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Netanyahu mantém genocídio palestino para se manter no poder, diz analista geopolítico

Podcast O Estrangeiro abordou a retomada de ataques em Gaza

Na última segunda-feira, Israel voltou a bombardear a Faixa de Gaza e retomou o genocídio palestino, que teve uma breve pausa em 19 de janeiro, após um acordo de cessar-fogo. Israel rompeu a trégua com o Hamas e matou mais de 500 palestinos em apenas dois dias. Este foi o tema do episódio da semana de O Estrangeiro, videocast de política internacional do Brasil de Fato.

Arturo Hartmann, analista geopolítico, disse que “o que Netanyahu diz oficialmente é que ele quer destruir o Hamas e resgatar os reféns”. Mas, se “pensar logicamente, ele não vai conseguir destruir o Hamas. E pelas operações militares que ele voltou a fazer, ele também não vai conseguir resgatar os reféns. […] Os bombardeios têm mais probabilidade de matar os reféns do que salvá-los”.

Além disso, Netanyahu “tem um problema interno para se sustentar no poder”. O analista relembrou momentos em que o primeiro-ministro israelense se envolveu em casos de corrupção, como um documento “mais ou menos vazado” logo no início do genocídio israelense, que “pensava em um cenário pós-Gaza”, que continha planos da extrema direita de “expulsão dos palestinos e recolonização de Gaza”.

O segundo caso, divulgado nos últimos dias, envolve um líder do serviço de inteligência israelense que recebia dinheiro do Catar. Netanyahu está, neste momento, tentando destituir o líder do cargo. “Obviamente isso vai atingir ele mais uma vez.”

Serguei Monin, correspondente do Brasil de Fato na Rússia, relembrou o desinteresse da extrema direita em encontrar uma solução para o genocídio em Gaza: “temos a questão da corrupção; com os ataques [a Gaza] você desvia a atenção da mídia interna”.

“Existe também um orçamento que precisa ser aprovado até o dia 31 de março, e, se isso não acontecer, o governo [de Netanyahu] pode cair”, explicou Serguei. “A volta da guerra de uma maneira tão drástica é um ativo político para [a permanência] de Benjamin Netanyahu. E esses movimentos deixam muito claro isso”, pontuou.

O papel da Rússia e o consenso do imperialismo

Serguei informou que “a Rússia condenou o ataque. […] Ela sempre teve uma relação ambígua com Israel, sempre foi próxima, tem relações comerciais fortes. Mas após a guerra na Ucrânia, a Rússia modulou sua política externa em relação ao Oriente Médio, sendo mais pró-Palestina, mas sem criar uma tensão muito forte com Israel”.

Sobre o papel dos EUA em guerras globais, como o apoio a Israel e a tentativa de solucionar a guerra na Ucrânia, por exemplo, mostra que “o Trump está criando uma nova estratégia imperial”.

Ele pontuou que “a porta-voz do governo já se manifestou dizendo que o ataque israelense que matou mais de 500 pessoas foi coordenado com a Casa Branca, ou seja, o governo de Benjamin Netanyahu informou os EUA que iria romper o cessar-fogo”.

Esta atitude revela “o esforço de Trump em se mostrar como alguém que vai resolver conflitos internacionais, sobretudo o da guerra na Ucrânia”, disse Hartmann, “pela retórica e pelas ações. Ele quebra o laço com a Europa, [há] uma mudança de política [de apoio irrestrito] em relação à Ucrânia, mas não em relação a Israel e Palestina.”

O analista explicou as diferenças de visão que o republicano tem diante das nações financiadas belicamente pelos EUA: “no caso da Ucrânia, os EUA alimentavam a parte invadida territorialmente. No caso de Israel e Palestina, eles financiam o invasor”.

“O Trump não mais enxerga a Ucrânia como um ativo. Ele pode, inclusive, barganhar com a Ucrânia, em termos de recursos naturais. Agora, Israel continua um ativo estratégico para os EUA do ponto de vista do Trump.”

O futuro de Gaza

Países da comunidade árabe, como Arábia Saudita, Egito e Catar, têm colocado à mesa planos de negociações para um possível futuro de governança de Gaza.

Para o analista, o problema de um plano como esses “é que todo mundo decide a vida dos palestinos, menos os palestinos”. “Cada um tem seu interesse. O de um país árabe pode até ser acabar com o genocídio. Mas o principal é ter relações com Israel. Então [o país precisaria] acabar com isso [o genocídio]”.

“O principal é os palestinos terem voz no que eles querem. E não vai ser fácil também, porque eles estão divididos, e esse é um outro problema. Eles não têm um governo unificado. Hoje, não têm uma voz, um partido, uma frente que seja, que diga, olha, nós queremos o fim do genocídio, fim da ocupação militar.”

“Eles querem a libertação, isso é um consenso. Mas quais os passos para chegar a isso, e um projeto único, e uma frente única, não existe. Inclusive, o domínio israelense garantiu que isso fosse dividido”, completou Hartmann.

O podcast O Estrangeiro é apresentado por Lucas Estanislau e Rodrigo Durão ao vivo toda quinta-feira às 10 horas.

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