, exemplo que expôs a relação do crime organizado com setores da sociedade até então encobertos como o mercado financeiro.

Pires destaca que a operação mostrou o que especialistas já sabiam há anos: o crime organizado não se restringe aos territórios periféricos. “Você não tem pé de fuzil ou pé de coca nos morros cariocas ou na periferia paulista. Lá está a ponta do iceberg. O crime de verdade envolve bilhões, bancos, instituições financeiras, e até mesmo igrejas, como vimos no caso do Banco Master.”

Ele critica a seletividade do sistema penal. “Uma pessoa que rouba um leite em um supermercado é tratada como criminosa, enquanto o banqueiro que desvia bilhões tem todas as garantias. A desigualdade no tratamento é um legado do século 19, da escravidão, e se reproduz até hoje. Quem está preso, quem morre, quem é desempregado? Fundamentalmente, pessoas pretas e pardas, entre 15 e 29 anos.”

Pires aponta a contradição central da política de encarceramento em massa, uma vez que o local de aliciamento das facções é justamente o sistema penitenciário. “Mais de 40% das pessoas presas sequer passaram por um primeiro julgamento. E os presídios federais não cumpriram o prometido de afastar líderes da cadeia de comando. O PCC só aumentou seu poder.”

Ele lembra que o controle estatal sobre o crime organizado é pífio. “As rebeliões são demonstrações de poder, e o que está em jogo muitas vezes é o extermínio de pessoas que poderiam ter recebido penas muito menores. O sistema penitenciário serve para construir solidariedades entre criminosos, mas também para mostrar poder.”

O risco da classificação como terroristas

Sobre a pressão dos EUA para classificar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas, Pires é categórico. “Essa tentativa vem de grupos que apoiam o ex-presidente preso e que estão em atuação nos Estados Unidos. É uma estratégia parecida com a adotada na Venezuela, onde a questão das drogas serviu como discursividade para uma intervenção.”

Ele alerta para os riscos à soberania nacional. “Os Estados Unidos vivem uma crise profunda e sua aposta é o ‘big stick’ — a força militar para reafirmar poder. Isso foi feito na Venezuela, está sendo feito no conflito entre Israel e Irã, e pode acontecer com o Brasil, considerando nossas fragilidades fronteiriças e tecnológicas.”

Pires rebate a classificação: “Grupos terroristas têm um interesse político, buscam tomar o poder do Estado. PCC e Comando Vermelho querem ganhar dinheiro, controlar mercados, não participar de eleições. Classificá-los como terroristas é um equívoco que serve a interesses externos.”

A naturalização da morte e a necropolítica

O antropólogo denuncia a naturalização da violência no Brasil. “Nós já nos acostumamos com o grau de letalidade policial, com a morte de jovens negros e periféricos. O filósofo Achille Mbembe chama isso de necropolítica: a maneira como certos segmentos sociais são tratados pelas políticas públicas. Isso vale para a segurança, para a saúde, para a educação.”

Ele conclui com um chamado à necessidade de informação. “Os formuladores de políticas públicas precisam estar atentos ao que a academia produz. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Ipea [Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada], as universidades — todos produzem conhecimento vasto sobre o assunto. Precisamos de um debate público informado para brecar esse absurdo e construir resistências diplomáticas e materiais.”

Enquanto isso, a esquerda brasileira enfrenta seu próprio desafio: debater segurança pública sem cair no reacionarismo ou na omissão. Para Pires, “a covardia de não querer enfrentar a desigualdade de frente é o que nos impede de construir políticas eficazes e justas.”

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

Editado por: Luís Indriunas

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