hipocrisia

Extrema direita joga com ‘desinformação e pânico moral no debate sobre aborto’, afirma ativista

Keli de Oliveira, da ONG Católicas pelo Direito de Decidir, prevê que tema vai permear processo eleitoral

Manifestação no Dia Internacional de Luta das Mulheres, 8 de março
Manifestação no Dia Internacional de Luta das Mulheres, 8 de março | Crédito: Frente Estadual SP Pela Legalização do Aborto

No Brasil, o debate sobre a descriminalização e acesso ao aborto legal e seguro não evolui por causa da extrema direita e de setores religiosos, que dogmatizam a discussão. Mas tudo isso cai por terra quando na vida privada, um parlamentar que se manifestava contrário ao procedimento, é flagrado tentando convencer a ex-companheira a realizar a interrupção de uma gravidez.

O caso envolvendo o deputado estadual Guto Zacarias (Missão), ligado ao Movimento Brasil Livre (MBL), foi revelado em reportagem do Brasil de Fato. Um áudio tornado público, em que o político fala para a ex-namorada que o procedimento é seguro e que em bairros de elite é muito raro acontecer qualquer problema, escancara a hipocrisia da situação.

Em conversa no BdF Entrevista, a ativista Keli de Oliveira, do grupo Católicas pelo Direito de Decidir, aponta o abismo existente entre o discurso público e o privado e como o neoconservadorismo produz essas incongruências. “São essas as pessoas que condenam, a partir de um discurso moralizante, com forte teor religioso em torno da defesa da família. em torno da defesa da vida desde a concepção, mas que vão condenar, na verdade, meninas e mulheres que precisam realizar, acessar o direito ao aborto, mesmo em casos previstos em lei. Então, na verdade, eles deslocam. É um debate muito sério, muito importante, do campo da saúde pública e dos direitos, e transforma tudo isso em desinformação, em pânico moral.”, pontua.

Nessa mesma linha, Oliveira também frisa a importância de desmistificar a ideia de que ser a favor da legalização do aborto significa autorização para pressionar alguém para realizar o procedimento. “Há um trabalho grande a ser feito para desconstruir, inclusive, essas fake news. O que a gente defende é a autonomia, a previsão, o direito de decisão das mulheres sobre os seus corpos, sobre suas vidas e pensar a sua reprodução”, afirma.

A ativista também discorre sobre a importância da racialização do debate, elemento, muitas vezes, ocultado pelos conservadores na direção do reconhecimento de que o aborto deveria ser debatido enquanto política pública de saúde. “Existe uma luta histórica, inclusive do movimento de mulheres, do movimento feminista, para desconstruir a ideia de que o aborto é uma prática insegura. Na verdade, a insegurança nasce da criminalização e a criminalização ela rebate nas mulheres pobres e, sobretudo, mulheres negras, indígenas, enfim grupos mais vulneráveis. O nosso desejo é que todas as mulheres possam acessar com segurança o aborto que é parte da vida reprodutiva de qualquer pessoa”, destaca.

Oliveira chama de desserviço o que a extrema direita vem fazendo em campanhas contrárias ao aborto. “E a gente acredita que não seja só no Brasil. É uma rede internacional que potencializa isso de uma maneira muito presente na esfera legislativa, política, aliada a um potencial de um discurso fundamentalista, religioso, e que vai envolver muitos grupos, desde associações de juristas, de médicos, nessa perspectiva de impedir, de dificultar e de criar barreiras para o acesso ao aborto. E acho que o maior exemplo é essa articulação por exemplo de territorializar essas ações, fazendo uma disputa ideológica muito grande a partir da ação de protocolar projetos de lei nas câmaras municipais e estaduais. Isso é parte de um projeto, isso é parte de um lobby para difundir essa ideia, difundir desinformação e pânico moral e como isso é importante para mobilizar a extrema direita hoje.”

Para Keli de Oliveira, os grupos progressistas, diante desse cenário, acabam sempre que ficar na contenção de retrocessos e “apagando incêndios”, sem conseguir mobilizar de forma efetiva o debate. “É muito cansativo. Mas acho que, na medida do possível, e o movimento como um todo tem feito esse esforço de tentar se organizar para não ser mobilizada apenas em torno disso. Mas é muito difícil. Hoje a conjuntura está bem avessa as nossas pautas. Então é um caminho longo que a gente precisa fazer e se organizar para fazer. Acho que esse período eleitoral é um período que a gente vai ver mais uma vez essa pauta sendo mobilizada, mas de uma maneira bastante complicada, como foram nas últimas eleições”, prevê.

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

Editado por: Luís Indriunas

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