devastação

‘É um roteiro definido: desmata, vende madeira, depois vira pasto’, diz autora de livro sobre pecuária na Amazônia

Em 'O Cerco', Marina Rossi mergulha nas raízes históricas da exploração da terra

Crédito: Nelson Almeida / AFP
Retrato de gado em região amazônica em 2024 | Crédito: Pablo Porciuncula/AFP

A jornalista Marina Rossi detalha, no livro “O Cerco: A Amazônia invadida pelo gado” (Todavia, 2025), como a pecuária avança na Amazônia seguindo um roteiro previsível: primeiro o desmatamento, depois a venda ilegal de madeira e, por fim, a transformação do terreno em pasto, de acordo com a lógica da expressão “onde tem boi, tem dono”.

Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o rebanho brasileiro cresce a cada ano, e o desmatamento acompanha esse ritmo. Ao BdF Entrevista, Rossi conta que a pesquisa mergulha nas raízes históricas do problema. “Eu vou ler desde as capitanias hereditárias, que foi como o Brasil foi fatiado. Embora elas tenham dividido o lado leste do país, não o lado oeste, que é onde está grande parte da Amazônia, a herança é vista em todo o Brasil. O país foi fatiado, dividido, as terras foram divididas, e quem ganhava a terra era filho do rei, amigo do filho ou filho do amigo. Eram essas pessoas que tinham direito a usar e ocupar essa terra”, explica.

Marina Rossi também cita o papel da ditadura militar brasileira no processo de interiorização da exploração da terra.”Foi uma época de grandes planos para ocupar e lotear toda a região, implementados por meio da construção de estradas. Abriu-se, cimentou-se grande parte da Amazônia. Sabemos perfeitamente que estradas trazem desmatamento e prejudicam reservas indígenas e áreas de proteção ambiental. Todo esse plano grandioso da época da ditadura, de ocupar e explorar a região, também contribuiu para o cenário atual: uma região desmatada, em grande parte, pela pecuária”, afirma Rossi.

A autora destaca que a pecuária em si não é o problema, mas, muitas vezes, ela está ligada ao desmatamento. “Leis descumpridas, pouca fiscalização e ausência de incentivos do sistema financeiro compõem um quadro de pouca vontade política. Não é toda a pecuária, mas uma parte considerável dela”, afirma.

Rossi conta que dos momentos mais marcantes da apuração foi o trajeto de Marabá a São Félix do Xingu, no Pará, quando viu “se materializar o conceito de bancada do boi, da bala”. Foram quatro dias de viagem: dois de ida, dois de volta.”É muito interessante a paisagem que você encontra, porque você está andando numa estrada e aí é igreja, muita igreja, muito boi, clubes de tiro, muito escritório pequeno de advocacia. Essa é a paisagem que eu encontro e que me conta uma história”, diz.

Assista à entrevista completa:

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

Editado por: Thaís Ferraz

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