A segurança pública figura como a principal preocupação do brasileiro em pesquisas de opinião divulgadas no início de 2026. Não a toa, dará parte do tom do debate para as eleições deste ano, especialmente no que diz respeito às eleições estaduais, já que o aparato policial, ponto mais presente e ao mesmo tempo sensível do tema, é de responsabilidade direta dos governadores.
Por essa razão, o episódio desta semana do videocast Três por Quatro, da Rádio Brasil de Fato, recebe o historiador Valério Arcary e o ex-presidente do PT e ex-deputado constituinte José Genoino para debater a situação da segurança pública no estado de São Paulo sob as gestões de Ricardo Nunes (MDB), na prefeitura, e de Tarcísio de Freitas (Republicanos), no governo estadual. Em comum entre as duas administrações, estão a política do medo e o aval à violência praticada pela Polícia Militar contra a população negra e periférica.
Em 2025, mais de 800 pessoas foram assassinadas em decorrência de ação policial no estado de São Paulo. “Esse projeto de extermínio tem nome, sobrenome e cargo: Tarcísio de Freitas, para além de Guilherme Derrite, deputado federal, que ocupou até o final do ano passado a cadeira de secretário de segurança pública e que este ano é pré-candidato ao Senado. Em 2028 teremos ainda o coronel Melo Araújo, vice-prefeito de São Paulo, disputando a prefeitura da maior capital do país. Ou seja, é São Paulo importando para o resto do país um modelo de gestão baseada na violência”, diz o apresentador do programa, Igor Carvalho.
José Genoino destaca os dados alarmantes de feminicídio e o crescimento do crime patrimonial, em especial na capital paulista, e define a atual política de segurança pública no estado como um “fracasso”. “As pessoas vivem com medo ao circular nas ruas de São Paulo e a sensação é que essas operações, como a da Baixada Santista e outras realizadas pela gestão Tarcísio, não deram resultado. Porque segurança, primeiro, é inteligência, é força, é prevenção e não guerra. Segundo, segurança não tem nada a ver com a militarização. Terceiro, segurança pública é ocupar os territórios dominados pelo crime organizado. Segurança pública é atingir o andar de cima da criminalidade, que envolve lavagem de dinheiro, tráfico de drogas e de armas. E segurança pública é uma política de Estado, de natureza civil, até porque há uma diferença entre força e violência. A violência é uma prerrogativa, no Estado burguês, das Forças Armadas. Segurança é uma política pública do Estado para garantir o direito das pessoas, o direito à cidadania, o direito à vida, às liberdades e aos direitos públicos. Isso está sendo negado em São Paulo”, afirma.
Durante o episódio, Carvalho também chama para a conversa a deputada estadual Paula Nunes (Psol), em participação previamente gravada, que destacou um caso que expõe a politica de violência sob Tarcísio. “A execução do Ryan, assassinato de um menino de quatro anos, que inclusive teve seu caso arquivado por suposta legítima defesa. Eu pergunto, que legítima defesa existe no assassinato de um menino de 4 anos em uma operação policial? Isso para dar um exemplo. Houve o caso do [Vinícius Lopes] Gritzbach, delator da polícia [em esquema de lavagem de dinheiro e corrupção com o PCC] que foi assassinado saindo do aeroporto de Guarulhos, um caso até hoje sem solução. Existem inúmeros casos muito brutais de violência policial explodindo no estado de São Paulo”, diz a parlamentar.
Valério Arcary remonta a história do esquadrão da morte que atuou nos anos 1970, na época da ditadura, para marcar um ponto sem retorno para a violência como ferramenta de tentativa de controle social. O historiador também traz o elemento da desigualdade social para a discussão.
“Evidentemente, o que está na raiz da insegurança pública é o fato de que o capitalismo periférico brasileiro fracassou. Há uma ordem econômica e social que reproduz ininterruptamente a produção de desigualdade e a devastação da pobreza. E isso, evidentemente, favorece que surjam organizações criminosas. Já temos no Brasil duas das 10 mais poderosas do mundo. E veja, a violência policial é a estratégia do governo Tarcísio de Freitas e o Derrite era o seu braço armado”, afirma.
Arcary critica a recente atuação do governo do estado durante a greve na Universidade de São Paulo (USP). “Eu quero chamar a atenção para o fato de que, neste fim de semana, a polícia invadiu, por ordem do governador Tarcísio e sem autorização a reitoria da Universidade de São Paulo. Isto é muito grave. Eu quero oferecer uma perspectiva histórica. Desde a Idade Média, foi estabelecido um direito civil de que o espaço universitário era inviolável. Os reis, os príncipes, os duques, os condes não podiam invadir as universidades. Era um espaço inviolável junto com as igrejas. Neste fim de semana, durante a madrugada, o Tarcísio deu ordem, repito, sem autorização da reitoria, de invasão da universidade, prendeu, arrebentou, fez corredor polonês, jogou gás de pimenta, gás lacrimogênio e levou a garotada toda para a delegacia de polícia”, diz.
Arcary afirma que, por mais que Tarcísio tente passar uma imagem mais branda, ele é o maior representante da extrema direita. “Quem pensa que tem uma focinheira na boca do governo do estado de São Paulo está enganado. Os pitbulls estão a solta e sob a ordem do governador Tarcísio. Nós temos uma situação anormal. Isto é anormal, é uma catástrofe”, afirma.
Para assistir ao videocast completo, clique no link abaixo:
Para ver e ouvir
O videocast Três Por Quatro vai ao ar toda terça-feira às 15h ao vivo no YouTube e nas principais plataformas de podcasts, como o Spotify.
