No Visões Populares de quarta-feira (12), o Brasil de Fato MG entrevistou a artista, militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e estudiosa da música, Guê Oliveira. Em nossa conversa, abordamos o Novembro Negro, a perseguição às manifestações culturais de povos marginalizados e a arte como um pilar da resistência política.
“Quando a gente valoriza a autonomia dos povos, a diversidade que existe nesses povos, e somos solidários a sua resistência, estamos sendo solidários a nós mesmos, porque todos nós queremos a continuidade da espécie humana”, aponta.
Coordenadora do Bloco Pisa Ligeiro e integrante dos grupos As Cantadeiras e Mina Flor, ela é ainda formada em História e mestra em Desenvolvimento Territorial na América Latina e Caribe. Em nossa conversa, tratamos também sobre o espetáculo “Colcha de Retalhos”, da Guê, que ocorreu em Belo Horizonte na sexta-feira (14), no Teatro Raul Belém Machado.
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Confira a entrevista completa:
Brasil de Fato MG – Como foi o processo de criação dessa obra e qual sua expectativa com a apresentação “Colcha de Retalhos”?
Guê Oliveira – O “Colcha de Retalhos” é a síntese da minha história. É o meu primeiro trabalho solo, eu sou do grupo As Cantadeiras, onde toco há 15, e sou do grupo Mina Flor há 1 ano e meio. Mas esse trabalho vem nessa perspectiva de um trabalho próprio, por uma necessidade minha de construí-lo, com esses 50 anos de síntese. É um momento de síntese da minha perspectiva artística, política e militante e como ser humano também. Enquanto uma artista que pensa o seu tempo e reflete sobre ele, como diz Nina Simone.
Em “Colcha de Retalhos” eu tive uma inspiração de minha avó, que partiu com 100 anos e passou a vida inteira fazendo colcha de retalhos. Eu fiz essa relação poética e metafórica, entre a colcha de retalhos que é construída a partir de fragmentos, de coisas que não são mais consideradas, e que alinhavando os retalhos, se faz uma coisa tão bonita, colorida, aconchegante e afetiva. E eu comparei isso aos tempos que estamos vivendo.
Em tempos de barbárie, em tempos de desumanização, em que o capitalismo está na sua fase destrutiva, em uma crise humana, humanitária e ambiental. Diante disso, essa apresentação tem uma proposta de dizer: em tempos de desumanização, o que que a gente precisa para se humanizar?
Essa apresentação aponta alguns elementos que podem fazer parte dessa colcha de retalhos, para que nós que fomos tão despedaçados, tão retalhados como seres humanos, reconstruamos a nossa humanidade. Com elementos sobre a formação humana. Por que sobrevivemos como Homo sapiens? Porque fomos a espécie que teve mais capacidade de ser solidária. A solidariedade é intrínseca à formação humana. Eu canto sobre isso, na Folia do Terno de São Benedito, na música “O que te trago”.
Um segundo elemento é a necessidade de olhar para a nossa ancestralidade, a partir do que temos de memória e sabedoria ancestral. E como trazemos isso para o nosso presente e projetamos para o nosso futuro. Trago a ancestralidade de minha avó, que conta a história de tantas outras ancestralidades. De um povo que foi formado, sócio-historicamente no Brasil, pela questão indígena e negra. Com muita violência, mas também com muita sabedoria para sobreviver, para estar aqui contando essa história. E trago a fé e a esperança de que essa colcha de retalhos é possível construir.
Um outro elemento é a questão negra. A humanidade nasceu na África, nos tornamos seres humanos no continente africano. Nós precisaremos beber diretamente dessa fonte, dessa ancestralidade, da sabedoria e da cosmo percepção africana. Na música “Somos África” eu trago todos os elementos básicos da cosmo percepção africana. Além de músicas do reinado de Nossa Senhora, do Congado, que traz muito essa relação com a natureza e com a alegria.
Por fim, eu também trago a questão das crianças, que apontam essa possibilidade de construção com alegria, com a verdade que as crianças trazem. Reconstruímos a nossa humanidade a partir de uma construção coletiva. Então todas as músicas vão tratar de alguma forma desses elementos.
Além de todo o aprendizado que sistematizei em um trabalho de mestrado, sobre a dimensão sensível na luta social e a música na formação humana. O MST nos instiga e nos estimula a estudar. Então eu fiz graduação, especialização e mestrado a partir do Pronera. Para mim, isso diz dessa capacidade que temos de nos apropriar dos conhecimentos da humanidade e socializar, refletir junto para, no processo de formação da consciência, transformando consciências, transformar pessoas e transformar o mundo.
Para você, de que forma a música é parte da luta de povos, historicamente marginalizados pela estrutura da sociedade? Qual a importância de demarcar o 20 de novembro como dia da consciência negra e hoje feriado nacional?
