Diante dos recentes acontecimentos envolvendo algumas igrejas evangélicas no escândalo do Banco Master e da importância de debater com profundidade o impacto desse grupo religioso na realidade brasileira, o Visões Populares entrevista Fillipe Gibran, pastor da igreja Comuna do Reino, em Belo Horizonte, e produtor de conteúdo digital para o público cristão.
Criado no meio evangélico, ele também é advogado, filósofo e teólogo, e defende o papel central do texto bíblico no debate político e a perspectiva de uma espiritualidade libertadora.
“Trabalho de base no Brasil hoje significa pegar a Bíblia e ir discutir com o senhor João e com a dona Maria. E, quando isso é feito, a gente percebe que as pessoas não são fascistas, elas estão enganadas”, afirma.
Confira o episódio completo:
Brasil de Fato MG – O que é uma espiritualidade libertadora?
Filipe Gibran – Eu acho que a gente precisa viver a fé como uma força histórica de libertação, não como fuga, moralismo ou domesticação da consciência. Uma espiritualidade libertadora nasce da vida, do chão da vida, e principalmente de nós, que estamos apanhando da vida. Somos nós, os pobres, as mulheres, a população negra, a população tradicional, os povos tradicionais, a população LGBTQIAP+, os trabalhadores precarizados.
É uma espiritualidade que brota desse lugar para libertar essas pessoas, em um processo de humanizar a nós que, por décadas, fomos desumanizados. De maneira concreta, a ideia é pensar fé e espiritualidade na centralidade da vida. Deus não é aliado da morte social, do desemprego, da fome, do racismo, da misoginia, do cárcere em massa ou do patriarcado.
É a ideia de como a espiritualidade produz dignidade, direitos humanos, entendendo que ninguém é descartável, ninguém é um caso perdido. É ler Jesus sob essa ótica de devolver consciência e autonomia. Não de infantilizar, controlar ou dominar, mas de restituir autonomia para que as pessoas possam ser senhores e senhoras da própria trajetória.
Recentemente, você defendeu que o capitalismo ocupa hoje o lugar social de uma religião. Em diálogo com essa interpretação, o conceito de realismo capitalista, criado pelo teórico britânico Mark Fisher, denuncia a interpretação ideológico-cultural do capitalismo como único sistema possível. Como é possível construir o imaginário e a ação para um novo mundo? E que novo mundo seria esse?
Para falar que o capitalismo é a religião, eu estou usando a ideia do Jung Mo Sung, um teólogo da libertação, que ainda é vivo e mora no Brasil. Claro, ele não é o primeiro a falar disso, mas estou usando-o para abordar esse lugar social que a religião ocupa e que o capitalismo captura com seus elementos típicos.
A promessa de salvação, hoje, está dentro da lógica do consumo. Se antes a religião prometia um paraíso, hoje, se você ficar rico, bilionário, você tem um paraíso. Haja vista o último jogo da Mega-Sena da virada e o desespero das pessoas para alcançar esse paraíso. As igrejas atualmente podem ser lidas como os shoppings.
Quando você entende uma organização religiosa, percebe que o capitalismo cumpre com quase todos esses cenários. Os sacrifícios que a religião pede, você acaba pagando com a sua vida, e esse mesmo sacrifício é transportado para uma lógica meritocrática. Para o religioso: se ele se sacrifica, Deus o recompensa; Para o meritocrata: se ele faz, obviamente terá um resultado. E, da mesma maneira que isso é mentira para a religião, também é mentira para o capitalismo.
Mas hoje, na nossa sociedade, o capitalismo entra nesse espectro da religião, e o Deus é o dinheiro. Estamos vendo uma sociedade organizada e curvada pelo Deus dinheiro e por esse espírito que é o mercado. A gente escuta o tempo todo falar do mercado, ele é como um Deus. Você não vê, não sabe o que é.
Podemos juntar um monte de gente com dificuldade de justificar o que é o mercado, mas por conta dele a gente mata, morre, deixa de fazer um monte de coisa, exatamente como antigamente a religião organizava a vida das pessoas. Tínhamos um monte de gente tentando explicar quem é Deus, ninguém explicava nada, mas por conta dele fez-se cruzadas, justamente como a gente faz para esse Deus mercado.
Eu vejo isso com uma certa preocupação, principalmente porque, no Brasil, essa questão vai se ampliando para o campo dos evangélicos, do qual eu faço parte. Pensando nas saídas, não que tenha bala de prata, mas eu acho que três pilares seriam importantes: primeiro, uma formação crítica, já que quanto mais o capitalismo cresce, mais ele trabalha para diminuir a criticidade. Matérias como filosofia e sociologia, tudo que é feito para pensar, vai sendo retirado do horizonte.
Inclusive, as big techs têm um papel importante nisso de não te fazer pensar, com aquele conteúdo cada vez mais rápido, mais curto, de 10, 30 segundos, com respostas rápidas para problemas complexos. Então, a formação crítica é fundamental.
