A menos de oito meses das eleições, o cenário presidencial se consolida como mais um capítulo da polarização que marca a política brasileira desde 2018. As pesquisas mostram o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) tecnicamente empatados no segundo turno, com o candidato bolsonarista em trajetória ascendente. Enquanto isso, a chamada “terceira via” naufraga, e o PSD de Gilberto Kassab amarga a derrota antecipada de seu projeto de poder.
No programa Três Por Quatro, da Rádio Brasil de Fato, o ex-presidente do PT José Genoino, e a cientista política Thaís Pavez, diretora da Estratégia Latina Consultoria, analisam os números, as estratégias em jogo e os desafios para o campo progressista.
Thaís Pavez contextualiza a polarização dentro de um fenômeno mais amplo. “Trata-se de uma polarização ideológica, que mobiliza uma visão de mundo e uma oposição entre ‘nós e eles’, puxada pela extrema direita. É o que chamamos de ‘estrutura de sentimentos’ — ódio, amor, que se disseminam pelas redes sociais.”
Por sua vez, Genoino reflete sobre a natureza da polarização. “A polarização é consequência da crise do modelo neoliberal. O neoliberalismo radicaliza todos os aspectos da vida social. Há um sentimento de desespero, vingança, medo, ódio. A polarização entre quem defende o status quo e quem quer mudar é inevitável.”
Para ele, a esquerda não pode fugir desse embate. “Polarizar não é um mal. A esquerda tem que entender que a polarização é consequência de uma crise sistêmica que vai se prolongar. Ou a esquerda polariza, ou ela vai ser derrotada. Temos que fazer uma campanha radicalizada no sentido de discutir sentimentos, sonhos e esperança.”
A ascensão de Flávio Bolsonaro: continuidade e novidade
Sobre o crescimento de Flávio nas pesquisas, Genoino identifica múltiplos fatores. “Ele tem a herança do bolsonarismo, ocupa o espaço do antipetismo propagado pela grande mídia, e conta com o apoio do sistema financeiro e do agronegócio, que fazem um jogo duplo para enfraquecer Lula e forçar um programa mais à direita.”
Mas o ex-presidente do PT aponta vulnerabilidades. “Flávio é vulnerável quando se discutir rachadinha, compra de imóvel com dinheiro vivo, a herança do pai, os escândalos do golpe. Não vamos disputar a eleição com um estadista, mas com um miliciano. Se a esquerda deslegitimar sua figura, cria-se uma contradição no próprio campo que ele representa.”
A cientista política aproveita para acrescentar que o bolsonarismo conseguiu conjugar continuidade e novidade. “As eleições municipais já mostravam uma energia do bolsonarismo, a expansão do centrão e novidades como Pablo Marçal. Flávio ativa a memória de continuidade, mas também traz para perto figuras que representam novidade, como Marçal — uma mutação surgida no contexto da pandemia, que dialoga com jovens trabalhadores precarizados, empreendedores digitais.”
Pavez ainda chama atenção para o eleitorado que rejeita os dois polos. “São pessoas céticas em relação às instituições, com forte sentimento anti sistema. Há uma certa fadiga em relação ao governo Lula, que não consegue transformar substantivamente a vida desse grupo. Em 2018, votar em Bolsonaro era uma aposta. Para Flávio, sustentar esse discurso anti sistema é mais difícil, mas o bolsonarismo tem cuidado para continuar se apresentando como novidade.”
Genoino lembra que a pesquisa não analisa um dado crucial: os abstencionistas. “Há um eleitorado que não vota em ninguém. Como trazê-lo para o debate? Com pautas concretas: reformas democráticas, soberania nacional, fim da escala 6×1, tarifa zero, imposto sobre os ricos. Se a gente trabalhar com bandeiras concretas, podemos renovar o discurso.”
Sobre a derrota antecipada de Gilberto Kassab e do PSD, Pavez avalia que houve um erro de cálculo. “Talvez se imaginasse que a prisão de Bolsonaro desorganizasse o campo da extrema direita. Mas o bolsonarismo se rearranjou, e a força que já aparecera nas eleições municipais se confirmou. Não havia espaço para uma terceira via.”
O ex-presidente do PT aponta que a família Bolsonaro racha a direita. “Isso dificulta uma unidade contra Lula, mas possibilita alianças pontuais em alguns estados. O problema é que a extrema direita tem no comando a família, que virou uma institucionalidade. Eles radicalizam a relação, não agregam, tensionam.”
Renovação e o discurso da esquerda
Pavez observa que a extrema direita tem sido hábil em renovar suas lideranças, seguindo um “script comum” que se atualiza globalmente. “Bolsonaro usou o WhatsApp; Marçal já é um influencer pós-pandemia, com novas estratégias de comunicação, dialogando com jovens que têm outras expectativas em relação ao trabalho e à vida.”
Nesse sentido, o petista é enfático: “A principal renovação da esquerda tem que ser no discurso. A esquerda se domesticou, se apequenou, caiu no possibilismo. Lula não pode ir para essa eleição com discurso velho. Tem que ser atrevido, subversivo, para dialogar com quem não vai votar em ninguém ou vai se enganar mais uma vez com a extrema direita.”
Questionado sobre nomes para 2030, Genoino cita Haddad, Manuela, Boulos, Luna, mas relativiza. “A novidade brota da luta social, da disputa política, do confronto. Não brota de acordão congressual. Quem vai suceder Lula é o movimento social, é o PT. Vivemos num mundo do inesperado.”
Nesse cenário, a cientista política pondera que “é preciso uma candidatura que enfrente o discurso radical da extrema direita, que tem apelo de emergência, que dialogue com a crise climática e com a experiência dos novos trabalhadores, onde estão grossas camadas da juventude.”
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