multilateralismo

Ao defender soberania, a China e falar sobre desigualdades, Lula evidencia influência do Brics no G7

Analistas falam do discurso de tom diplomático mas firme do presidente brasileiro na França

(From L) European Council President Antonio Costa, Italy's Prime Minister Giorgia Meloni, South Korea's President Lee Jae-myung, Egypt's President Abdel Fattah El-Sisi, Britain's Prime Minister Keir Starmer, US President Donald Trump, Kenya's President William Ruto, France's President Emmanuel Macron, Japan's Prime Minister Sanae Takaichi, India's Prime Minister Narendra Modi, Canada's Prime Minister Mark Carney, Germany's Chancellor Friedrich Merz, European Commission President Ursula von der Leyen and Brazilian politician Luiz Inacio Lula Da Silva pose for a family photograph during the G7 summit, in Evian, eastern France, on June 16, 2026. A G7 summit is set to take place June 15 to 17 in the French town of Evian-les-Bains near Switzerland and it will be attended by country leaders as well as the EU's foreign policy chief and ministers from Brazil, Canada, the United Arab Emirates and Turkey. (Photo by Ludovic MARIN / POOL / AFP)
O presidente Lula (à direita) posa em foto oficial do encontro do G7 na França | Crédito: Ludovic Marin/Pool/AFP

Embora não faça parte do G7, o bloco que reúne as maiores potências mundiais — Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido, o Brasil foi convidado mais uma vez a comparecer à cúpula ocorrida na França. O presidente Lula (PT) esteve nas agendas do evento a convite do anfitrião, o presidente francês Emmanuel Macron, com quem se reuniu também para tratar de acordos bilaterais entre os dois países.

Em discurso com tom diplomático, mas bastante firme, Lula defendeu a soberania do Brasil e, sem mencionar o nome do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, endereçou alguns recados a ele e saiu em defesa da posição global da China. “Faz muito tempo que o Brasil faz licitação internacional e os Estados Unidos e a União Europeia não participam. A China participa. A China ocupou um espaço que estava vazio. Eles não podem se queixar de que a China está ocupando um espaço se ele estava vazio”, afirmou em seu discurso durante a cúpula.

Visto como grande prestígio por analistas, o convite para que Lula participasse, mais uma vez, da cúpula do G7 é tema de análise do videocast de política internacional O Estrangeiro, apresentado pelos jornalistas Lucas Estanislau e Camila Salmázio, que recebe o correspondente do Brasil de Fato na Rússia, o jornalista Serguei Monin.

Camila Salmázio destaca o teor incisivo da fala de Lula ao chamar a responsabilidade dos países que compõem o G7 com relação às nações em desenvolvimento. “Ele dá um puxão de orelha, principalmente para os países da Europa, de que eles não estão olhando para os países em desenvolvimento. E ele diz: ‘Vocês têm que se desenvolver, manter o conforto de vocês, mas a gente tem que crescer todo mundo junto’. E eu acho que é um papel interessante que o Lula faz nesse momento, tendo ali essa participação efetiva no G7. Ontem ele já tinha criticado o [Elon] Musk. Ele não citou nomes, mas todo mundo já sabe. Disse que essa concentração de renda é um absurdo. Ele criticou também que os países deixaram de combater a fome para investir em guerra. Ele disse que, no ano passado, foram investidos US$ 3 milhões em guerra e que isso daria para acabar a fome em muitos países e, inclusive, a desigualdade”, avalia.

Lucas Estanislau elogia a capacidade de Lula em dialogar e, de certa forma, moldar o seu discurso para conseguir estabelecer diálogos eficientes com países liberais. “Ele está falando com uma certa camada liberal europeia. E ele sabe onde cala para esse setor político a questão da concentração de renda. Ele também sabe das rivalidades que estão postas ali entre a Europa e Estados Unidos, toda a questão do financiamento da Otan [Organização do Tratado do Atlântico Norte]. Então, em resumo, ele sabe repercutir essa questão com os europeus”, destaca.

Serguei Monin destacou o fato de que, depois de Lula, o líder que mais participou de reuniões da cúpula foi o presidente da Rússia, Vladimir Putin. O país era integrante do bloco até ser excluído em 2014 por causa da anexação da Crimeia e virar alvo de sanções. “A gente percebeu durante os últimos anos que não foi possível isolar completamente a Rússia nos fóruns internacionais, sobretudo com participação de países como Índia, China, Brasil, países que não cessaram as suas relações prósperas com a Rússia no âmbito principalmente do Brics”, avalia.

Às margens da cúpula do G7, Lula teve um encontro com o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, o que, segundo avaliação de Monin, é mais uma prova da influência do Brasil dentro do contexto do Sul Global, expresso pelo Brics. “Talvez já seja um indício de mostrar quem faz questão de se encontrar com o Lula e de trazer o Brasil para sua esfera de influência. Sem dúvida nenhuma, isso demonstra um esforço. Sem dúvida nenhuma, a gente vê o Zelensky oscilando muito na sua relação com o Brasil. Em um momento de atrito, fez declarações com algumas farpas em relação ao país, porque o Brasil não estava oferecendo um apoio explícito e contundente à Ucrânia nem criticando diretamente a Rússia. O Brasil sempre se colocou de maneira, não diria ambígua, mas defendendo o diálogo e as negociações de paz, sem tomar partido de forma explícita. Isso incomodou Zelensky em determinado momento, mas, em outro, tornou interessante buscar essa aproximação com o Lula”, avalia.

Para ouvir e assistir

O podcast O Estrangeiro vai ao ar semanalmente às quartas-feiras às 15h, disponível nos canais do Brasil de Fato.

Editado por: Luís Indriunas

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