Uma das integrantes do comboio humanitário Nuestra America Convoy a Cuba, a vereadora de Belo Horizonte Iza Lourença (Psol), em entrevista ao Visões Populares, conta quais são os efeitos do bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos e fala sobre a importância da solidariedade ao povo cubano, que, como ela defende, tem sido por décadas o povo mais solidário do mundo.
“Defender Cuba hoje é um exercício de humanidade. É defender uma sociedade onde as pessoas não tenham que morrer de trabalhar, como é no capitalismo. Cuba estar na mira do Trump é extremamente problemático para o povo cubano, mas também para toda humanidade que vislumbra uma outra forma de se organizar, que não seja essa baseada nos valores capitalistas e individualistas”, destaca.
O país caribenho enfrenta sua pior crise desde a revolução de 1959. Em março, a ilha vivenciou três apagões nacionais devido à falta de combustível, resultante do endurecimento das sanções impostas pelos Estados Unidos e do fim da ajuda vinda da Venezuela.
O que acontece em Cuba hoje é uma guerra sem bombas
Confira a entrevista completa:
Brasil de Fato – Qual é a importância histórica de Cuba e da Revolução Cubana e por que até hoje a ilha sofre com tantos embargos?
Iza Lourença – Na década de 60, quando aqui no Brasil houve um golpe militar e os Estados Unidos interferiram diretamente para iniciar uma ditadura, Cuba estava vivendo um processo revolucionário, em que o povo cubano rompeu com os Estados Unidos e com as suas influências na ilha. Essas influências vinham não só dos Estados Unidos, mas também dos espanhóis, que foram os colonizadores de Cuba.
O povo cubano rompeu com aquela superexploração que o imperialismo exercia, que os próprios Estados Unidos tinham sobre a ilha, e realizou a Revolução Cubana. Eles falam muito sobre o triunfo da revolução. A revolução triunfou. Ou seja, passaram a construir em Cuba uma sociedade com outros valores, valores mais coletivos e menos individuais.
São valores que defendem que todo mundo possa ter comida, moradia, direito à educação, e que todas as pessoas possam se manifestar culturalmente. É muito presente em Cuba a cultura africana, por exemplo, a cultura da diáspora, a cultura do povo negro que foi para Cuba. A cultura do tambor e a rumba estão muito presentes.
À princípio, eles são apoiados pela União Soviética e isso tem uma importância muito grande, porque Cuba é uma ilha, um país pequeno, de 11 milhões de habitantes. É difícil sobreviver sozinhos e isolados, já que, desde esse primeiro momento, os Estados Unidos já impõem uma série de embargos, impedindo-os de comprar e comercializar. Só que, naquele momento, existia uma grande ajuda para Cuba, que era a União Soviética.
Isso fez com que eles conseguissem se sustentar e se desenvolver bem. No esporte e nas artes, por exemplo, Cuba teve os principais atletas da América, competindo inclusive com os Estados Unidos. Cuba é, até hoje, referência mundial no balé clássico e contemporâneo, e em outros setores também, como a medicina cubana, que presta ajuda ao mundo todo.
Mas quando vem a década de 1990, com o fim da União Soviética, Cuba vive um momento muito difícil. Foi o primeiro momento de extrema dificuldade, com muita carência de alimentos. Cuba até hoje vive uma dificuldade muito grande de ter papel. Mas conseguiu se apoiar, em um primeiro momento, na Venezuela, a partir dos anos 2000, e também nos governos progressistas da América Latina.
O grande aliado de Cuba, principalmente em termos energéticos, era a Venezuela até o dia 3 de janeiro deste ano, quando Maduro foi sequestrado. Com o sequestro do presidente da Venezuela, Cuba começa a viver um novo momento de dificuldade extrema, porque quem enviava petróleo para Cuba, em larga escala, era a Venezuela.
No primeiro dia em que Maduro foi sequestrado, o presidente de Cuba já decretou situação de calamidade no país. Fora isso, tem um bloqueio grande do Trump. Apesar de Cuba já ser um país bloqueado há seis décadas, o Trump agora impõe um bloqueio muito mais severo.
Você esteve em uma caravana internacional de solidariedade a Cuba, que levou cerca de 20 toneladas de produtos para ajuda humanitária. Como é a situação da ilha hoje?
Cuba vive o seu pior momento, porque agora Trump impõe um bloqueio que faz com que nenhum país hoje venda petróleo ou combustível para a ilha. Outro país que abastecia Cuba de combustível era o México, e o México, ainda que esteja enviando muitas toneladas de ajuda humanitária, não tem enviado combustível, para não sofrer com as sanções do Trump. O Brasil nunca enviou e também não está enviando agora.
