Ataques à região

‘Não podemos contar com Forças Armadas do Brasil em caso de confronto com EUA’, afirma historiador

Para Miguel Stedile, estrutura militar é subordinada aos EUA; jornalista vê nova fase do imperialismo na região

Em entrevista, Miguel Stedile e Gabriel Vera Lopes analisam dependência militar do Brasil e nova ofensiva dos EUA na América Latina
Em entrevista, Miguel Stedile e Gabriel Vera Lopes analisam dependência militar do Brasil e nova ofensiva dos EUA na América Latina | Crédito: Divulgação/Agência Marinha de Notícias

As Forças Armadas brasileiras não defenderiam o país em caso de conflito com os Estados Unidos, avalia o historiador e pesquisador do Instituto Tricontinental Miguel Stedile. Em entrevista ao podcast O Estrangeiro, do Brasil de Fato, ele afirmou que a estrutura militar do Brasil é alinhada e subordinada a Washington, o que inviabilizaria uma reação em defesa da soberania nacional.

“Não existe nenhuma possibilidade de contarmos com as Forças Armadas do Brasil no caso de confronto com os EUA. Toda a lógica de cooperação internacional delas é com os EUA. Há uma total afinidade ideológica”, disse Stedile.

Segundo o pesquisador, essa relação foi consolidada desde o golpe de 1964, quando o Exército brasileiro recebeu apoio direto dos EUA, e permanece até hoje em acordos de cooperação, treinamentos conjuntos e alinhamento político. “Quando pegamos o golpe de 1964, a conexão entre as Forças Armadas e os Estados Unidos é total. Elas são completamente inconfiáveis”, afirmou.

Stedile lembrou ainda que os militares não participaram da transição entre os governos do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o que reforça a falta de compromisso institucional com a democracia. “É evidente a cumplicidade das Forças Armadas na trama golpista. Todos sabiam e apostaram [em um golpe de Estado]”, pontuou.

O historiador também chamou atenção para o papel ideológico desempenhado por colégios militares fora da jurisdição do Ministério da Educação (MEC), que reproduzem valores conservadores e anticomunistas. “Estamos formando com recursos públicos uma doutrinação em colégios militares que ainda procuram o comunismo embaixo da cama, que estão lendo Olavo de Carvalho no ensino médio”, criticou.

Reorganização militar dos EUA na América Latina

As declarações de Stedile foram feitas em meio ao aumento da presença militar estadunidense no Caribe e na América do Sul. O objetivo, segundo ele, é barrar a influência da China e recuperar o controle sobre recursos estratégicos da região, como o petróleo, as terras raras e o lítio. “A tarefa número um dos Estados Unidos, seja em relação à América Latina, seja em relação à África, é barrar a expansão chinesa. E com isso há um olhar mais apetitoso para os recursos naturais dessas regiões”, avaliou.

Stedile observou que, embora o governo Lula tenha buscado se posicionar de forma soberana, o Brasil enfrenta pressões econômicas e geopolíticas de Washington. Ele cita as negociações sobre o acesso dos EUA às reservas brasileiras de terras raras, recursos fundamentais para a indústria tecnológica e armamentista. “O tema das terras raras está na mesa. É incoerente com o discurso de soberania, mas não com a política de mineração dos últimos 40 anos, marcada por abertura às multinacionais”, disse.

Fase mais agressiva do imperialismo estadunidense

O jornalista argentino Gabriel Vera Lopes, correspondente do Brasil de Fato em Cuba, apontou que a escalada de tensões promovida pelos EUA na América Latina tem provocado um clima de alerta permanente em Havana e Caracas. Segundo ele, o envio de tropas, aviões e embarcações militares ao Caribe retoma o risco de uma ofensiva direta.

“Há uma consciência no governo e no povo cubano de que esta é uma fase mais agressiva do imperialismo estadunidense. Não é uma nova crise, mas uma forma diferente de atuação, muito mais perigosa para todos os povos da região”, destacou.

Lopes explicou que as manobras militares e o cerco à Venezuela fazem parte de um processo mais amplo de reocupação militar e política do continente, que inclui também pressões econômicas e diplomáticas sobre países que tentam manter autonomia. “O movimento militar que eles estão fazendo tem como alvo a Venezuela, mas permite também militarizar novamente o Panamá, Porto Rico e outros territórios caribenhos”, ressaltou.

Ele lembrou ainda que a ingerência do presidente dos EUA Donald Trump nas eleições argentinas e as tentativas de condicionar governos como o da Colômbia e do México mostram que Washington tenta recompor a sua influência pela força. “Tem uma vontade estratégica de controlar ou condicionar a economia do país e a política do país. Estamos falando de uma intervenção sem precedentes”, analisou.

“Tem um sentido bem claro, que é reposicionar os Estados Unidos na região. Eles precisam que os maiores países da região — México, Brasil, Argentina — não se alinhem em uma política diferente da que Washington gostaria ou precisa”, acrescentou o jornalista.

O podcast O Estrangeiro vai ao ar toda quarta-feira às 11h no Spotify e YouTube.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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