Segundo, a experiência comunitária, que é uma coisa que está sendo tirada de nós no capitalismo. E isso se acentuou muito depois da pandemia, com o “cada um por si”, o individualismo. A gente tem poucas experiências comunitárias reais de clubes, de arte, de cultura, da própria igreja. Agora está todo mundo no seu apartamento, não quer nem sair de casa. O trabalho home office vai nos colocando mais isolados, cada um em uma ilha, e essa falta de experiência comunitária vai nos fazendo achar que devemos e podemos opinar sobre tudo, sendo que a nossa opinião passa a ser maior do que a própria experiência social.
E, por fim, essa prática concreta mesmo, de educação popular, de cultura, de arte, da beleza. Vemos o capitalismo se ampliando, e quanto mais ele se amplia, menos cultura, menos arte, menos beleza ele tem, ele é mais cinza. São essas coisas que eu acho que, em pequena escala, vão nos fazendo lembrar do que é ser humano. Devagar, tirar a centralidade do mundo do lucro e tentar voltar a centralidade do mundo para a vida, para a humanidade. É difícil, quase impossível, nesse mundo em que a gente vive, mas lutamos para isso.
O Censo de 2022 revelou um fenômeno novo no meio evangélico, os chamados ‘desigrejados’. Uma das justificativas comuns quando debatemos esse tema é o desencanto de uma parcela dos fiéis com o forte envolvimento político de algumas lideranças religiosas. Quais contradições essa aproximação tem gerado? É possível desvencilhar fé e política?
Eu cito aqui uma pesquisadora maravilhosa que é a Cris Vital, do Rio de Janeiro, talvez a maior referência de pesquisa no campo evangélico no Brasil. Ela tem quase 30 anos de pesquisa só sobre o campo evangélico no Brasil. Eu acho que a desaceleração do crescimento aconteceu em razão de uma crise profunda da credibilidade da igreja por conta desses projetos autoritários. Muitos fieis se sentiram usados, manipulados, traídos. O discurso religioso passou a ser muito odioso. Isso também produz um desencanto e um afastamento.
Muitos de nós, da esquerda, acabamos achando que, porque o cara é evangélico, ele é fascista, ele é intelectualmente reduzido. Existe um preconceito muito grande da esquerda com o campo evangélico, e é, de fato, um disparate você achar que o senhor Zé, a dona Maria, que são gente do dia a dia, são pessoas fascistas.
Não, é uma pessoa comum, uma brasileira ou um brasileiro médio que tem toda a estrutura do Estado negada. E, talvez, não estejamos enxergando que essa cultura moralista ultra-puritana dos Estados Unidos, um enlatado terrível que não tem nada a ver com uma espiritualidade sadia, está nos engolindo.
É brilhante a sua pergunta justamente porque é impossível desassociar a espiritualidade, a fé ou a religião de política. É impossível. Nunca, em nenhum momento da história da humanidade, isso esteve desassociado. Por que a gente vai conseguir fazer isso agora? Política e religião, em vários momentos, se não o tempo inteiro, são a mesma coisa. Porque a política é a maneira de a gente fazer a vida, a maneira como organizamos os nossos valores, os nossos pensamentos. Isso se traduz na maneira como a gente vai organizar a sociedade.
Então, se a religião trabalha ajudando as pessoas a terem ideais e valores que organizam a sua vida, esses valores vão ser levados para serem a organização da sociedade onde as pessoas estão. Por isso, é impossível desassociar uma coisa da outra. O que dá para fazer e é necessário é distinguir religião e Estado. O Estado laico é necessário. O que dá para fazer e é necessário é a distinção entre religião e partidarismo. Agora, fé e política, religião e política, não se separam de jeito nenhum. Isso não tem jeito.
E inclusive, partindo da minha experiência religiosa, Jesus foi executado pelo império com a colaboração direta da religião, justamente porque a mensagem dele discutia o poder. Então, na origem do cristianismo, ele já é uma afronta ao poder, é um fazer político, uma insurgência contra os poderosos.
No Brasil, nós precisamos, para ontem, tentar trabalhar com as lógicas do Estado laico e da separação entre religião e Estado, já que religião e política não se separam, mas a separação entre religião e Estado é necessária.
Acabamos de passar pelo período de Carnaval, um movimento cultural que é historicamente disputado em seus sentidos. Você chegou a comentar sobre as rodas de oração nas ruas de Belo Horizonte, promovidas por segmentos evangélicos na intenção de “libertar” as pessoas da festa. Como você lê estas disputas simbólicas?
Vejo isso com muita tristeza. Mas o que percebemos é que a grande maioria dos evangélicos não tem conhecimento nem do próprio texto bíblico. Eles não leem a Bíblia e estão sempre mediados por um óculos de leitura: tem um pastor, uma corrente teológica e uma igreja que lê a Bíblia para eles.
