Sistema soviético

‘Declínio da URSS aconteceu por reformas mal planejadas, não pelo sistema socialista’, afirma historiador

Rodrigo Ianhez aponta que medidas desordenadas de Gorbachev aprofundaram crises e pavimentaram caminho para ‘choque neoliberal’ na década de 1990

General Mikhail Gorbachev
General Mikhail Gorbachev | Crédito: TASS / AFP

Há exatos 40 anos, em 25 de fevereiro de 1986, começava o 27º Congresso do Partido Comunista da União Soviética. O então secretário-geral, Mikhail Gorbachev, apresentava ao mundo dois conceitos que mudariam para sempre os rumos do socialismo soviético: Glasnost (transparência) e Perestroika (reestruturação).

Quatro décadas depois, historiadores e militantes de esquerda ainda debatem se as reformas representaram uma tentativa legítima de aperfeiçoar o sistema socialista ou se foram o prenúncio do colapso que se seguiria em 1991.

Ao BdF Entrevista, da Rádio Brasil de Fato, o historiador Rodrigo Ianhez, especialista no período soviético e radicado em Moscou, explicou que a Perestroika introduziu elementos de economia de mercado de maneira abrupta e mal planejada, enquanto a Glasnost, ao eliminar qualquer regulação da imprensa, criou um ambiente de sensacionalismo e desinformação. “Isso desestabilizou ainda mais a sociedade soviética”, avaliou.

Contrariando a narrativa ocidental hegemônica de que a URSS estava à beira do colapso em 1986, Ianhez apresenta dados pouco conhecidos: “É justamente na década de 1970 que a União Soviética atinge seu auge em diversos indicadores, como expectativa de vida e consumo calórico. A partir do início dos anos 1980 começam algumas dificuldades, mas à altura de 1986 não podemos ainda falar em colapso”.

O historiador aponta uma ironia trágica: “Esse processo de crise vai ser agravado pela própria Perestroika. As imagens de filas por alimentos e escassez que o Ocidente sempre associou a todo o período soviético são, na verdade, de 1989 em diante. Ou seja, foram causadas pelas reformas mal planejadas, não pelo sistema socialista em si”.

Enquanto prometia modernizar o socialismo, a Perestroika legalizou o que Ianhez classifica como verdadeira pilhagem do patrimônio público: “A lei das cooperativas permitiu a criação de empresas privadas e, com isso, surgiu uma nova classe de ‘novos ricos’. O caso do Tarasov, conhecido como o primeiro milionário soviético, é emblemático: ele criou uma empresa que comprava equipamentos tecnológicos estatais a preço de banana e revendia no exterior, numa atividade francamente criminosa”.

Para o historiador, esse processo abriu caminho para o que viria depois. “A Perestroika preparou o terreno para a ‘terapia de choque’ neoliberal implementada por Boris Ieltsin nos anos 1990, com privatizações selvagens e destruição de direitos sociais conquistados em décadas de construção soviética”, analisa.

A abertura política promovida pela Glasnost também é alvo de reflexão crítica. “Junto com os benefícios de uma imprensa livre, veio o sensacionalismo e a falta de qualquer regulação”, avalia Ianhez, que exemplifica: “A União Soviética estava em guerra no Afeganistão, mas a intensidade da divulgação dos problemas dava ao público a impressão de uma tragédia muito maior do que realmente foi. Isso criou frustrações que foram habilmente exploradas por figuras como Ieltsin”.

Ianhez aponta um fator frequentemente negligenciado nas análises ocidentais: o ressurgimento dos nacionalismos como principal vetor da desintegração soviética. “O Gorbachev foi inábil ao lidar com as questões étnicas. Em 1986, ele afastou o líder histórico do Cazaquistão para colocar um russo no lugar, estimulando protestos nacionalistas. Depois vieram conflitos étnicos no Azerbaijão e Armênia, com ataques e massacres que as forças armadas soviéticas reprimiram violentamente, alimentando ainda mais a indignação”, pontua.

O historiador observa um fenômeno político crucial: “No início dos anos 1990, as lideranças regionais do Partido Comunista perceberam que poderiam deixar de ser primeiros-secretários de repúblicas soviéticas para se tornar presidentes de países independentes, sem as limitações que o sistema socialista impunha ao acúmulo financeiro. Oportunisticamente, fizeram a transição para a economia de mercado e se beneficiaram dela”.

A dupla avaliação histórica de Gorbachev revela as contradições do período: no Ocidente, é tratado como o homem que acabou com a Guerra Fria, enquanto na Rússia, é visto como uma figura incapaz, quando não como traidor. “Os liberais russos ainda preferem Ieltsin, visto como defensor da liberdade econômica, enquanto os comunistas veem Gorbachev como o responsável pelo desmonte da URSS”, contextualiza Ianhez.

Ao comparar com a experiência chinesa, o historiador aponta caminhos alternativos: “A China iniciou reformas de mercado antes, em 1979, mas de maneira muito mais gradual e localizada, criando zonas econômicas controladas. Os próprios chineses observaram o que aconteceu na Perestroika para não cometer os mesmos erros”.

Para o historiador, o legado das reformas soviéticas carrega um alerta: “O que vimos foi uma tragédia anunciada: reformas abruptas, mal planejadas e muito ligadas à figura pessoal de Gorbachev, que olhava cada vez mais para o público externo do que para as necessidades do povo soviético. O resultado foi o fortalecimento do nacionalismo, a ascensão do neoliberalismo e a perda de conquistas sociais que levaram décadas para serem construídas”.

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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