Enquanto a guerra no Oriente Médio completa um mês e escancara a vulnerabilidade energética global, a transição para fontes limpas de energia avança mais devagar do que o necessário. Hoje, cerca de 80% da energia mundial ainda vem de combustíveis fósseis, e a meta de zerar as emissões líquidas de gases de efeito estufa até 2050 — acordada em Paris há mais de dez anos — parece cada vez mais distante.
No BdF Entrevista, o professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC), Igor Fuser, analisa os desafios da transição energética, os interesses geopolíticos em jogo, o papel da Petrobras e a necessidade de um debate que vá além da técnica e incorpore justiça social e soberania nacional.
Fuser começa por situar a urgência do problema. “Quanto mais tempo demorar para levarmos adiante a transição energética, piores vão ficar as condições do planeta. Mais frequentes vão ser as situações climáticas extremas: furacões, invernos excessivamente frios ou quentes, diminuição da vazão dos rios que abastecem as hidrelétricas, secas prolongadas afetando a agricultura, gerando fome.”
Ele lembra que os efeitos já são sentidos e que, mesmo no melhor cenário, a reversão levará décadas. “Se parássemos hoje totalmente de emitir gases de efeito estufa, levaríamos de 30 a 50 anos para começar a sentir uma melhora. Nós não estamos trabalhando para nós como indivíduos, estamos trabalhando para gerações futuras.”
O analista destaca que a transição envolve três dimensões fundamentais. “A primeira é a segurança energética: durante o processo de mudanças, o fornecimento de energia precisa ser mantido sem sobressaltos. O bloqueio do Estreito de Ormuz, que afeta 20% do petróleo e do gás natural liquefeito do mundo, já mostra o impacto de uma interrupção.”
“A segunda é a sustentabilidade: é preciso que haja realmente uma substituição dos combustíveis fósseis por fontes limpas — eólica, solar, hídrica, nuclear. E a terceira é a justiça energética: não podemos pensar numa transição que aumente a desigualdade no acesso à energia no mundo, que torne a energia mais cara para as maiorias populacionais. Isso seria insustentável politicamente”, explica.
Fuser aponta que os recursos necessários para a transição — lítio, nióbio, terras raras — estão concentrados nos países do Sul Global. “Esses países são os que recebem maior insolação, têm maior potencial de geração de energia solar e eólica. Os minerais críticos também estão aqui. Isso pode ser uma maldição, atraindo a cobiça dos mais poderosos, ou uma oportunidade, se usados a favor do desenvolvimento local.”
Ele cita o exemplo da China, que transformou seus recursos em vantagem tecnológica e industrial. “No Brasil, temos volumes enormes de lítio, nióbio, terras raras. Trump já indicou que vai fazer de tudo para pôr as mãos nas terras raras brasileiras. Vai haver uma disputa. Se nós vamos permanecer no lugar de fornecedores de recursos preciosos para os centros políticos e econômicos do planeta, ou se vamos usar essa posição estratégica em favor do nosso desenvolvimento — isso é uma disputa política.”
O papel da Petrobras e a contradição da empresa
Sobre a Petrobras, Fuser destaca sua natureza contraditória. “A Petrobras já não é mais simplesmente uma empresa pública. Desde os anos 90, a maior parte das ações que dão direito à propriedade estão em mãos privadas, em grande parte estrangeiras. Esses investidores querem lucro.”
Ao mesmo tempo, quem comanda a Petrobras é o governo federal. “É necessário sempre um equilíbrio entre os objetivos dos acionistas e o Estado, que tem a Petrobras como instrumento de políticas públicas. Isso limita as possibilidades da empresa agir em função da transição energética.”
Ele reconhece que a Petrobras tem projetos em energia eólica, solar e biocombustíveis, mas é uma empresa voltada principalmente para o petróleo e o gás natural. “No ano passado, o principal produto de exportação do Brasil foi o petróleo, superando a soja. É inimaginável pensar nisso 15 ou 20 anos atrás.”
A crítica dos movimentos ambientalistas, segundo ele, tem razão: “A Petrobras tem feito pouco pela transição energética. O governo brasileiro tem um discurso muito favorável — na última COP, Lula propôs um mapa de caminho com metas e prazos. É fundamental que a Petrobras esteja engajada nesse esforço, ainda que isso diminua um pouco o lucro dos acionistas.”
Fuser defende que a transição energética precisa ser uma política de Estado, não de governo. “Se você pega a Alemanha, o governo mudou, mas os planos de transição energética não foram alterados. Existe uma política de Estado com consenso social. É necessário que esse exemplo seja replicado no mundo inteiro.”
No Brasil, isso significa evitar a ruptura que ocorreu no governo Bolsonaro. “É preciso gerar um consenso na sociedade que pressione o campo político, quaisquer que sejam as autoridades, a se manter nessa linha coerente. A composição do Congresso, a postura da mídia, da academia, dos movimentos sociais — tudo isso é muito importante.”
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.