Do ponto de vista da escritura, do texto bíblico, os evangélicos deveriam adorar o Carnaval, porque as festas bíblicas são todas muito parecidas com o Carnaval. Nas festas bíblicas, as pessoas ficavam sete dias na rua, bebendo tudo o que tinha para beber, comendo tudo o que tinha que comer, para limpar os armazéns da comida da produção anterior, para a nova produção.
Era muito comum as pessoas passarem sete dias na rua bebendo, comendo, se alegrando, agradecendo porque a colheita da temporada passada foi ótima. Isso é um dado tão fantástico que o próprio Jesus Cristo é apelidado de comilão e beberrão. O que é um comilão e um beberrão hoje? Uma pessoa que gosta de sair, de beber, de tomar uma, de comer. Ele tinha uma má fama de andar com as prostitutas e com as meretrizes, porque só andava, de fato, nesses lugares da comensalidade.
E inclusive, o primeiro milagre das narrativas bíblicas é Jesus, em uma festa de casamento, multiplicando o vinho. Porque ele chega na festa com um monte de convidados que não estavam previstos e os convidados dele acabam bebendo a bebida toda. Então, se um cristão fosse um fundamentalista honesto, se ele não fosse hipócrita, se realmente levasse a ferro e a fogo o que está lendo do texto bíblico, teria que adorar o Carnaval.
Mas a hipocrisia é tão grande que ele não consegue nem saber que o que ele está reproduzindo é um moralismo puritano norte-americano. O que ele está reproduzindo é uma ideia moralista, que começa com a Igreja Católica, depois os puritanos da Inglaterra ampliam isso, e esse negócio chega aos Estados Unidos e vem para nós pior do que tudo.
É o controle do corpo, do prazer, da diversão, da beleza, da arte. Isso não tem a ver com a espiritualidade de Jesus, com o que está nas escrituras, é um projeto muito posterior de domínio. Porque, afinal de contas, se uma coisa domina o seu corpo, o seu prazer e as suas ideias, ela domina tudo. Então, existe uma demonização do sexo, da sexualidade, do prazer. Só que isso tudo é extremamente contraditório quando você vai ler o texto bíblico.
A Bíblia é uma biblioteca e um dos livros dessa biblioteca é um livro exclusivo sobre sexo, sexualidade e prazer. A Bíblia tem um Kama Sutra, um livro específico sobre o prazer de uma mulher que se apaixona por um homem e que tem relações, não para procriação, mas por puro deleite. O texto não esconde, ele fala sobre partes íntimas e narra cenas eróticas, o que, para aquele tempo, seria um livro, com certeza, para maiores de 18 anos.
Não estou chamando, preste atenção, as pessoas de burras ou de estúpidas. Mas estou chamando o movimento de estúpido, o movimento de burro. Porque ele não produz reflexão sobre a própria espiritualidade. As pessoas que reproduzem esse tipo de coisa estão ali enganadas por um processo religioso do controle moral. E a gente vai percebendo isso muito fortemente nas camadas jovens.
Tem uma relação, primeiro, com a influência das big techs. Não podemos negar, essas grandes empresas das mídias sociais realmente têm o algoritmo projetado para ideias da direita e da extrema direita e os perfis de esquerda são boicotados. Isso está disponível no pouco sobre a internet que ainda temos acesso.
E os jovens que estão muito imersos nessa lógica das mídias sociais acabam encontrando perfis de outros jovens reproduzindo o moralismo. O moralismo e a moralidade são um tipo de conteúdo fácil de propagar, porque é injusto e sempre apresenta uma resposta simples. Então, se seu casamento deu errado, é porque você não se casou virgem. Ponto. Você não precisa se responsabilizar, nem entender.
Porque se responsabilizar é um problema sério, e as pessoas vão ter realmente dificuldade de fazer uma autoanálise e assumir os próprios erros. Então, o conservadorismo cresce porque apresenta respostas banais, mas que servem de alívio para a consciência. É um alívio simbólico. Todo mundo sabe que isso não funciona, todo mundo sabe que isso não existe.
A exemplo do celibato. As pessoas falam: “eu vou casar virgem”. Aí o padre, o pastor, fala, você finge que escuta, sai da igreja e tem a sua relação sexual escondida, mas volta para a igreja e finge que está virgem. É uma bobagem, mas isso, para uma consciência cauterizada de milênios de um cristianismo moralista, acaba aplacando algo para essa juventude.
Outra coisa que é importante é que esse conservadorismo também não vai estar só entre os jovens, mas especialmente entre os homens. Por conta de uma insegurança, da crise na masculinidade que passamos. A Manuela D’Ávila fala muito bem disso, que na sociedade a questão da insegurança econômica está desestabilizando os homens. Antes, o seu lugar como homem era da provisão, de trazer o recurso, aquela coisa toda.
As mulheres chegaram no mercado de trabalho, são tão competentes quanto os homens. Agora, inclusive, 52% das famílias brasileiras têm como chefes as mulheres. Financeiramente, a responsabilidade é das mulheres. Então, vai dando uma crise nessa masculinidade estúpida que era embasada só nessa lógica do dinheiro, da provisão, do provedor, do homem, do macho alfa, aquela coisa toda. Porque agora você tem mulheres fazendo quase todas as coisas que os homens faziam antes e não precisam dos homens para mais nada.
