Batalha antifascista

‘Não se fala o suficiente sobre a Guerra Civil Espanhola nas escolas do país’, aponta jornalista

Camila Almeida afirma que o período do ditador Franco é tratado de forma superficial na Espanha, enquanto a extrema direita ganha força entre os jovens

A Guerra Civil Espanhola é considerada uma das principais batalhas contra o fascismo no século XX com a experiência das Brigadas Internacionais
A Guerra Civil Espanhola é considerada uma das principais batalhas contra o fascismo no século 20 com a experiência das Brigadas Internacionais | Crédito: Reprodução

Há 90 anos, a Espanha se tornava o palco de uma das primeiras e mais emblemáticas batalhas contra o fascismo na Europa. A Guerra Civil Espanhola (1936-1939) opôs o governo democraticamente eleito da Frente Popular — uma coalizão de republicanos, socialistas, comunistas e anarquistas — às forças rebeldes lideradas pelo general Francisco Franco, apoiadas pela Alemanha nazista e pela Itália fascista. O conflito, que deixou centenas de milhares de mortos e uma ditadura de quase quatro décadas, ainda ecoa profundamente na política e na sociedade espanhola contemporânea.

Para discutir as lições desse período e sua reverberação nos dias de hoje, o podcast Estrangeiro, da Rádio Brasil de Fato, reuniu a jornalista Camila Alvarenga, correspondente em Madri, e o historiador e cientista político Miguel Enrique Stédile, em uma conversa que atravessou memória, negacionismo, organização da esquerda e os perigos do avanço da extrema direita no século 21.

Alvarenga, que vive na capital espanhola, fez um diagnóstico preocupante sobre o tratamento dado ao tema no país. “Não se fala o suficiente sobre a Guerra Civil. O currículo escolar passa pelo tema de forma superficial, e a ditadura de Franco é estudada sem crítica aprofundada. Isso tem consequências: a direita radical, como o Vox, ganha força entre os jovens, que muitas vezes não têm referências históricas sólidas.”

Ela lembra que, diferentemente de países que passaram por transições democráticas com ruptura, a Espanha nunca fez um acerto de contas definitivo com o passado. “A ditadura acabou porque Franco morreu, não por uma derrota política ou militar. Não houve um processo revolucionário que enterrasse o franquismo. E isso deixou feridas abertas e um terreno fértil para o revisionismo.”

Miguel Stédile contextualizou a Guerra Civil dentro das transformações do capitalismo no século 20. “A Espanha era uma antiga potência colonial que chegou ao século 20 como um país periférico, com alta concentração de terras, desigualdade social e uma igreja católica ultraconservadora. Ao mesmo tempo, vivia-se a ascensão do movimento operário e o medo das elites diante da Revolução Russa.”

O historiador lembrou que o fascismo não era visto com a mesma hostilidade que se tem hoje. “Havia, na imprensa internacional, inclusive nos Estados Unidos, uma certa admiração pela ‘ordem’ que nazistas e fascistas impunham. O conservadorismo histórico da sociedade espanhola encontrou nesse novo movimento uma forma de organização reacionária que mobilizava setores militares, do judiciário e da igreja — algo muito semelhante ao que vimos no Brasil com a ascensão do bolsonarismo.”

Stédile também abordou as tensões internas entre as forças que combatiam o franquismo. “Os republicanos nunca foram um bloco homogêneo. Havia anarquistas, socialistas, comunistas — e dentro do comunismo, trotskistas e stalinistas. O anarquismo, que teve papel central na Guerra Civil, especialmente na Catalunha, acabou perdendo força ao longo do século 20. De certa forma, a Guerra Civil Espanhola foi o último grande suspiro do anarquismo enquanto movimento internacional.”

O historiador destacou que as disputas internas, como os chamados “eventos de maio” em Barcelona, fragilizaram a resistência. “Os anarquistas defendiam milícias autogestionadas, com eleição de comandantes. Os soviéticos, que assessoravam os republicanos, exigiam um exército regular, profissional. Isso gerou conflitos num momento em que a guerra já estava perdendo força. A lição para a esquerda de hoje é: unidade é fundamental, mas sem abrir mão dos princípios.”

Além disso, ele fez um alerta final sobre a necessidade de memória e organização. “A grande lição da Guerra Civil Espanhola é: quando o fascismo vence, não sobra nada. A repressão é total, a cultura é destruída, a memória é apagada. Por isso, é tão importante que a esquerda no mundo inteiro se una para barrar esse avanço.”

Stédile lembrou que a Espanha, o Brasil, o Chile e a Argentina compartilham tragédias semelhantes: ditaduras longas, transições negociadas, e um presente em que o negacionismo floresce. “Precisamos de anticorpos sociais. E isso só se constrói com educação crítica, com memória viva e com luta.”

A extrema direita na Espanha de 2026: Vox, PP e o negacionismo

Camila Alvarenga traçou um panorama preocupante da política espanhola atual. “O PP (Partido Popular) faz malabarismos para não condenar a ditadura, mas também não a defende abertamente. Já o Vox é assumidamente nostálgico do franquismo, defende valores tradicionais, o nacionalismo espanhol exacerbado e é radicalmente anti-imigração.”

Ela citou o crescimento de movimentos juvenis de extrema direita, como o Núcleo Nacional, abertamente nazista, e a Revolta, que tenta atrair jovens para a direita radical. “Esses grupos são violentos, atacam ativistas, jornalistas, e têm sido alimentados por figuras como a governadora de Madri, Isabel Díaz Ayuso, que nunca condenou essas manifestações.”

Alvarenga também mencionou a influência das redes sociais e de influenciadores de extrema direita, como Vito Quiles, que promovem linchamentos virtuais e difundem discursos de ódio. “A máscara caiu: as pessoas perderam a vergonha de ser racistas, homofóbicas, machistas. E isso tem a ver com a legitimidade que esses discursos ganham no parlamento.”

Apesar do cenário, a jornalista destacou conquistas importantes do governo do socialista Pedro Sánchez (Psoe), como a lei trans, a reforma trabalhista e, mais recentemente, a regularização massiva de imigrantes sem documentos — uma iniciativa que, curiosamente, partiu do social-democrata Podemos. “Isso mostra que, mesmo com todas as dificuldades, há espaço para avanços. Sánchez tem sido uma voz importante na defesa da Palestina e na crítica ao genocídio em Gaza, algo raro entre líderes europeus.”

No entanto, ela ponderou que partidos como o Podemos perderam parte de sua identidade ao entrar na institucionalidade. “Eles tiveram que se adaptar a um sistema bipartidário enraizado. Ainda assim, essa vitória recente mostra que há esperança de um retorno às origens.”

Para ouvir e assistir

O podcast O Estrangeiro vai ao ar semanalmente às quartas-feiras às 15h, disponível nos canais do Brasil de Fato.

Editado por: Luís Indriunas

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