Em meio à disputa política nas redes sociais, uma nova geração tem ocupado os espaços digitais para informar e provocar reflexões. Com linguagem direta, vídeos curtos e quase 1 milhão de seguidores, a influenciadora Ana Elisa é um dos fenômenos atuais da internet. Ela vem abordando temas cotidianos em pílulas curtas no Tiktok e no Instagram, reagindo a debates que vão desde o entretenimento, como Big Brother Brasil, à política institucional. Tudo isso é feito, segundo ela, como forma de educar e conscientizar, com linguagem clara e acessível.
Na entrevista desta semana do Visões Populares, ela fala sobre sua trajetória, os desafios de comunicar política para públicos amplos, as pressões dos algoritmos e o papel da juventude na disputa de ideias no Brasil de hoje.
Confira a entrevista completa:
Brasil de Fato MG – Como foi a sua iniciação no universo político?
Ana Elisa – Comecei a falar de política e a ser ativa politicamente desde sempre. Gosto de brincar que a política é uma condição inerente ao homem, principalmente quando esse homem é uma mulher preta. Amo fazer esse trocadilho porque acho que não temos de onde fugir. Quando você nasce consciente e quer fazer a diferença, precisa entrar para a política. Claro que temos várias esferas: políticas públicas, institucionais, etc. Isso é discussão para outro momento, mas acho que tudo se engloba.
Comecei a falar de política porque minha mãe é uma mulher preta, solo, com dois filhos. Não chegamos a passar muita dificuldade, porque ela já era concursada quando houve a separação do meu pai, mas ela passou por um momento muito delicado de depressão profunda. Eu digo que, se política é resistência, tenho certeza de que tem o nome da minha mãe.
Após o período da separação, em 2009, a política de Minas Gerais estava muito complicada e sucateada. Sabemos que fizeram de tudo para que o governo de Fernando Pimentel fosse visto como o pior da história. Sucatearam demais as bases, como a educação. Passamos por um momento financeiro crítico porque minha mãe não recebia, ou recebia parcelado.
Não culpo o Pimentel, pois a política não é feita por um homem só; era basicamente um projeto para que ele não desse certo. Por volta de 2013 ou 2014, minha mãe ia muito a congressos e atividades sindicais. Sempre fui ativa nessa luta, pois o sindicato dos professores é maravilhoso. É um sindicato muito organizado e luta por direitos básicos.
Sempre vivi nesse meio. Nos congressos dos professores estaduais, existia a possibilidade de levar os filhos devido ao alto índice de abandono paterno no Brasil. Ficávamos em uma espécie de creche muito boa enquanto eles estavam nas atividades. Já cheguei a ver a Dilma nesses congressos. Eram coisas interessantes, inclusive para crianças. Talvez, se todos tivessem tido essa base política e sindical, conseguiriam enxergar a política para além do institucional, de uma forma prazerosa como eu vejo.
Nas redes sociais, você faz um movimento interessante: analisa desde entretenimento, como o Big Brother Brasil, até notícias e desinformações. Qual é o sentido de disputar um espaço nas plataformas falando desses temas?
Eu comecei nas redes sociais falando de história. Inclusive, completam-se 62 anos do golpe que João Goulart sofreu dos militares. Comecei falando sobre questões militaristas, o processo escravocrata e a colonização. A política foi uma válvula de escape secundária que hoje se tornou primária, e eu a introduzo com a história.
Se eu puder esclarecer algo para uma pessoa que não sabia, já ganhei o dia. Às vezes temos a impressão de estar enxugando gelo, pois quem propaga fake news tem muito alcance e financiamento, lutamos inclusive contra o algoritmo. Mas, se eu conseguir informar uma pessoa, já está ótimo. Esclarecer o óbvio, como o fato de que não existe racismo reverso, por exemplo. Acho que mudamos o mundo aos poucos, de pouquinho em pouquinho, até formar uma legião.
Você atua principalmente no Instagram e no TikTok, somando um grande número de seguidores. Como é negociar com as Big Techs e o algoritmo? Já sofreu algum boicote por tratar de temas sensíveis?
Já. Sofri uma sanção no TikTok com risco de perder a conta quando estava no ápice dos 100 mil seguidores. Quando você ganha muitos seguidores, o algoritmo entrega seu conteúdo para um público que não é o seu, e essas pessoas denunciam. A plataforma entendeu o recurso posteriormente e suspendeu o aviso.
No Instagram, sinto que a entrega é um pouco maior, mas sofro boicotes quando ocorrem denúncias em massa, principalmente do público bolsonarista. No TikTok, a monetização é mensal e sinto que, no início do mês, a entrega é menor porque eles têm que pagar pelo desempenho do vídeo. No Instagram, o problema são as denúncias coordenadas.