Aí você vai tendo, cada vez mais, esses homens, principalmente jovens, nessa insegurança da crise da masculinidade. Sendo disparados com ofertas de discurso simples para esses problemas, e a religião vira esse abrigo simbólico das frustrações, da canalização do ódio. Então, não é só um ataque ao Carnaval, o Carnaval é só um ponto.
O aumento da violência simbólica, o aumento do machismo e da intolerância, o aumento da LGBTfobia, da misoginia, são outros exemplos. Basta vermos como 2026 nem começou e o volume de notícias estrondosas que nós estamos vendo de feminicídio e de violência contra as mulheres. É essa crise que nós estamos passando, e tudo isso mediado por uma lógica religiosa.
Eu volto a destacar, uma lógica religiosa hipócrita, falsa, mentirosa, reacionária, porque a religião em si não é sobre o ódio, é sobre amor. Mas o óculos de leitura que tem se vendido sobre o cristianismo é um cristianismo intolerante. E nós, da esquerda, fingimos que não estamos vendo, fingimos que o problema do Brasil é Lula e Bolsonaro. Fingimos que o problema do Brasil é eleger Lula.
Sem darmos conta de que dos 513 deputados, 238 compõem a bancada cristã; dos 81 senadores, 32 vêm de igrejas evangélicas. E, se eu coloco isso aqui no micro, na minha cidade, dos 41 vereadores, 28 são de igrejas evangélicas. Fechar o olho para isso é não conseguir entender que o é Brasil terrivelmente evangélico, nós já vivemos nele. Só que, infelizmente, não queremos gastar tempo para entender o campo evangélico, para discutir o campo evangélico. Enquanto isso, os evangélicos vão nos engolindo, com essas técnicas como o moralismo.
No Rio de Janeiro, muitas polêmicas permearam o desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói, que homenageou o presidente Lula. Em uma de suas alas, intitulada “neoconservadores em conserva”, a escola trazia uma crítica a esse movimento cultural e político, mas o gesto foi visto por muitos como um erro, por afastar os segmentos evangélicos. Você concorda com essa avaliação?
Essa questão do enlatado, eu, em particular, nem gosto de discutir sobre. Porque nós estamos falando sobre arte e eu acho que a arte é o lugar de tensionar as fronteiras, por meio da piada, da charge, da caricatura. Esse é o lugar da arte. A arte pode fazer as denúncias e questionar. Se aquele grupo de artistas, na composição daquele samba-enredo e criação daquele figurino, achou que deveria fazer aquela crítica, para mim está tudo certo. Eu acho que isso é zero problema.
É uma pena que nós vivemos em um país que não consegue nem compreender o que é arte. E passa a lidar com a arte do ponto de vista da literalidade. Precisamos entender, principalmente esse campo da extrema direita que foi criticado, que a liberdade de expressão não é para você cometer os seus discursos de ódio, o que, na verdade, é crime. A liberdade de expressão tem que comportar crítica, ela tem que comportar divergência.
Então, eu não vejo nenhum problema com relação a esse sentido. É claro que eu não represento aqui os evangélicos médios. E aí, eu fico muito nessa sinuca de bico, em que nós ficamos tentando dialogar com os intolerantes, colocamos os intolerantes para dentro e depois eles nos matam.
Eu já não acho mais possível dialogar com o campo evangélico. Eu já nem acho necessário dialogar com o campo evangélico. A minha proposta é outra, é: as pessoas do campo democrático precisam entender que o campo evangélico existe. Precisam entender o tamanho, a força e a capacidade de mobilização do campo evangélico. Para dialogar? Não, para adotar outros remédios, como a disputa de consciências, que não necessariamente está na lógica do diálogo.
Porque é impossível dialogar sobre plataformas de pensamentos diferentes. Eu acredito que a vida, a democracia, a justiça, paz e a alegria deveriam ser coisas para todo mundo, mas tem gente que acha que isso é só para aqueles que têm dinheiro, por exemplo. Não tem como discutir sobre essas plataformas, mas é possível a gente plantar outras sementes.
O Brasil teve governos populares no início dos anos 2000 e, na minha leitura, esses governos só foram possíveis a partir do trabalho de base feito pelas comunidades eclesiais de base nos anos 70 e 80. Inclusive, na minha visão, elas foram fundamentais para derrubar a ditadura militar. Isso foi feito conversando na casa das pessoas, usando o texto bíblico como ferramenta e falando sobre política, sobre reforma agrária, sobre distribuição de renda, sobre distribuição de alimentos.
Eu não estou inventando a roda, o Brasil viveu isso, com a Teologia da Libertação, com as comunidades eclesiais de base. O problema é que isso dá trabalho para caramba e isso não faz deputado federal. Se você não faz deputado federal, você não tem tantos recursos de acesso ao fundo partidário, ao fundo eleitoral, etc. E aí o Brasil inteiro se curva a um processo eleitoral, como se para fazer política a única coisa necessária fosse eleição.
