A violência estatal contra pessoas negras no Brasil é um projeto de Estdo. Esse foi o tom das análises da deputada Rosa Amorim (PT-PE) e da vereadora e secretária Tainá de Paula (PT-RJ), em entrevista ao podcast Três por Quatro, do Brasil de Fato, nesta quinta-feira (20), Dia da Consciência Negra. Segundo o novo relatório Pele Alvo: crônicas de dor e luta, da Rede de Observatórios, 86,2% das 4.068 pessoas mortas em operações policiais em 2024 eram negras.
Em São Paulo, sob a gestão do governo Tarcísio de Freitas (Republicanos), o número de vítimas subiu 59%, saindo de de 510 para 812 mortes entre 2023 e o ano passado. Do total de mortos, 66% foram pessoas negras. Para as parlamentares, não há dúvidas: o Estado brasileiro pratica um genocídio sobre a população negra.
“Nós temos uma política de extermínio”, define Amorim. Para ela, o genocídio atual está enraizado na formação do país. “Nós, negros, somos filhos e filhas de uma história que o Brasil tentou esconder. Uma história que foi construída com base no latifúndio, no patriarcado, com base no racismo”, relaciona.
A deputada lembra que a abolição da escravidão no país não criou direitos e aprofundou desigualdades. “Nós tivemos uma falsa liberdade em 1888 e o nosso povo foi entregue ao completo abandono”, denuncia. Esse abandono, segundo ela, continua presente nos dados de fome, de saúde e de segurança. “O Estado brasileiro tem uma política de morte e de violência até hoje para os corpos negros”, pontua.
Tainá de Paula destaca ainda que “há genocídio na base da bala, mas também na base da caneta”. Além da violência armada, ela avalia que “a ausência de investimento público em saúde, em financiamento, em empoderamento econômico fez com que a ampla maioria da população negra passasse por um processo de esvaziamento de possibilidades de vida.”
Na esfera policial, a vereadora lembrou a chacina recente no Rio de Janeiro, que deixou 121 mortos. Segundo ela, a “necropolítica” do governo Cláudio Castro (PL) virou uma ferramenta eleitoral, em um local historicamente marcado por controle racial. “Ele dobra a aposta: sabe que o Rio de Janeiro é um estado racista, que tem apoio popular, então tem uma janela de oportunidade para sair do completo ostracismo’”, explica.
Rosa Amorim também chama atenção para o apoio social às chacinas como um ponto preocupante. “Tão grave quanto a cena de guerra é saber que a população concorda com aquele tipo de ação”, lamenta. Segundo uma pesquisa Genial/Quaest, 64% da população aprovou a operação no Rio. Para ela, isso revela o tamanho da disputa ideológica. “Nós temos um campo enorme aberto de disputar a sociedade. Que tipo de pensamento é esse que entende que bandido bom é bandido morto?”, questiona.
Soluções progressistas
Segundo Tainá de Paula, parte da solução passa pela reaproximação da esquerda com o cotidiano da população. “A população hoje não nos enxerga como principais instrumentos de transformação”, analisa. Ela defende disputar esse debate com propostas concretas. “O nosso discurso não pode ser distante da vida das pessoas”, pontua. Como possíveis caminhos, cita experiências de resistência como quilombos urbanos, mutirões de moradia e movimentos comunitários que constroem proteção e autonomia em territórios violentados.
Já Rosa Amorim ressalta que é preciso ampliar a presença negra no Legislativo e avançar em políticas reais. “Ter mais parlamentares negros e negras é fundamental. Estamos avançando, mas temos muito a fazer”, diz. Como exemplos de ações, ela menciona a aprovação de 30% da vagas para cotas raciais no serviço público em Pernambuco e o trabalho das cozinhas solidárias, organizadas principalmente por mulheres negras. “O povo cuidando do povo”, celebra.
Para ouvir e assistir
O videocast Três Por Quatro vai ao ar toda quinta-feira, às 11h ao vivo no YouTube e nas principais plataformas de podcasts, como o Spotify.