Existe algum assunto específico que atrai mais odiadores ou denúncias?
Quando falo de um influenciador branco, o problema é grande. Recebo hate, denúncias e até ameaças de morte. Não importa se a pessoa foi racista ou homofóbica. A gente precisa entender o “pacto da branquitude”, em que eles se unem para defender os seus.
As pessoas perderam a capacidade de ser críticas. Estamos criando uma legião de “advogados do diabo”. Se eu critico uma atitude transfóbica ou racista de um influenciador branco, principalmente um branco e fútil, os fãs me atacam com mais racismo. É muito complicado.
Sua comunicação é muito clara e direta. Como nasceu esse estilo audiovisual e quem te inspirou?
As pessoas acham política chata porque não entendem. Quando não querem que você entenda algo, usam palavras difíceis. Meu objetivo é que a informação chegue e a pessoa entenda. Meu primeiro vídeo que viralizou foi explicando de forma descontraída por que o Bolsonaro se tornaria réu. Eu já fazia direito.
Se você liga a TV no Supremo Tribunal Federal, eles falam em “agravo de petição” e “instrumento”, termos que só quem é do direito entende. Meu dever é destrinchar isso. Não gosto de tratar meus seguidores como se fossem burros ou crianças, pois isso infantiliza as pessoas.
Eu as trato como iguais, em um bate-papo de alta qualidade. Meu segundo vídeo foi um em que a Jojo Toddynho criticava o SUS. Eu ensino muitas palavras para as pessoas de forma simples. Política é vida; não é só juridiquês e português correto, é sobre o que você come ou deixa de comer.
Estou preocupada em falar com pessoas humildes que nunca tiveram acesso à política. Pessoas que não sabem quantos deputados têm na Câmara. Meu namorado, por exemplo, não teve oportunidade de estudo e não entendia nada de política; hoje, de tanto ouvir e me acompanhar, ele sabe responder sobre o assunto porque eu o ensinei sem usar palavras difíceis.
Você tem 20 anos e fala com o público jovem, mas seu alcance extrapola essa faixa. Como você organiza sua comunicação atualmente? Busca um público específico?
Hoje, busco conversar com todo mundo. Algumas pessoas ficam reativas quando veem minha foto com o Lula no perfil, mas tenho seguidores de direita. Existe uma diferença entre direita e bolsonarismo. Ser de direita é um ato democrático, por mais que eu não concorde; o bolsonarismo, não, não deveria estar no Estado democrático que vivemos. Meu objetivo é fazer com que as pessoas entendam o processo democrático e o sistema eleitoral.
Percebo que meu público é, em grande parte, mais velho que eu, 30+. Minha geração é uma das que mais vota na direita porque já encontrou tudo “pronto”. Não vivemos hiperinflação ou ditadura. Para quem nasceu em 2005, como eu, o Lula já estava eleito, o Brasil já estava saindo do mapa da fome. É uma geração que tem muito acesso à tecnologia, mas pouca vontade de se informar.
Uma pesquisa da Atlas Intel mostrou que a vantagem conservadora cresce justamente entre os jovens. Como reverter esse cenário?
Acho que os jovens estão mais conservadores porque normalizamos a hipocrisia. É a geração que mais teve acesso à pornografia e que mais objetifica a mulher, mas, ao mesmo tempo, exige uma “mulher de valor”, submissa.
Só conseguiremos conter a extrema direita entre os jovens se cortarmos essa hipocrisia e colocarmos os jovens para pensar. Eles misturam conservadorismo religioso com financeiro sem saber a origem dos termos. Eles sabem o que são as coisas, mas escolhem o lado conservador. Precisamos questionar esses valores.
Você participou de um debate na UFMG sobre a comunidade Red Pill. Como foi essa discussão?
Foi excelente. A universidade ainda nos traz esperança. O movimento Red Pill não é um movimento, é uma organização criminosa que precisa ser criminalizada. Esses discursos misóginos, masculinistas, estão matando pessoas todos os dias. É triste ver que existem mulheres fomentando esses grupos, mas é a realidade.
Apesar das perseguições, você tem um apoio imenso e recebeu o prêmio Lélia González. Qual sua avaliação sobre esse cenário de resistência?
Fico muito feliz. Saí de uma cidade pequena, com 200 mil habitantes, e hoje sou uma pessoa pública; foi tudo muito rápido. Embora a extrema direita seja massiva, a esquerda oferece abraço e carinho. Recebo muito reconhecimento nas ruas.
Como influenciadora política, não ganho rios de dinheiro, mas a credibilidade do público é o melhor presente. Não trocaria isso para divulgar jogos de azar. Meu objetivo é garantir o acesso à educação e continuarei fazendo isso nos limites do que o algoritmo permitir.