Na minha ótica, a eleição não é nem 20% do trabalho político. Nós da esquerda não estamos dispostos a fazer trabalho de base e nós não fazemos, porque trabalho de base hoje no Brasil “significa igreja evangélica”. Eu não vou nem dizer das ONGs, que quase nem existem mesmo, do ponto de vista da esquerda. A grande maioria das organizações que estão trabalhando no terceiro setor não têm mais vínculo partidário. E muitas inclusive são de direita, ligadas às próprias igrejas evangélicas.
Então, trabalho de base no Brasil hoje significa igreja evangélica. Significa pegar a Bíblia e ir discutir com o senhor João e com a dona Maria. E, quando isso é feito, percebemos que as pessoas não são fascistas, elas estão enganadas. Agora, quem quer fazer isso? Quem quer apoiar trabalhos que fazem a leitura bíblica de maneira crítica? Que estão tentando discutir com as pessoas? Ninguém está disposto.
E a esquerda, como parte dela é ateia, acha que a negação da religião resolve. Não resolve. Não há o que faça uma pessoa que tem uma experiência da espiritualidade negar essa sua espiritualidade, se não for por si mesma. Eu acredito muito nesse trabalho, porque eu vivo esse trabalho há pelo menos 11 anos.
Recentemente, eu estive em uma comunidade aqui em Belo Horizonte, a Serra, uma das grandes vilas do Brasil. E estava discutindo com as mulheres negras sobre direitos sexuais reprodutivos. Elas, em sua maioria, de igrejas fundamentalistas, e, quando chegamos na pauta do aborto, virou um pandemônio. Até o momento que eu abri a Bíblia, peguei o texto bíblico e mostrei para elas que na Bíblia tem um texto em que é feito um aborto dentro do templo, pela mão do sacerdote.
Quando eu li isso com elas, a grande maioria daquelas mulheres começou a chorar. Porque, em um contexto de empobrecimento e vulnerabilidade social, a grande maioria das mulheres, se não passaram por um aborto, conhecem alguém que abortou, a prima, a tia, a vizinha. Várias vezes elas inclusive podem ter participado do processo de aborto. Por conta das violências que acontecem, às vezes, tira-se a criança porque engravidou do patrão lá no bairro nobre, mas vai ter que tirar a criança aqui.
E, quando você abre o texto bíblico e mostra para elas aquilo, você tira delas o medo, a culpa, a culpabilidade. Aí virou um choro coletivo, porque muitas delas carregavam a culpa de ter tirado uma criança. Veja bem, não estou aqui fazendo apologias ao aborto, mas estou dizendo que esse é um fato do nosso país, que acontece e que, quando a discussão é feita com o evangélico na linguagem do evangélico, a coisa muda. Não atoa temos algumas experiências de gente de direita e bolsonarista que foram para nossa comunidade e que hoje deixaram de pensar na lógica do bolsonarismo.
Continuam, inclusive, por vezes, sendo de direita ou centro-direita, mas entenderam o problema do bolsonarismo, dessa questão da violência e da morte. Quando você abre a Bíblia e vai dizer para as pessoas o texto bíblico, a partir da lógica dos oprimidos, as pessoas mudam.
Um outro relato muito interessante: quando alguns desses padres da Teologia da Libertação chegaram em alguns países aqui da América latina, principalmente na Colômbia, as pessoas disseram: “se a gente soubesse que Jesus era isso aí, não precisaria ser nem comunista, a gente só seria cristão”. Porque quando você espreme as lógicas de Jesus, elas se assemelham muito à esquerda. E a gente não tem culpa se os grandes pensadores da esquerda, como Marx e Engels, leram a Bíblia e tiraram muitas das suas ideias do próprio texto bíblico.
Então, eu acho que é sobre isso, a proposta do comunismo, a proposta comunitária, está no DNA do texto bíblico. Depois, as ideias foram repensadas, foram trabalhadas, chamaram de outros nomes, mas o “protocomunismo” está no texto bíblico e não tem como negar.
Só que, como tudo na vida, a questão é de hermenêutica. Você pode pegar qualquer texto para justificar a violência, como você pode pegar qualquer texto para justificar a libertação. Eu acho que é fundamental ensinar ao povo simples do nosso país a usar a Bíblia para defender os seus próprios direitos.
Estamos discutindo o fim da escala 6 por 1. Ora, o Deus da Bíblia é o primeiro Deus dentro daquele panteão dos deuses antigos que fez greve. Todos os deuses trabalhavam todos os dias sem cansar, a população trabalhava todos os dias sem cansar. No Oriente é a primeira ideia de um Deus que não trabalhou.
Deus fez o mundo em 6 dias e depois descansou. Então, a primeira noção de descanso é desse Deus do texto bíblico. Então, o cara que está trabalhando na escala 6 por 1 pode usar a Bíblia para dizer: “Não, mas peraí. O meu Deus quer descanso, então eu também tenho o direito de descansar”. É sobre isso, é usar o texto bíblico para ensinar a população a defender os seus próprios direitos.
