alta tensão

Sem resposta firme dos governos progressistas, ameaças de Trump podem desestabilizar América Latina

Governo brasileiro é omisso diante da ofensiva dos EUA e região não tem plano conjunto de defesa, avaliam entrevistados

Presidente dos EUA Donald Trump tenta “preparar terreno para intervenção de longo curso” na Venezuela, segundo Gilberto Maringoni
Presidente dos EUA Donald Trump | Crédito: Mandel Ngan/AFP

As recentes ameaças do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra os governos de Gustavo Petro, na Colômbia, e de Nicolás Maduro, na Venezuela, reacenderam um alerta sobre o papel da extrema direita estadunidense na política latino-americana. Em entrevista ao O Estrangeiro, podcast do Brasil de Fato, a especialista em geopolítica latino-americana Amanda Harumy e o correspondente do BdF em Brasília Lorenzo Santiago analisaram os impactos dessa escalada e cobraram uma resposta mais firme dos governos progressistas da região, como o de Lula (PT), no Brasil.

Segundo Harumy, uma guerra na Venezuela significaria “uma desestabilização e um ataque muito grande para a América Latina e para o Brasil”. Para ela, o país vizinho “é a linha de frente de enfrentamento ao imperialismo”. A analista também destacou que “a segurança da América Latina precisa ser debatida na América Latina” e defendeu uma retomada da integração regional.

“Comparado à onda progressista latino-americana daquele boom de cooperação e diálogo regional, estamos muito mal. Não existe uma Unasul [União de Nações Sul-Americanas] forte”, criticou. Harumy citou ainda que “a paz só existe se nos prepararmos para ela” e elogiou o discurso recente de Lula no congresso do PCdoB, quando o presidente defendeu “o retorno da Unasul” e a “soberania da Venezuela”.

Para Lorenzo Santiago, no entanto, o governo brasileiro tem sido “muito tímido na sua resposta a essas ameaças”. Ele avalia que “seria necessário um diálogo entre Lula e Petro”, inclusive com a presença de Maduro, para coordenar uma estratégia conjunta de defesa regional. “Falta um posicionamento mais enfático do governo brasileiro. Quem tem feito isso tem sido o PT, que, por meio de notas e participação em congressos internacionais, tem se posicionado contra as ameaças dos Estados Unidos”, afirmou.

O jornalista também ressaltou que “não faltam posicionamentos duros contra o governo venezuelano por parte de congressistas da oposição e principalmente da extrema direita brasileiro”, e lembrou do recente e controverso Nobel da Paz dado a Maria Corina Machado, que apoiou golpes e intervenção armada na Venezuela. Por essa razão, frisou a necessidade de um posicionamento mais contundente do governo brasileiro em defesa do país vizinho, “nesse momento de graves ataques, de ofensiva dos Estados Unidos”.

Harumy conclui lembrando que “a América Latina já está sob ataque” e defendeu que os países retomem espaços de coordenação. “É urgente que acordemos, nos rearticulemos e tiremos um posicionamento comum. Há a expectativa de que o presidente Maduro possa vir à COP30 [30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas], em Belém. Será que não seria interessante falar da segurança regional da Amazônia em uma mesa com os presidentes e ministros da região?”, questionou.

O podcast O Estrangeiro vai ao ar toda quarta-feira às 11h no Spotify e YouTube.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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