Em entrevista ao Visões Populares, Willian Cesar Castilho Pereira, psicólogo clínico, com especialização em Psicologia da Educação, e professor aposentado da PUC Minas, discute sobre o livro A Ideologia da Vergonha e o Clero do Brasil, de sua autoria, lançado no início de novembro.
“Os padres e os pastores deveriam entender muito mais o contexto da produção da pobreza e da produção da vergonha”, aponta Pereira.
Ele também comenta sobre a igreja no mundo atual e o seu papel no Brasil, além de abordar a formação e o sofrimento psíquico dos sacerdotes, tema central do livro.
Confira a entrevista completa:
Brasil de Fato – Você acaba de lançar o livro A Ideologia da Vergonha e o Clero do Brasil. Qual é o perfil do clero brasileiro? E o que é a “ideologia da vergonha”?
Willian Cesar Castilho Pereira – Várias pesquisas mostram que 70% dos padres brasileiros são oriundos de setores mais pobres da população, ou seja, pertencente aos 40% mais pobres do Brasil.
Esse grupo tem, em média, um número muito surpreendente de mães e pais analfabetos, cerca de 18% dos familiares. Se compararmos com o índice atual do analfabetismo no Brasil, que está em torno de 7%, constata-se que é um número bastante elevado. Sobre a renda familiar: 70% das famílias de padres ganham de dois a três salários mínimos. E a procedência, em termos de profissão, escolaridade, raça, situação socioeconômica, mostra que a maioria desses padres vem da zona rural (quase 50%). E os outros vêm de cidades pequenas e de áreas periféricas metropolitanas.
Mas o que chama a atenção dessa população é o processo de migração, construído através de uma experiência de muita transitoriedade, de muito abandono, de muita fragilidade urbana e de desenraizamento cultural, rupturas de amizade, de tradições religiosas e códigos de valores próprios.
Essa parcela acaba introjetando, gradativamente, na medida em que vão tendo contato com outras camadas sociais hegemônicas e ricas, o que chamamos de uma certa vergonha, ou seja, de um certo retraimento de si mesmo.
E isso ocorre muito a partir de padrões de comparação, por exemplo, do seu corpo com o padrão de beleza. Depois, vem o julgamento moral, já que muitas dessas famílias pobres recebem os benefícios sociais de direito, como o Bolsa Família e cotas raciais, e acabam sentindo que isso não é devido. E assim vão introjetando essa moralidade, essa rigidez e esse julgamento.
Esse conjunto de atividades, que faz parte do cotidiano da população mais pobre, acaba introjetando dentro dos padres uma imagem inferior, por ser algo que não equivale ao modelo hegemônico das pessoas de classe rica.
O livro retrata exatamente a história dos familiares de padres, mas eu diria que é também sobre o conjunto dos 40% de pessoas mais pobres do Brasil, que vivem essa situação de muita humilhação e, consequentemente, de vergonha. Isso muitas vezes leva essas pessoas a buscarem um outro modelo que não o seu.
Porque esse modelo, supostamente, na vida psíquica, daria um poder, uma qualidade de vida melhor, um status. Então, muitas vezes, o que ocorre é que essa população nega a sua cultura, sua origem, e acaba introjetando modelos hegemônicos.
Como o atual perfil do clero impacta no perfil da igreja?
A igreja é um patrimônio cultural e simbólico importantíssimo. A função dos padres, dos religiosos e dos pastores de outras religiões também é dar sentido à vida das pessoas. Por isso, a religião é um patrimônio importantíssimo para o psiquismo das pessoas, é o lugar no qual as pessoas buscam nos momentos de angústia, de dor, de perdas, um colo de apaziguamento. Caso contrário, nós iríamos enlouquecer.
Então, a experiência religiosa é uma experiência de apaziguamento, de buscarmos a paz interior. Agora, se esses pastores e padres não enxergam que essas pessoas são sofridas devido à situação socioeconômica e histórica, de grupos econômicos que oprimem e que massacram, a religião também pode prestar um serviço contraditório.
Ela pode servir não de apaziguamento, mas de repressão, de recalcar e, consequentemente, às vezes, de culpar por aquela situação de pobreza, como uma responsabilidade do próprio sujeito.
A pregação do pecado ou de querer responsabilizar totalmente essas pessoas pobres pode não dar paz e sentido para a vida. Muito pelo contrário, pode agravar mais ainda as angústias, as tristezas e a produção de sintomas físicos e mentais. Os padres e os pastores deveriam entender muito mais o contexto da produção da pobreza e da produção da vergonha, mostrar como os textos bíblicos ajudam essas pessoas a se libertar disso e não oprimir mais ainda.
Quais mudanças seriam necessárias para superar a “ideologia da vergonha”?