Existe um único projeto de Brasil que contempla os evangélicos de forma geral? Como podemos compreender e combater esse projeto de poder ultraconservador no meio protestante?
Os documentos da Comissão Nacional da Verdade foram e são fundamentais para uma série de questões no país, apesar de a gente falar pouco deles. E, entre eles, está uma coisa muito interessante, porque mostra como as igrejas evangélicas vieram dos Estados Unidos para cá, nesse papel mesmo de colonização, nessa ideia imperial de domínio do país.
Mas os documentos vão mostrar para nós coisas recentes, como, na década de 60, a CIA financiou e plantou muitas igrejas dentro do Brasil. A CIA plantou a igreja. Estamos falando de uma organização oficial de um país construindo igrejas evangélicas em outro. É o ultraje do absurdo.
Não existe um projeto único evangélico, porque esse campo é muito plural. Mas existe uma plataforma e, talvez, os da direita sejam melhores do que nós em entender o conceito de aliado. Porque nós somos muito fratricidas, a gente se bate e se cancela o tempo inteiro.
Eles não, eles têm um conceito de aliado interessante e, por mais que sejam plurais, por mais que sejam todos diferentes, são aliados nessa ideia do poder.
Então, eles têm uma plataforma de poder. Cada um tem 1 milhão de projetos, mas, com certeza, o projeto principal ou onde eles são aliados opera nessa lógica de um Brasil evangélico, um país cujo Deus é o senhor. E isso existe e funciona a partir de uma articulação internacional ultraconservadora, com várias igrejas, com vários políticos, com várias organizações evangélicas, financiando as atividades aqui no Brasil, o que torna inclusive essa luta totalmente injusta.
A luta por si só é hercúlea, mas ela se torna injusta. Teve recentemente o The Send aqui no Brasil, que é um movimento que acontece em vários estádios de futebol, e, pelo que os números disseram, movimentou 600 mil jovens do Brasil. No Paraná, São Paulo, salvo engano, em Recife, também. Na edição anterior, tinham sido cinco estádios de futebol.
Mas são financiados por organizações ultraconservadoras, de direita, dos Estados Unidos. As igrejas dos Estados Unidos têm grana, botam a grana e financiam esse tipo de coisa. E, do nosso lado, tentamos fazer qualquer luta, mas não tem nenhum financiamento, não tem nenhum apoio. Eu mesmo, em específico, já sofri seis ameaças de morte e a única coisa que me resta fazer é um boletim de ocorrência, porque é isso, não tem apoio.
Mas existe esse projeto de guerra cultural e ela é feita a partir do pânico moral, com essa ideia de domínio de controle. Só que, o que, para a maioria do campo evangélico tem relação com a perspectiva ideológica, da espiritualidade, com o proselitismo que é natural da religião, a gente faz uma leitura entendendo que está ligado ao que o Trump já falou um milhão de vezes, que, para ele, a América Latina é o curral dos Estados Unidos.
Entendemos que é realmente uma questão de domínio, de poder, de economia, haja vista que a lava-jato foi feita, organizada, instrumentalizada por um monte de evangélico com o intuito claro de acabar com o desenvolvimento da Petrobras no país. E quase quebra o Brasil mesmo, financiado pelos Estados Unidos e com um monte de evangélicos.
Essa é a disputa do campo evangélico conservador, é por dinheiro, é por poder, é por economia, é financiada, mas não é um projeto único. Tanto que agora você está vendo vários evangélicos brigando. O Silas Malafaia brigando com a Damares, a Damares denuncia o André Valadão. Porque os objetivos deles, em específico, são outros, mas o “objetivo comum” ainda continua sendo chegar ao poder. E, para chegar ao poder, inventam o comunismo, fake news sobre o Lula, aquela coisa toda.
Para combater isso precisamos de muita criticidade, fortalecimento das lideranças populares, mídia alternativa, e políticas públicas que vão garantir esse direito. E nós parecemos estar letárgicos, vivendo no país das maravilhas. “O Lula foi eleito, está tudo resolvido”.
Só que, se a gente não tiver mídia alternativa, não tiver grupos pequenos sendo fortalecidos, como lideranças populares locais combatendo isso, não dá. Vamos nos familiarizando com alguns termos e achando que, por ter familiaridade, a gente conhece. Eu vejo muita gente falando de teologia do domínio, teologia da prosperidade, que são coisas que o campo evangélico não conhece.
Não é uma teologia, é uma maneira como a esquerda ou pesquisadores estamos etiquetando um movimento popular. Mas essa teologia, ela nem existe. Se você falar com os evangélicos sobre teologia dos domínios, eles vão rir da sua cara. Isso é alguém da esquerda etiquetando um grupo evangélico.
