Jazz como filosofia

Baixista Alberto Continentino faz das parcerias sua ‘grande composição’

Em entrevista ao Sabe Som?, músico detalha métodos de produção, influências e os caminhos do seu disco mais recente

Alberto Continentino fala sobre processos criativos e a importância das parcerias na construção do disco Cabeça a Mil e Corpo Lento.
Alberto Continentino fala sobre processos criativos e a importância das parcerias na construção do disco Cabeça a Mil e Corpo Lento. | Crédito: Maria Cau Levy

“Eu faço o álbum que eu gostaria de ouvir e o álbum que eu gostaria de mostrar, e faço o show que eu gostaria de assistir e que eu gostaria que as pessoas assistissem”, enfatiza Alberto Continentino, cantor, compositor e multi-instrumentista, ao refletir sobre suas obras musicais em especial Cabeça a Mil e Corpo Lento, seu disco mais recente, lançado em junho de 2025. 

Segundo o músico, o trabalho nasce de “um desejo que eu tenho de ser autoral e ser criativo”, mas também de uma compreensão ampliada do que significa compor: “eu sempre falo que a grande composição que eu faço é a escolha dos parceiros e das parceiras, da banda e de quem está comigo,  quem está gravando, quem está operando, quem está mixando”.

No episódio 102 do Sabe Som?, podcast musical do Brasil de Fato, Thiago França conversou com Continentino sobre sua trajetória artística, as parcerias construídas ao longo de mais de três décadas de carreira e a maneira como o contato com a música desde muito jovem atravessa seus três discos autorais.

“O disco Ao Som dos Planetas, que lancei em 2015, já vai completar onze anos. Pouco depois, em 2018, lancei o Ultraleve, que é um disco de jazz onde quis fazer um trabalho bem ‘jazzístico’, mas ao mesmo tempo com uma jogada estética de som que não fica naquele lugar comum do jazz”, sublinha o compositor.

O músico destaca que boa parte de sua formação artística veio do ambiente familiar. Filho de Mauro Continentino, pianista e tecladista de MPB e jazz, e de Marisa Gandelman, formada em direito, que iniciou sua vida profissional dando aulas de canto e piano, Alberto relembra como a música sempre esteve presente em casa.

Nesse contexto, recorda que “acompanhei vários artistas e fiquei como uma esponjazinha absorvendo informações”, além de destacar a forma como a música era compreendida em seu cotidiano familiar, onde “o jazz era um pensamento, uma filosofia”, como reforça.

Apesar da convivência próxima com nomes centrais da música brasileira, como Ed Motta, Adriana Calcanhoto e Caetano Veloso, ao longo de sua trajetória, Continentino se detém especialmente no período da pandemia, quando passou a se questionar sobre os rumos da própria carreira. “Será que tudo voltará a ser como era antes?”, lembra ter se perguntado.

Jazz da solidão

Diante do isolamento social provocado pela pandemia da Covid-19, o músico revela que, além da insegurança diante dos riscos daquele momento, também carregava dúvidas sobre o futuro. Foi nesse contexto que Cabeça a Mil e Corpo Lento começou a tomar forma.

Apesar de já ter algumas faixas prontas e outras em andamento, Continentino conta que não queria recorrer às chamadas “músicas da gaveta”. A ideia era gravar o disco praticamente do zero. “Gravei um monte de coisa no meu quarto, a Nina Miranda gravou a voz lá de Londres, a Gabriela Riley gravou a voz lá de Chicago, e os metais cada músico gravou em seu apartamento. No final, fui montando tudo”, relata.

Além dessas participações, ao longo das doze faixas, Cabeça a Mil e Corpo Lento conta ainda com colaborações de Letícia Pedroza, Dora Morelenbaum, Silvia Machete, Nina Becker e Ana Faria Fainguelernt, conhecida como Ana Frango Elétrico.

Olhando para o futuro, o músico afirma que deseja ampliar sua circulação artística. “Pretendo poder viajar mais e ter cada vez mais shows”, conclui Continentino.

O podcast Sabe Som? vai ao ar toda sexta-feira, às 15h, e está disponível nas principais plataformas de áudio, como Spotify e YouTube Music.

Editado por: Luís Indriunas

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