Eu não sei se foi coincidência, ou sincroincidencia, mas a apresentação é no dia 14 de novembro. Então, está acontecendo nesse mês e realmente tem muita interface. O 20 de novembro é muito significativo, porque ele fala de luta e resistência do povo negro. Demarcar, na consciência negra, que nós viemos da luta e da resistência.
Mas lembrar também que a gente não veio da escravidão, de escravos, foram pessoas escravizadas. Essas pessoas viviam na sua terra, com todo o seu modo de viver, com toda a sua forma de conceber o mundo. E escravizar o povo de uma terra onde a humanidade nasceu é uma contradição muito grande. Isso é querer silenciar e apagar um conhecimento, um modo de viver e uma forma de conceber o mundo. Fizeram isso para nos dominar.
Desvelamos isso e trazemos, neste mês, que temos uma ancestralidade humana, da onde a humanidade veio. Fortalecendo a ideia de que é um povo com um modo de viver próprio e uma percepção de mundo própria e que essa diversidade de concepção de mundo precisa de ser respeitada. Mesmo querendo nos calar, nos silenciar, nós resistimos.
Resistimos nos terreiros, que são pequenas Áfricas; nas comunidades quilombolas; nas comunidades do reinado de Nossa Senhora, que não são só uma manifestação cultural, mas um modo de viver e de pensar, que traz uma ancestralidade riquíssima do povo Bantu. Passamos por um momento de compreensão de que o mundo é diverso, que há várias formas de compreender e de ler essa realidade.
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Não só reconhecer, mas valorizar e respeitar essa diversidade cultural. Mas esse ainda é um grande desafio e, por isso, precisamos valorizar quem resiste, como essas comunidades que eu falei, mas também as comunidades periféricas das favelas e vilas, que têm a sua maioria do povo preto. O povo sem terra, que é um movimento em que a grande maioria é composta de pessoas negras, inclusive, porque foram aqueles, que foram desterrados de seu território, desterritorializados e aqui foram escravizados, que depois também não tiveram o direito à terra.
E aqueles poucos que tiveram direito à terra, continuam resistindo e continuam sendo massacrados, muitas vezes criminalizados e mortos. E o povo da favela também, que é morto como uma forma de continuar esse grande genocídio, em uma forma de apagamento, de silenciamento. Sabemos que, para sobreviver como sistema, o capitalismo precisa de acabar com um terço da população. Então, eles precisam de racializar para dominar e para continuar essa lógica destrutiva, desumana e barbarizada que é esse sistema.
Como é possível cultivar um olhar sensível nas pessoas, sendo que a violência cotidiana nos dessensibiliza tanto?
Para nos humanizar, vamos ter que cultivar outras relações humanas. E quando eu trago as crianças, falo da sua inteligência mais profunda, porque elas são uma resistência silenciada e invisibilizada. Mas mostram a todo o tempo, se relacionando com o mundo, brincando, na relação entre as crianças, na sua forma de se expressar, esses elementos, que reverberam.
Inclusive, no genocídio na Palestina, mas também do genocídio que está acontecendo no Sudão e tantos outros genocídios. Então, é preciso primeiro olhar para as crianças de uma outra forma, enxergando a sabedoria que elas têm para nos ensinar. As relações que fazem parte do mundo das crianças, essa forma verdadeira, sincera e das crianças, de dialogar com o mundo, conhecer o mundo a partir da brincadeira e resistir mesmo com tantas formas de repressão.
As crianças, elas resistem, em qualquer lugar, de qualquer forma, elas brincam. Além disso, a sociabilidade também, quando uma criança encontra outra, ela se reconhece no outro. Pode ver, onde tem criança, é só tirar os celulares, que elas começam a dialogar. Essa forma de amplidão de humanidade e sociabilidade que as crianças têm.
Sobre a questão da solidariedade entre os povos, sua importância está no reconhecimento nos outros e nas outras, na empatia. Mas também na construção de um mundo mais justo. Essa justiça que pode ser construída reconhecendo essa diversidade. E a solidariedade, porque nós, como espécie humana, reconhecemos no outro o ser humano que é.
Desumanizar o outro é uma mentira desse sistema que quer, para desumanizar, nos hierarquizar. Ou seja, quem é o mundo civilizado, quem não é; que povo é incapaz de fazer sozinho, e por isso precisa de outros para resolver os problemas, e assim por diante. Quando valorizamos a autonomia dos povos, a diversidade que existe e somos solidários à resistência desses povos, nós estamos sendo solidários a nós mesmos. Porque nós queremos a continuidade da nossa espécie humana. Isso é um instinto humano que querem apagar, mas isso faz parte da nossa natureza.