Só que o fato de você dar uma etiqueta, um marcador social para um grupo, não significa que você sabe o que aquele grupo pensa. Ou que você tem de fato noção da tessitura desse grupo. E aí, infelizmente, o que eu vejo é que esse projeto é cruel e nós somos muito ignorantes com relação a ele. E, nessa brincadeira de achar que a gente sabe, eles vão colocando esse projeto ultraconservador deles, dessa guerra cultural, para frente.
Qual é o tamanho simbólico da Igreja Batista da Lagoinha no meio evangélico e como você interpreta o posicionamento dessa denominação?
A Lagoinha está para o campo evangélico brasileiro assim como o Nikolas Ferreira está para a política brasileira. Ela tem um enorme peso simbólico para o Brasil, é uma referência estética, musical, midiática e organizacional. Nos anos 90 e 2000, a Lagoinha era a grande referência nacional.
Ela mudou todo o conceito do gospel no Brasil, através de um movimento que chamava Diante do Trono. Eles colocaram o gospel como um selo musical tão grande quanto talvez o sertanejo no Brasil. Claro que não é a Lagoinha que fez isso, mas eles são como essa referência estética. Então, ela representa um modelo de igreja/empresa altamente profissionalizado, conectado às redes de poder, um modelo econômico e político.
Ao longo da história, eles beijaram a mão de todo mundo. Eu vi a Dilma na Lagoinha, assim como o Bolsonaro. É uma teologia que tende ao individualismo, à meritocracia, à neutralização da crítica social. O pastor presidente vive falando para não levar os filhos para a faculdade, faz falas homofóbicas diuturnamente. Então, politicamente, isso acaba favorecendo alianças conservadoras.
E quando você tem uma figura com tanto protagonismo quanto a Lagoinha normalizando esse tipo de violência, esse é o grande problema. Isso reflete na periferia do campo evangélico, porque vai reforçando, vai normalizando, o professor ser o inimigo do país, a LGBTfobia, entre outras coisas.
Talvez a Lagoinha não tenha o peso político que outros atores hoje tem, como o Edir Macedo, que tem o próprio partido, o PR; como o Silas Malafaia, que tem uma penetração política maior. Mas, do ponto de vista simbólico, a Lagoinha é extraordinária. E eu falo que é assim como o Nikolas, porque é a mesma coisa. Talvez o Nikolas não tenha o poder que outros evangélicos, como o Sóstenes, por exemplo, que já está lá há muito tempo, mas a capacidade simbólica do Nikolas, principalmente entre os mais jovens, é absurda. É mais ou menos esse paralelo.
O que se sabe sobre o envolvimento das igrejas nos casos do Banco Master e da fraude no INSS até agora e como isso abala (ou não) a credibilidade dessas igrejas?
Esses casos acabaram revelando como esse campo religioso vai misturando os esquemas financeiros com os interesses privados e com os projetos políticos. Isso vai, sem dúvida, fragilizando a credibilidade moral dessas lideranças. Mas o impacto eleitoral não é automático.
Porque o evangélico está muito ligado a pensar que “eu não olho para o homem, eu estou aqui por Deus” ou “ele vacilou, é injusto ou desonesto, mas ele vai se ver com Deus. A justiça de Deus que dá a ele, eu estou aqui pela fé, pela espiritualidade”.
Demora um pouco para esse resultado eleitoral vir da descredibilidade que essas ações geram. É também um produto das igrejas serem bolhas de informação. Elas acabam conseguindo ter um controle narrativo muito grande. É capaz de você entrevistar 10 pessoas de uma igreja como Lagoinha e eles nem saberem exatamente o que é a questão do Banco Master. O tamanho, a força, a capacidade de influência que a igreja tem na vida das pessoas é enorme.
O pastor vai dizer: “olha, não escuta esses caras, estão fazendo fake news, querem difamar a igreja”. E aí, quando a informação chega para o fiel, ele já está vacinado contra essa informação.
O caso do Banco Master com as igrejas é uma coisa que talvez seja a grande realidade do país. Ter qualquer tipo de organização que não precisa fazer declaração de fonte, da entrada de dinheiro, é implorar para que haja lavagem de dinheiro. Não estou dizendo aqui que as igrejas evangélicas lavam dinheiro. Estou dizendo apenas, como um advogado tributarista, que esse tipo de ação proporciona essa possibilidade.
Eu não estou nem falando que as igrejas deveriam ser taxadas, porque eu tenho certeza absoluta que não há força política nesse país para fazer uma taxação de igreja, mas não há nem fiscalização por amostragem, tipo a vigilância sanitária, que, de vez em quando, entra em um restaurante, entra em um açougue, para ver como é que está.
De vez em quando, os auditores fiscais deveriam falar com a igreja assim: “me dá o seu livro caixa, deixa eu ver como está. Não vou te taxar, só quero ver como é o seu livro caixa”. Porque você tem uma organização desse tamanho, com essa influência política, com muita gente. A Lagoinha, por exemplo, é global, está literalmente em todos os continentes, são mais de 600 igrejas no mundo.
