O escândalo do Banco Master já pode ser considerado a maior fraude do sistema financeiro da história do Brasil: um rombo de mais de R$ 50 bilhões que afetou 1,6 milhão de pessoas. O episódio suscita uma série de reflexões sobre o funcionamento do mercado financeiro, as relações entre Estado e setor privado e a própria essência do capitalismo, que premia e estimula o acúmulo.
A economista Débora Magagna, do Instituto Conhecimento Liberta (ICL) e roteirista do documentário “A fraude do Banco Master”, conta que, desde 2023, já observava as movimentações do negócio do banqueiro Daniel Vorcaro com curiosidade. Para ela, a conta não fechava.
Magagna destaca que um dos maiores desafios enfrentados para identificar a fraude foi o verniz de legalidade sob o qual o Master se apresentava: selo do CDB, Fundo Garantidor de Crédito (FGC), CNPJ, aplicativo e até auditoria. “Parecia uma coisa muito legítima, mas, por trás de toda essa fachada, a conta não fechava. Porque eles ofereciam CDBs acima da média, então o investidor ia ali na plataforma de investimento deles e dizia: ‘bom, eu tenho um CDB a 110%, mas eu tenho um CDB aqui que está com a mesma data de vencimento a 130%. Por que eu vou pegar um CDB a 110% do CDI se eu posso pegar um a 130%?’. Esse número, 130% do CDI, saltava aos olhos”, diz.
“O Banco Master tinha uma imagem de banco médio agressivo. O problema é para onde vai esse dinheiro depois que as pessoas emprestam para o Banco Master, porque o CDB funciona assim: você empresta dinheiro para o banco e o banco vai trabalhar com o seu dinheiro, emprestando para quem precisa. O problema é que o Banco Master não fez isso com o dinheiro, com toda essa dinheirama que eles captaram das pessoas. Eles usaram para outros instrumentos justamente para inflar artificialmente o balanço e as demonstrações do banco”.
No documentário, afirma-se que o caso Master foi uma tentativa de “captura da República”. Magagna comenta sobre o tema e menciona um artigo que escreveu no ano passado em que define Daniel Vorcaro como uma espécie de “Dona Aranha”. “Ele vai construindo a sua teia e encapsulando todo mundo ali nessa teia justamente para conseguir essa influência também política. Quando você puxa a rede de relações dele, você vai ter nomes importantes do Brasil, governadores e depois até ministros do STF. Você vê a influência dele até com esse projeto que ele tinha para perpetuar esse banco e essa fraude para continuar ganhando dinheiro, envolvia muitas figuras importantes brasileiras”, afirma.
Magagna também comenta a relação do Banco de Brasília (BRB) com o Master e sobre o lobby realizado habilmente por Vorcaro para conseguir mudanças até mesmo legislativas. “[Senador] Ciro Nogueira, citado, inclusive, nas mensagens que foram vazadas do celular de Daniel Vorcaro, como um grande amigo, e ele cita esse projeto, essa emenda que aumentaria o limite do FGC, de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. E essa tentativa de até falar nas mensagens que isso ia assustar o mercado financeiro”, diz.
A economista também defende um paralelo entre o escândalo do Banco Master e o caso Jeffrey Epstein: ambos lidam com poder e luxo. “Ele [Vorcaro] monta esse fórum jurídico [citado no documentário] e convida algumas pessoas importantes aqui do Brasil, pessoas principalmente do Judiciário e que tenham alguma ligação para participar dessa degustação de uísque caríssimo que ele proporcionou. E aí a gente vê que isso é uma tentativa de sedução. Ele tenta seduzir o poder com o luxo. Isso que é interessante. E por isso que a gente traça esse paralelo com Epstein, justamente por essa sedução por meio do luxo, e que não necessariamente aquelas pessoas estão ligadas ao Vorcaro, mas estiveram em um evento em que ele provavelmente tentou já começar a criar uma relação com essas figuras”, afirma.
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.