Na caravana Nuestra América, tivemos agenda com o embaixador brasileiro em Cuba; com o presidente cubano, que fez um discurso muito forte; e com as delegações internacionais. O que eu percebi lá é que existe um discurso muito firme do governo cubano de que nenhum país hoje tem ajudado Cuba com o essencial, que é o combustível para gerar energia na ilha. Eles dizem: “Nós não queremos nada de graça, nós queremos comprar. Nós queremos o direito de comprar o combustível”.
Hoje, de 100% do petróleo que necessitam, eles produzem apenas 40%. Tem uma produção própria, mas a maioria vinha de outros países. A falta de energia tem feito o povo sofrer muito. Mas, em uma demonstração de força do regime e do povo, mesmo sem energia, as escolas e os hospitais funcionam. Eu passei na frente de muitos hospitais. Às vezes se pensa em uma calamidade com hospitais lotados e pessoas sem ter onde ficar, mas não é essa a situação lá.
Como em Cuba trabalham muito a prevenção de doenças, os hospitais estão vazios e é difícil alguém buscar um hospital desnecessariamente. O problema é a falta de energia para refrigerar remédios e a falta de medicamentos, pois não conseguem comprar. Os medicamentos que chegam hoje são todos doados, por isso, a importância do nosso comboio de levar toneladas de medicamentos.
Quando a pessoa precisa de algo que só um remédio pode resolver, há muita dificuldade. Eles precisam trabalhar muito na prevenção, porque em uma situação extrema é difícil resolver. Mas é importante registrar: hospitais e escolas estão funcionando, mesmo com dificuldades.
Vivi dois apagões em uma semana, o que não é comum
O que me entristeceu muito foi que fiquei hospedada em frente à Universidade de Havana, uma universidade maravilhosa, mas que está completamente fechada. Não tem como a universidade funcionar. É muito difícil manter aulas online sem energia. Visitei Viñales, no interior, e conversei com uma jovem estudante de línguas estrangeiras. Ela tem feito trabalhos e enviado pelo correio, mas é muito precário. Isso me entristeceu, porque o desenvolvimento de um povo passa pela ciência e pelo o que a juventude produz na universidade. A universidade fechada é um sintoma trágico do que está acontecendo.
Vivi dois apagões em uma semana, o que não é comum. É comum haver racionamento em algumas cidades, que passam apenas quatro horas por dia com energia. Mas nos locais turísticos geralmente nunca falta. Este ano já houve três apagões nacionais, o que não é comum.
Ouvi que, de 2019 para cá, isso tinha acontecido cinco vezes em anos; este ano já aconteceram três, sendo o primeiro no início de março e os outros dois em menos de uma semana. Isso mostra que a situação vem se agravando muito rapidamente para o povo cubano.
Como o sufocamento de Cuba se articula com o cenário internacional que temos vivenciado?
Estados Unidos querem derrotar todas as experiências de socialismo
É uma tirania do Trump. É importante entender que o que acontece em Cuba hoje, como disse o embaixador do Brasil, é uma guerra sem bombas. É querer matar as pessoas por sufocamento, de maneira lenta e agonizante. Imagine que não tem energia; não adianta ter carne para comer em casa se não há como armazená-la. Isso gera uma insegurança completa.
Isso tem muito a ver com Cuba não aceitar os mandos e desmandos dos Estados Unidos. Desde que Cuba fez a revolução e decidiu viver de maneira comunitária, como um país socialista que desenvolve a igualdade social, o centro do império quer acabar com isso. Eles não querem deixar triunfar uma sociedade que não seja capitalista, que não tenha exploradores e explorados, porque isso é um exemplo para o mundo inteiro. Querem derrotar todas as experiências de socialismo.
Defender Cuba hoje é um exercício de humanidade, é defender uma sociedade onde as pessoas não tenham que morrer de trabalhar, como no capitalismo. Temos pontos de resistência importantes na América Latina: o México, com Claudia Sheinbaum; a Colômbia, com Petro; o Brasil, com Lula; e o Uruguai também é um ponto importante. Mas a verdade é que a extrema direita, alinhada ao Trump, tem sido vitoriosa em muitos processos na América Latina.
