Entre lembranças de Recife (PE), referências da música latino-americana e reflexões sobre o papel político da arte, o cantor e compositor Johnny Hooker apresenta as camadas que atravessam seu novo trabalho. Em participação no podcast Sabe Som?, o músico pernambucano defende que a cultura brasileira precisa ser vista para além dos clichês que ainda circulam no exterior. “O Brasil tem muita coisa para vender para o mundo. Não é só samba, futebol e caipirinha. A gente tem um universo”, diz.
Hooker lançou em dezembro de 2025 seu quarto álbum de estúdio, Viver e Morrer de Amor na América Latina. Em conversa com Thiago França, ele destaca que o projeto construído ao longo dos últimos três anos reúne composições que atravessam diferentes ritmos latino-americanos e defende uma arte que provoque reflexão e incomode consensos.
Para ele, o álbum surgiu “sem aviso prévio”. “Era Recife, memória, Carnaval, os amores que vivi e ‘desvivi’ nesses 38 anos de vida. Era o retorno do sonhar na minha vida depois de tempos de morte e humilhação. Será esse o destino de todos nós sob este sol inclemente do hemisfério sul? Viver e morrer de amor na América Latina”, refletiu
O artista também comenta que o álbum nasceu de um momento de reconexão com suas próprias motivações para fazer música. Depois de anos marcados por crises políticas, perdas pessoais e pela pandemia, ele diz ter sentido a necessidade de recuperar o encanto que o levou à arte no início da carreira. “Eu queria resgatar a magia que me fez fazer música em primeiro lugar, não perder o sonho, não perder o deslumbramento em relação à vida”, afirma.
No disco, Hooker também reúne parcerias e participações que ajudam a costurar essa travessia musical e afetiva. Entre os convidados estão nomes como Daniela Mercury, Ney Matogrosso e Lia de Itamaracá, artistas que, segundo ele, fazem parte de uma linhagem de criadores que nunca tiveram medo de provocar o público.
Neste sentido, Hooker reforça uma de suas principais inspirações e o que considera ser seu papel enquanto artista. “Daniela Mercury deu uma entrevista recentemente que eu amei. Ela falou assim: ‘Aos 60, eu me sinto mais perigosa do que nunca’. Como artista, eu sinto muito isso. Eu quero ficar cada vez mais perigoso, porque eu acho que é isso. Os artistas estão aqui para perturbar a paz, chacoalhar as pessoas, as crenças, os dogmas. E ter ela nesse frevo também, que é um frevo super… é um desbunde. É um pouco dessa magia que a gente estava falando do carnaval de Recife”, destaca o artista sobre a participação de Mercury em seu novo álbum.
Durante a conversa, o cantor lembra que dividir uma música com figuras que marcaram sua formação é também uma forma de reconhecer a continuidade entre gerações da música brasileira.
“E para completar o pacote, Lia de Itamaracá, que para quem nasce e cresce em Recife, ela é o nosso patrimônio imaterial. Ela é um orixá na terra, um orixá vivo. E ter Lia encerrando o álbum com uma regravação. Enfim, clássica, né?”, afirma o cantor.
Por fim, Hooker também reflete sobre os caminhos da música independente no Brasil. Para ele, construir uma carreira artística exige tempo, paciência e uma relação direta com o público e algumas canções acabam ganhando uma vida própria ao longo desse percurso.
“Flutua é uma música que nunca me cansa. A atmosfera da plateia quando a gente canta parece que tem uma eletricidade no ar. As pessoas choram, se abraçam. É um momento de arrepiar sempre”, conta. Para o artista, são essas experiências coletivas que mostram quando uma canção ultrapassa o disco e passa a fazer parte da vida das pessoas.
O podcast Sabe Som? vai ao ar toda sexta-feira, às 15h, e está disponível nas principais plataformas de áudio, como Spotify e YouTube Music.
