No próximo domingo (31), os colombianos vão às urnas para eleger o novo presidente do país. Segundo as pesquisas de intenção de voto, o favorito é o candidato do partido de esquerda Pacto Histórico, Iván Cepeda, apoiado pelo atual presidente, Gustavo Petro.
Os principais adversários de Cepeda na disputa são Abelardo de la Espriella, admirador de Javier Milei e Najib Bukele, e Paloma Valencia, ligada a uma direita tradicional da Colômbia. A corrida presidencial tem sido marcada por intensa violência política. No ano passado, o senador Miguel Uribe, que pretendia ser candidato presidencial, foi morto a tiros em Bogotá. Os três principais candidatos à presidência afirmam serem vítimas constantes de ameaças.
Ao BdF Entrevista desta terça-feira (26), Giovani del Prete, coordenador da Secretaria Continental da Alba Movimentos, afirma que as eleições do próximo domingo serão como um referendo ao projeto político de esquerda no país. “É um referendo sobre o governo, mas, mais do que o próprio governo em si, é o projeto político que encabeça Gustavo Petro. Ele não pode se reeleger, porque a Constituição da Colômbia não permite essa reeleição; é um mandato único. E ele tem como sucessor o Iván Cepeda, que também é um continuador das ideias do grupo político deles, chamado Pacto Histórico, que é a coalizão de partidos e forças que apoia na sociedade essa eleição do Iván Cepeda, portanto, uma continuidade desse projeto político. Um projeto político que muda muito, é uma ruptura em relação à história política colombiana”, avalia.
Del Prete explica que a Colômbia, historicamente, viveu sucessivas “tonalidades de governos de direita” e, portanto, o atual momento não deixa de ser simbólico. “É uma ruptura na história política colombiana com uma aposta muito grande numa dimensão de políticas sociais, e também o Gustavo Petro. Ele inaugura, do ponto de vista do mandatário do país, o combate à guerra às drogas, a guerra às drogas como uma das grandes questões para o desenvolvimento do país, não só do ponto de vista da segurança pública, mas também do desenvolvimento da sociedade e da economia”.
Dentre as conquistas deixadas como legado por Petro, Giovani del Prete destaca a política de paz total. “A política de paz total na Colômbia, que tem, a meu modo de ver, dois eixos centrais. Tem um primeiro eixo que essa paz, ela pode vir também combinada de melhores condições de vida do povo colombiano. A paz tem a ver com isso; você não tem paz só porque você tem mais polícia na rua, você tem paz porque você pode pagar sua conta, você pode pagar o seu aluguel, a sua casa, a sua moradia, enfim, as suas condições de vida. Então ele fez políticas diretas, totalmente vinculadas a uma mudança de uma política econômica, que tem a ver com aumento do salário mínimo, isso é evidente na Colômbia, queda do desemprego, aumento dos empregos de melhor qualidade no país, queda também de violência contra a mulher, isso também é um dado”, relata.
“Ele fez um processo de convocar a população às ruas em grandes marchas. Acho que todo mundo aqui se lembra do próprio presidente indo para as ruas, convocando as pessoas para as grandes marchas que pressionavam o legislativo, os parlamentares, para que aprovassem essas medidas. Então não foi que ele fez isso num canetaço. Ele fez isso num grande movimento de uma paz total; ele colocava sempre nesse guarda-chuva”, argumentou o analista político.
O outro ponto positivo da política de Petro foi a questão da segurança pública. O país tem um histórico de extrema violência ligado ao tema, e o mandatário mudou a forma de encarar isso. “Ele instalou uma ideia de que a guerra às drogas não pode ser só com polícia e repressão, tem que ser com inteligência, tem que ser sufocando grandes grupos políticos que têm acesso ao Senado, à Câmara, à condução do Exército do país, que estão envolvidos com o narcotráfico. São realidades, são décadas e décadas do desafio que é a segurança pública, sobretudo no que diz respeito ao narcotráfico no país. Tanto é que é um país muito estigmatizado. É um racismo — aqui um parênteses —, é um racismo, é um preconceito muito grande generalizar: todo colombiano é um narcotraficante”, pondera Del Prete.
E, apesar dos avanços nas duas áreas, Giovani del Prete considera que, caso vença, Iván Cepeda terá como missão atacar a questão da violência no país. Ele explica que, embora os avanços sociais evidentes do governo Petro tenham contribuído para reduzir a violência, ela ainda é um “calcanhar de Aquiles”, até mesmo pela forma como a sociedade se forjou nas últimas décadas e pela relação muito próxima com o narcotráfico. “São gerações que enfrentam o desafio da segurança no país. Já são décadas e décadas. Você tem hoje, por exemplo, o Ivan Cepeda, ele é líder de um projeto político de país de paz, negociação, mas porque ele também é vítima dessa violência, não porque ele entendeu que isso era um assunto importante. O pai do Ivan, Manuel Cepeda, foi assassinado por forças paramilitares, por forças anticomunistas, naquele tempo de uma caça aos comunistas que havia no país”, destaca.
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Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.
