Um coronel envolvido na tortura e no desaparecimento de presos políticos durante a ditadura civil-militar brasileira. Um arquivo com cerca de 3 mil páginas que ficou escondido durante décadas e revela novos crimes cometidos pelo regime. Essa história é contada no documentário “Bandidos de Farda“, que acabou de ser lançado pelo ICL Notícias.
A jornalista Juliana Dal Piva foi a primeira pessoa a ter acesso a esses documentos, que pertenceram ao coronel Cyro Etchegoyen, e contou um pouco sobre o processo de investigação ao BdF Entrevista desta terça-feira (19).
Dal Piva conta quem foi Etchegoyen, coronel de uma família de militares com tradição de participar de atos golpistas, como algumas ações realizadas contra o governo Vargas. “Cyro fez uma escalada pela própria construção da ditadura militar e passou pelos piores lugares, os mais violentos, os mais monstruosos mesmo dentro da ditadura“, afirma.
Ela destaca que o auge da carreira do coronel foi o período em que integrou o Centro de Informações do Exército (CIE) no gabinete do ministro do Exército. “Ele era chefe da contra-informação dentro do gabinete e fazia tanto um trabalho de informação quanto de infiltrar pessoas dentro das organizações de esquerda, organizações de oposição na época. Eles sequestravam pessoas, inclusive usavam nomes falsos, codinomes, levavam as pessoas do meio da rua para locais clandestinos para interrogar, torturar. E ofereciam uma proposta: a vida — o que significava trabalhar para o Exército, para o Cyro, para a cúpula da ditadura — ou o assassinato”, conta.
Um dos documentos mais importantes do acervo é um manual de estágio que Cyro realizou na Inglaterra, em 1970. Lá, o coronel aprendeu a aplicar técnicas de interrogatório, que, na prática, eram sessões de torturas, e a construir centros clandestinos para prender, torturar e criar agentes infiltrados. Um desses centros ficou conhecido como “Casa da Morte“. “Um mês depois de fazer o curso, Cyro e outros militares que, inclusive, já deram entrevistas, como o coronel Paulo Malhães, criam essa casa que fica no Morro Caxambu, em Petrópolis. É uma casa para onde eles levavam pessoas para serem torturadas e receber essa proposta de infiltração”, diz.
Juliana Dal Piva acredita que a revelação desse tipo de documento ajuda a desmontar a narrativa de que os militares deflagraram uma guerra contra o comunismo, promovido e operado por pessoas que supostamente estavam contra a pátria. “Eles querem colocar uma ideia como se eles simplesmente tivessem defendido o país ou eles próprios de pessoas que também estavam atacando eles com armas e tudo mais. E quando a gente olha para esses documentos, a gente entende que era uma política de Estado, uma coisa generalizada. Tinha muito preparo, muito dinheiro público gasto para treinar agentes públicos para essa monstruosidade, torturar, sequestrar, assassinar pessoas. É de uma gravidade muito grande tudo isso”, avalia.
A jornalista conta que Cyro Etchegoyen guardou em sua própria casa o acervo, que só veio a público depois que ele morreu, em 2012. Uma fonte soube da existência dos documentos e, em duas levas, trouxe ao conhecimento da equipe do ICL Notícias, coordenada por ela.
Dal Piva também dá detalhes de algumas ações de tortura que constam nos documentos, como o estupro de Marilene dos Santos Mello, uma mulher que não tinha qualquer ligação com a resistência e simplesmente alugava quartos em sua casa. Cita também os casos de roubos de pertences de pessoas que eram sequestradas por esse grupo de militares para serem submetidas à tortura. “Por isso o nome do projeto tem a palavra bandidos, ‘Bandidos de farda’. Porque quem comete esse tipo de crime é o quê, se não bandido? Aquele discursinho de tradição, família e propriedade, de ‘estamos combatendo o comunismo’, não resiste aos documentos que o próprio Exército produziu”, diz.
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.