Isso sem contar a Universal, sem contar a igreja católica, que tem até um país, e que não precisa declarar a entrada de dinheiro. É absurdo. Porque você pode pegar qualquer mala de dinheiro, pode tirar dinheiro da sua cueca, colocar no gazofilácio (o lugar onde se deposita o dinheiro), e o dinheiro está limpo. A partir do momento que ele entrou no caixa da igreja, a igreja faz com ele o que quiser. Não precisa declarar a fonte.
Isso é tão absurdo que, na compra da Record, diz a lenda que um repórter entrevistou o Edir Macedo questionando se ele estava comprando a Record com dinheiro do tráfico de drogas da Colômbia. E o Edir responde: “não, um traficante colombiano se converteu a Jesus Cristo e doou 50 milhões de dólares para a igreja”. Ele está errado? Ele está coberto de razão.
Se o traficante pode doar 50 milhões para a igreja, não precisa de declarar fonte, o traficante se converteu a Jesus Cristo. Entende? O caso do Banco Master só escancara o que o Brasil já vive há pelo menos 526 anos. A possibilidade de utilizar a religião como forma de controle. E hoje o controle não é mais só político, o controle é financeiro.
Não é só Lagoinha, a denúncia da Damares tem nome de outros pastores, têm nome de outras igrejas. Diga-se de passagem, é uma denúncia, eles têm o direito de se defender, de responder a um processo legal, como deve ser feito. Na campanha, salvo engano, de 2022, tiveram alguns trios elétricos em manifestações na rua pró-Bolsonaro que foram pagos com o dinheiro das igrejas.
Cada vez mais isso vai se tornando uma coisa muito fechada e que, quando você chega no Rio de Janeiro, você se assusta. Porque crime organizado, milícia, igreja evangélica e Estado tem momentos em que são a mesma coisa. Você não sabe dizer onde termina um e onde começa o outro.
No Rio de Janeiro, isso já opera assim de uma maneira muito simbiótica. Você não sabe o que é milícia, o que é o pastor, o que é o bispo, o que é o crime organizado, o que é o político. Está tudo ali em uma bolsa só. Me parece que esse vai sendo o caminho o qual o Brasil vai trilhando, infelizmente.
Estamos em um momento de transição muito grande no campo evangélico e das forças que compõem o nosso país. As classes que dominavam o país estão em outras esferas e também compõem o campo evangélico. As classes de dominação não estão mais só preocupadas com a perspectiva do mercado, mas também com o domínio cultural, com a moralização do país.
O que torna a nossa situação pior do que antes. Porque ter o domínio do mercado, ter o domínio financeiro, já é péssimo, mas ainda tinha uma possibilidade para as liberdades individuais. Hoje, nós temos um risco iminente de perda das liberdades individuais.
Quando eu faço essas críticas ao campo democrático é justamente por estar nele, é por acreditar que a única saída possível é uma sociedade de bem viver. Se não formos nós a organizar isso, não há possibilidade. Precisamos caminhar para ontem. E todas as vezes que eu falo, automaticamente, já vem aquele espírito da esquerda salvadora de “como é que a gente vai fazer para resolver isso”.
Não é sobre o protagonismo, mas sobre a divisão da competência. Eu não sei muito o que a esquerda consegue dar conta de fazer, porque ela nem sabe a linguagem para produzir isso. Mas tem muitos homens e mulheres e outros gêneros também que estão na luta nesse país com o campo evangélico. Somos pouquíssimos, mas a gente existe.
E muitos de nós estamos nas periferias desse Brasil, fomos expulsos de casa, mandados embora da igreja. Muitos estão com dificuldade de pagar água e luz, porque veio o bolsonarismo e expulsaram as pessoas. Existimos e lutamos porque já não conseguimos pensar em outra coisa. Mas lutamos sem cobertura, sem institucionalidade, sem apoio.
O que eu já fiz de conversa com os grandes movimentos, com os grandes partidos, eu não vou citar nomes aqui porque acho que é até antiético. Mas assim, de todas as cúpulas políticas desse país, em todos os lugares, legislativo, judiciário e executivo, pode ter certeza, teve gente evangélica de esquerda, democrática, progressista conversando, dialogando, dizendo: “pelo amor de Deus, não faça isso”; “Pelo amor de Deus, esse panfleto que vocês estão fazendo é ridículo. Não funciona”; “Não é assim que conversa com o campo evangélico.”.
A questão é que muitas vezes não nos levam a sério, há medo do protagonismo. A esquerda tem medo disso, não formamos novos quadros, porque os quadros que já estão têm muita dificuldade de serem superados. Não dão conta de entender que, na vida, precisa se passar um bastão, outras pessoas precisam vir com mais energia. A esquerda não dá conta de entender isso.
Por isso, nós somos engolidos, por isso, cada vez vemos mais políticos da direita e da ultra-direita movimentando a juventude. E, no nosso campo, são pouquíssimos e os pouquíssimos que existem sofrem muito para se manter de pé. Já que os próprios velhos caciques dos partidos minam eles.