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A solidariedade é uma forma de se reconhecer no outro e, portanto, sendo seres humanos com toda a sua diversidade e com todo o seu direito de autonomia dos povos. Quando atacam a Palestina, quando agora falam em atacar a Nigéria, por exemplo, é uma tentativa de desumanizar. Querer acabar com qualquer tipo de resistência. Asssim como no bloqueio à Venezuela, no bloqueio à Cuba, no genocídio da Palestina, no genocídio do povo africano que continua.
Mas a África se levanta, a Palestina se levanta, os iemenitas, os cubanos, os venezuelanos e tantos outros povos se levantam e defendem a sua autonomia de se auto determinarem. Quando somos solidários, nós também estamos reafirmando isso em nós.
Não tem volta, como não tem volta tantas outras coisas, mesmo que o projeto da extrema direita e do fascismo queira retomar bandeiras de perseguição às LGBTs, de retrocessos na questão de gênero, das mulheres, na questão negra e indígena, não tem mais volta, a consciência humana já avançou nesse sentido.
Como artista militante e estudiosa da cultura e da música, de que forma você entende esse movimento político de perseguição a manifestações como o RAP e o Funk?
É importante a gente compreender que a música é uma dimensão humana, nessa perspectiva de expressão e, portanto, a perseguição a essa expressão tem um intuito de silenciamento. Tem o intuito exato de definir o que devemos ouvir e o que não devemos ouvir e principalmente o que temos que ouvir para se acomodar.
Então para nós, artistas-militantes, militantes-artistas e tantos outros artistas populares, é importante se posicionar, e se posicionar a partir da música. Está nessa chave o Pereira da Viola, eu, o Sérgio Pererê, o Maurício Tizumba, mas também a Titane, as tantas cantoautoras, mulheres nessa trincheira. Além de tantas e tantos outros artistas, que estão nessa trincheira, o nosso povo do funk, o nosso povo do rap, o nosso povo de terreiro que também tem as suas músicas, o nosso povo negro que produz essa música como uma forma de resistir ao apagamento, ao silenciamento.
Essa é a necessidade de tomarmos posturas diante disso. A sociedade que defende esse tipo de política, a gente sabe que tem uma divisão forte nesse sentido, de entendimento, mas que também é um entendimento produzido pela extrema-direita. Por isso da importância de meios de comunicação, como o Brasil de Fato e outros meios da resistência. A própria internet também tem muita resistência.
E o povo continua cantando nas periferias, fazendo o funk, o samba e o hip hop. Nos últimos anos, nosso povo tem defendido também isso, quer dizer, existe um movimento fazendo o contraponto. A questão é que aparecem mais aqueles que defendem essa criminalização, porque quem hegemoniza a comunicação são eles.
Mas quando pensamos, no dia a dia, nos terreiros, quantas sessões, quantas festas de Congado, quantas folias de reis, quanto povo do samba, o carnaval de resistência na rua, isso é muito forte e significativo. Fortalecer, dialogar e dar visibilidade a isso é fortalecer esse movimento na vida real, porque esse povo está falando é no virtual, é a partir das fake news. Mas tem muita gente resistindo assim, falando da vida real e do dia a dia, no cotidiano. Às vezes é porque a gente também tem a dificuldade de enxergar esse lugar de resistência, esse lugar do dia a dia.
Então essa cultura que resiste no dia a dia é que vai construir, é que está construindo. Então a gente está dizendo, né, por mais que matem as travestis e as trans, por mais que matem as mulheres, por mais que tentem silenciar, por mais que matem o povo na favela, o povo continua resistindo e continua resistindo é no dia a dia.
Então, eu tenho essa impressão também de domínio da comunicação e, portanto, de querer nos vencer de que eles são maioria. Mas se você for para o dia a dia, para o cotidiano, para o pequenininho, não é bem assim. Existe? Existe. A gente precisa enfrentar e é real esse pensamento, é real.
Mas não é à toa que eles estão atacando tanto, é porque eles precisam de muita mentira para se manter e nós temos a nossa verdade para continuar a viver, né? Então assim, é só colocando também essa reflexão. Então tem muitos povos resistindo. Os povos indígenas, os povos quilombolas, o povo sem terra, o povo na favela, os pescadores, resistindo de todas as formas, né?
Desde a música, desde a comida, desde defender o seu território e a gente como artista, militante, militante artista, defender isso com o que a gente sabe e quer fazer, que é a arte. Então acho que por isso essa necessidade, né? De fazer essa apresentação. Não é só uma apresentação musical. É também uma forma de resistir, de trazer essa reflexão e fortalecer a cada dia essa nossa forma do nosso povo de resistir a cada dia.
E tem aquela frase que eu acho maravilhosa, né? Combinaram de nos matar e nós combinamos de não morrer. E é assim, com arte, com beleza, com alegria que a gente vai continuar a viver.
