Protestos

‘Geração Z’ é rótulo importado dos EUA que simplifica revoltas distintas pelo mundo, dizem analistas

Entrevistados comparam Peru, Nepal e Panamá, apontam ação de Big Techs e analisam sentidos da juventude nas ruas

Manifestantes no Nepal exibem bandeira com símbolo do mangá One Piece durante protesto
Manifestantes no Nepal exibem bandeira com símbolo do mangá One Piece durante protesto | Crédito: Bay Ismoyo/AFP

Recentes mobilizações em diferentes países têm sido rotuladas pela mídia como “protestos da geração Z”. Para o analista político Hugo Albuquerque, essa caracterização é limitada. “A única geração que a sociologia norte-americana determina que realmente existe em escala global é a Z, a partir de 1995 para cá, por conta de uma cultura norte-americana que foi difundida como global”, diz, em entrevista ao podcast O Estrangeiro, do Brasil de Fato. Ele alerta que o rótulo reduz realidades complexas por ser “um recorte de como os norte-americanos veem o mundo.”

Também entrevistado no podcast, o correspondente do BdF Gabriel Vera Lopes concorda que o enquadramento geracional não explica, sozinho, a onda global. “Eu acho que todo este rótulo da geração Z funciona mais como uma categoria midiática do que a explicação real dos conflitos”, resume.

Para ambos, a classificação “geração Z” ajuda a identificar traços comuns — juventude conectada, repertório cultural global, organização em rede —, mas apaga contextos nacionais, agendas econômicas (como reformas previdenciárias) e disputas geopolíticas que moldam cada levante, como os ocorridos recentemente no Peru e no Nepal. Albuquerque pontua que “nada é inocente”.

Peru: reforma de pensões e governo impopular

Lopes contextualiza que as manifestações da juventude nas ruas no Peru voltaram a ganhar força no fim de setembro deste ano, mas fazem parte de um movimento iniciado em dezembro de 2022. “O Peru está vivendo um ciclo de protestos muito importante desde que [o ex-presidente] Pedro Castillo foi destituído”, aponta.

Segundo ele, as últimas semanas foram marcadas por um gatilho econômico. “O governo de Dina Boluarte e o Congresso estão tentando fazer uma reforma do sistema de pensões que afeita sobretudo os jovens do país. Foi o que conseguiu colocar o pessoal de novo nas ruas”, conta. O correspondente destaca que “jovens que foram para rua falando da necessidade de que Peru desperte e não tolere mais a impunidade, a violência e a corrupção do governo.”

O cenário é de um governo com baixíssima aprovação, em alguns momentos abaixo de 10%, que responde às mobilizações com repressão policial e militar, acumulando denúncias de violações de direitos humanos desde a queda de Castillo. Albuquerque diz considerar que, “na prática, [o que está acontecendo no Peru] é uma ditadura, porque as pessoas estão tentando ir para a rua para travar o país e basicamente o governo reprime”.

Nepal: geopolítica, Big Techs e um levante que derrubou governo

No início de setembro, o governo do Nepal suspendeu 26 redes sociais, o que provocou um levante que derrubou o então primeiro-ministro Khadga Prasad Oli. O episódio se soma a anos de instabilidade desde a queda da monarquia em 2008. Albuquerque destaca o peso do tabuleiro regional e das plataformas digitais no caso nepalês. “O Nepal teve um levante que acabou com a monarquia, criou uma república parlamentarista”, mas cuja hegemonia não se traduziu em reformas sociais, indica.

De acordo com o analista político, nesse contexto, a soberania e a regulação estão ligadas. “O governo cobrou das Big Techs que elas precisavam ter uma sede no Nepal. É um tema de soberania”, afirma. “No caso do do Nepal, os think tanks ocidentais comprovadamente estavam agindo para derrubar o governo”, complementa.

Para ele, a cultura digital global cria semelhanças geracionais, mas não apaga as diferenças locais. “Tem uma juventude muito insatisfeita porque as demandas não foram atendidas. A questão da geração Z tem uma dimensão verdadeira, embora construída”, analisa.

Panamá: repressão e presença dos EUA reativam sensação anti-intervenção

Gabriel Lopes ressalta que, no Panamá, o estopim para os atos populares, assim como no Peru, também foi econômico. No primeiro semestre de 2025, protestos se intensificaram após a aprovação de uma lei de seguridade social, e em junho o governo de José Raúl Mulino decretou estado de emergência em Bocas del Toro.

“Foi uma reforma provisória, [feita] nas primeiras semanas que o governo de [José Raúl] Mulino tinha assumido o poder”, esclarece. Na sua avaliação, a resposta estatal agravou a crise. “O governo usou a repressão e foi denunciado como violador dos direitos humanos, com desaparecidos e mortos”, lembra.

Ele acrescenta que a tentativa de reaproximação militar com os EUA ampliou o desgaste. “O governo de Mulino tentou fazer um acordo com o governo dos Estados Unidos para que colocassem de novo militares no país. Isso também fez com que houvesse um maior número de pessoas saindo na rua”, explica.

Juventude em disputa

Sobre o rumo da juventude, Lopes pondera que “a juventude é um campo em disputa”. Para ele, não é verdade que a toda a juventude é de extrema direita”, mas alerta para a nova formação reacionária no mundo. “Uma das qualidades mais novas que tem esta nova extrema direita é que não é um movimento de massas de pessoas mais velhas”, observa. Ele vincula o avanço ultraconservador a falhas de mediação de redes sociais.

Ícones como a série de mangá One Piece e referências de anime aparecem em cartazes e performance de rua. Para o jornalista, o sentido não é predefinido. “Todo símbolo não é uma coisa que é de esquerda ou de direita a priori. Vai ser uma tarefa da esquerda dialogar com isso”, avalia. Hugo Albuquerque acrescenta que a indústria cultural nasce muitas vezes “com um propósito alienante”, mas pode ser ressignificada “porque o ser humano dá um jeito.”

O podcast O Estrangeiro vai ao ar toda quarta-feira às 11h no Spotify e YouTube.

Editado por: Rafael Targino

|

Newsletter