Como toda instituição, a igreja é ambivalente. Existem pessoas (bispos, padres, pastores, religiosas) que enxergam isso e que mostram que aquilo que está na sombra não leva as pessoas à libertação. O que leva as pessoas a se libertar é a luz, a lucidez.
Elas, institucionalmente, trabalham para quebrar as correntes de opressão, onde estão presas as pessoas na sociedade, e produzem caminhos para que elas possam enxergar a boca da caverna, onde está a luz. Também existem padres, pastores, etc, que não querem que as pessoas tenham lucidez, consciência, e promovem o medo, o abandono, o desamparo, com pregações de domínio e de subserviência.
Então, muitas igrejas, famílias ou escolas são lugares de treinamento de subserviência, não lugares de educação da liberdade. Esse adestramento pastoral vai enfraquecendo o caráter das pessoas, que vão ficando mais vulneráveis, mais frágeis e cheias de medo.
Isso é importante para os poderes dominantes, políticos e partidos, que não querem que as pessoas tenham um caráter forte, e deixem de ser vulneráveis e frágeis. Então, quanto mais os lugares forem construídos para regredir as pessoas, mais os políticos e a hierarquia podem dominar, mais os pais podem dominar os filhos, mais os empresários podem dominar os seus funcionários. Mais ainda, as redes sociais podem espalhar fake news, ou seja, informações falsas para deixar todo mundo apavorado e, consequentemente, sem perceber as coisas.
As instituições formam redes de apoio entre si para fragilizar a população, para que as pessoas frágeis continuem amando mais ainda os tiranos. Esse amor aos tiranos é a melhor arma para continuar a pobreza, o sofrimento, a amargura. Infelizmente, nós, seres humanos, temos essa capacidade psíquica de amar os tiranos. Isso é histórico em toda a humanidade.
Você acaba sendo regredido, frágil, mas acreditando piamente em pessoas que se colocam como salvadores para sua vida. E essa crença não é só intelectual, racional, ela é erotizada, ela é fruto de uma emoção. É muito interessante você perceber que você ama emocionalmente a pessoa que mais te danifica.
Muito se debate sobre a participação feminina na igreja católica, mas o sacerdócio feminino segue sendo um tabu. De que forma a não inclusão das mulheres influencia na cultura e formação dos padres e da igreja?
Nós temos que abrir o leque. Isso ocorre dentro da Igreja Católica, sim, e em outras religiões, muçulmanas e judaicas, por exemplo. Mas não é só no meio religioso. Isso ainda está presente nas famílias, no mundo do trabalho, no mundo do futebol, do esporte, do lazer. É uma cultura milenar, machista, patrimonialista, que vem, felizmente, declinando, mas, infelizmente, muito devagar.
Estamos passando por um processo de educação igualitária de gênero e isso está ocorrendo na Igreja Católica especificamente. Mas eu queria colocar esse contexto maior, sociopolítico e econômico. Quem de fato mexeu nesse vespeiro foi o Papa Francisco. Ele foi talvez o primeiro papa que abraçou essa dimensão do feminino e do masculino. E, por sinal, na história da igreja, dos santos, isso não era assim.
A figura de Deus tem sido mobilizada em discursos da extrema direita para legitimar violência. O que justifica essa ligação entre fé e violência?
Há uma força do imaginário e do mundo simbólico no psiquismo de todo ser humano, pela questão religiosa. Por exemplo, eu sou psicólogo clínico. Eu preciso entender, diante do meu cliente, como ele lida com a questão religiosa. Não há possibilidade de compreender o ser humano sem a vida religiosa. Estou dizendo isso para mostrar como é forte a presença do mundo religioso na vida do ser humano.
Então, a extrema direita conservadora vai usar essas substâncias religiosas para aumentar a opressão. Todas as religiões que estão alinhadas ao discurso de direita, às formas conservadoras, não estão usando os textos do Novo Testamento de Jesus. Eles estão usando mais os textos do Velho Testamento.
Por quê? No Velho Testamento, os textos têm raízes muito fortes de violência, de opressão e de justificação de opressão pela via de Deus. Jesus Cristo não é convocado para a vida de opressão. Pelo contrário, Jesus Cristo tem um discurso libertador. Ele tem um discurso das minorias. O que acaba criando, do outro lado, na direita, um ódio muito grande.
O que nós estamos vendo hoje no mundo, de um modo geral, é uma pauta social que cresce, cada vez mais, nos direitos humanos dos negros, das pessoas que têm orientações sexuais diferentes, das pessoas que têm diversas configurações etárias (criança, jovem, idoso) e das questões ecológicas. Essa massa de gente que estava calada há muitos séculos começou a falar, começou a ter voz e começou a ter direitos e a dividir poder e riqueza.