E Trump não está interessado apenas na América Latina. Vimos essa guerra que ele começa com o Irã, e o que comentávamos em Cuba é que o desfecho dessa guerra tende a ser problemático para a ilha de qualquer forma: se o Trump triunfa no Irã, vem com mais força para cima de Cuba; se perde, vai querer recuperar sua força em cima de Cuba. Hoje Cuba está na mira do Trump, o que é extremamente problemático para o povo cubano e para toda a humanidade que vislumbra uma outra forma de se organizar.
Como você avalia o envolvimento de países como China e Rússia? Podemos esperar ações mais diretas em defesa de Cuba?
Sobre a China, o que sei é que o fortalecimento que davam a Cuba era muito por meio da Venezuela e do seu petróleo, o que foi totalmente interrompido com o sequestro do Maduro.
Da Rússia, soube que um navio com combustível foi enviado, o que foi uma grande esperança para o povo cubano.
Diante de um desafio tão grande, mas também com uma longa história de resistência contra o imperialismo, como está o ânimo dos cubanos hoje?
Percebi que as pessoas mais velhas, que viveram o triunfo da revolução, têm o sentimento de “pátria ou morte, venceremos”. Ouvi senhores dizerem que preferem morrer a serem escravizados pelos Estados Unidos novamente. Existe esse sentimento forte na defesa do regime.
Agora, entre a juventude, o sentimento é diferente. Eles já nasceram em um país bloqueado e não viram o contraponto. Existe um sentimento de que “do jeito que está, não dá para ficar”, pois não conseguem sobreviver.
Isso é importante para pensarmos os caminhos que o governo cubano vai traçar. O governo já deu demonstrações de disposição para negociar, mas a imposição do Trump é de não negociar com Cuba. A situação é muito difícil porque, mesmo para resistir belicamente, é preciso ter condições, e hoje as condições em Cuba são difíceis.
Ao mesmo tempo, é um país resiliente que mantém hospitais e escolas funcionando e realiza um trabalho político importante de distribuição de alimentos. Isso mostra uma trajetória comunitária e de valorização do que é essencial. Eu não floreio a realidade: a situação está extremamente difícil e muitas pessoas não veem outra saída que não uma negociação.
Países como Brasil e México, junto com a ONU, tentam negociar o que chamam de “combustível humanitário” para o funcionamento de serviços básicos, para que a Defesa Civil possa atuar em caso de furacões, por exemplo. Existe essa tentativa para que as pessoas não morram por conta desse sufocamento, mas não houve disposição do Trump para negociar. Ele parece disposto a deixar as pessoas morrerem se não fizerem o que ele manda. É uma situação em que não se sabe por quanto tempo mais conseguirão resistir.
Como você enxerga a importância da solidariedade internacional a Cuba? E como deveria ser o posicionamento do Brasil neste momento, principalmente do governo brasileiro?
Cuba é o país mais solidário do mundo
A solidariedade é fundamental, porque a dificuldade de resistência é amenizada quando não se está sozinho. Dizíamos muito lá: “Cuba não está só”. Quando nosso comboio passava, muitas pessoas agradeciam, e nós dizíamos que nós é que tínhamos que agradecer, pois Cuba é o país mais solidário do mundo.
É o país que envia médicos e professores para onde ninguém mais quer ir. Precisamos devolver essa solidariedade agora. Havia duas palavras de ordem fundamentais: a primeira é “you can’t block the sun” (você não pode bloquear o sol), porque as pessoas estão levando placas solares para garantir energia, que é o que pode salvar Cuba neste momento; a outra é: “você não pode bloquear a solidariedade”.
Dizer isso a um tirano é um ato de resistência forte. Nós furamos o bloqueio com mais de 20 toneladas de medicamentos e alimentos, junto com pessoas de mais de 30 países. Conheci gente da Itália, Argentina, Chile, Uruguai e muitos dos Estados Unidos que lutam contra seu próprio governante. Precisamos continuar enviando doações. O MST tem caravanas e podemos pensar em como levar as próximas arrecadações.
Um exemplo: levamos absorventes para as mulheres. Percebi que raramente conheci uma mulher que usa absorventes descartáveis de plástico, porque não é sustentável. Levei uma mala de descartáveis, mas o impacto é pouco. Precisamos de doações de absorventes ecológicos e reutilizáveis, que é a demanda real das mulheres cubanas.
Precisamos continuar cercando a ilha de solidariedade para fortalecer a resistência. Cada um fazendo sua parte, podemos garantir mais anos de resistência. Aposto que investir na energia solar será o caminho. Mais uma vez, Cuba pode ser o grande exemplo para o mundo de como sobreviver com energia limpa.
