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O fim da 6×1 precisa reverberar no altar, diz pesquisadora sobre Missa do Trabalhador em MG

1º de maio e Missa do Trabalhador de Contagem (MG) são temas da entrevista com a estudiosa Aline Perez

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Aline Perez comenta sobre o marco dos 50 anos da realização da Missa do Trabalhador em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), tema que é o foco do estudo conduzido por ela no mestrado. | Crédito: Brasil de Fato MG

Esta semana marca o Dia Internacional de Luta dos Trabalhadores, comemorado em 1º de maio. Para discutir sobre o tema, o Visões Populares entrevista Aline Perez, jornalista e mestranda em Teologia Prática pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). 

Em nossa conversa, a pesquisadora, que atua desde a infância nas pastorais sociais da igreja católica, aborda sobre a história e a importância do 1º de maio no Brasil e no mundo. Ela também comenta sobre o marco dos 50 anos da realização da Missa do Trabalhador em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), tema que é o foco do estudo conduzido por ela no mestrado. 

“Ali, naquela praça onde acontece a missa, se dá um movimento em que a igreja sai, encontra o povo e, juntos, pedem mais dignidade. Mais dignidade para homens, mulheres, crianças, atingidos pelas barragens, indígenas e tantos outros”, destaca Perez, sobre a missa.

Confira a entrevista completa: 

Brasil de Fato MG – Nesta sexta-feira, 1º de maio, demarcarmos mundialmente uma das mais antigas datas internacionais de luta dos trabalhadores. Qual é a origem desse marco e por que é fundamental que ele esteja presente no nosso calendário?

Aline Perez – O Dia do Trabalhador, embora no Brasil tenha muito a imagem de São José, é uma data que remonta ao ano de 1886. Foi um movimento trabalhista, uma greve, que resultou na morte de vários trabalhadores em Chicago e em muitos feridos também. Eles lutavam por direitos e por condições dignas de trabalho.

Essa data passou a ser um dia não de comemoração, mas de luta. Os trabalhadores olharam para 1886 e perceberam que ainda é preciso lutar para que não morram, seja pelo adoecimento causado pelos ambientes de trabalho, ou pelas baixas condições de segurança. Sempre há motivos para lutar. Isso vem desde antes de 1886, mas aquele ano foi o marco dessa grande revolta que resultou na morte, infelizmente, de muitos trabalhadores. Pelo menos 150 países do mundo inteiro celebram o 1º de maio como o Dia do Trabalhador. Não é uma data para a gente simplesmente comemorar com um “Feliz Dia dos Trabalhadores”. Temos que lembrar: feliz dia para quem? 

O seu trabalho é algo que realmente tem trazido essa felicidade plena? Você tem conseguido ter dignidade de vida pelo seu trabalho? Se a resposta é um “mais ou menos” ou um “não”, então, este 1º de maio é um dia de luta para todos nós.

Em Contagem (MG), o 1º de maio também é marcado pela realização da Missa do Trabalhador, que faz referência à comemoração do Dia de São José Operário, santo considerado pela igreja católica como protetor dos trabalhadores. Em 2026, a missa completa 50 anos de existência. Qual é a história e o simbolismo dessa celebração religiosa?

A Missa do Trabalhador começou em 1976. Era um contexto em que o Brasil vivia a ditadura militar, com direitos civis cerceados. Reunir-se em locais públicos era perigoso, você poderia nem sair vivo dali, ou sofrer transtornos drásticos.  

Havia grupos de pastorais sociais, como a Juventude Operária Católica (JOC), a Juventude Universitária Católica (JUC) e a Juventude Estudantil Católica (JEC). Muitos jovens daquela época continuam atuando até hoje. Já havia um grupo que se reunia em Contagem no 1º de maio para conversar sobre a data. Esse grupo unia igreja e sociedade e dialogava muito. 

A Igreja Católica estava em um período pós-conciliar, após o Concílio Vaticano II , que mudou a missa, que antes era em latim e passou a ser na língua do povo. O leigo começou a acessar mais as questões da igreja. Foi um momento muito propício.

A igreja, em diálogo com a sociedade e com as pastorais sociais, decidiu ir para a praça celebrar uma missa. Em 1976, quando aconteceu a primeira, nem era na Praça da Cemig ainda, onde acontece hoje, mas era na avenida Babita Camargo, em um outro espaço. Ali, as pessoas poderiam estar na rua com certa segurança, pois não seriam presas por estarem rezando. Mesmo assim, a missa foi vigiada pelos militares por anos. 

Na missa, eles tinham espaço para reivindicar condições de trabalho. Estava ocorrendo o êxodo rural e a industrialização, muitas pessoas vinham do interior para tentar a vida nos pólos industriais de Contagem e Betim. Na missa, encontraram um espaço para reivindicar melhores condições e, por vezes, o próprio trabalho.

Eu participava das pastorais sociais desde criança, ia com o meu pai, que também era do movimento grevista. A missa é reconhecida como um espaço de oração e liturgia, com seu rito e ritual, mas, antes e depois dela, os movimentos sindicais e sociais se sentiam em casa para reivindicar e usar o microfone. Logo em seguida, seguiam para as caminhadas e programações da data.

O que me despertou a vontade de estudar essa missa foi entender como um movimento que começou em um período de direitos tão cerceados continua acontecendo e reunindo um número representativo de pessoas até hoje. Em um feriado, às 8 horas da manhã, milhares de pessoas se reúnem para rezar, sendo que a missa pode ser assistida até pelo celular. Há algo ali. 

Ela ainda é reconhecida como um espaço de lutas, embora agora tenha um perfil mais devocional, pois a sociedade mudou e o perfil das lutas coletivas foi um pouco esvaziado, principalmente pela sociedade em rede. Quis ouvir quem fez parte dessa história, para entender porque ela ainda acontece. Isso resultou em um memorial com fotos.

Neste ano, a Missa do Trabalhador é inspirada pelo tema “Trabalho e dignidade humana: um grito pela paz”. Recentemente, o presidente norte-americano, Donald Trump, abriu uma polêmica com o Papa Leão 14, após o pontífice criticar a escalada da guerra no Oriente Médio. Como você enxerga a importância de a igreja se posicionar ao lado da paz? 

A Missa do Trabalhador, enquanto liturgia, abraça a igreja na rua. Ela comunica o que a igreja comunica. O clamor pela paz tem que ser intenso. O Papa Leão 14 denominou os responsáveis como tiranos, com muita coragem, e rebateu as críticas de Trump. Quando trazemos essa pauta para a missa, estamos dizendo que devemos nos envolver nas questões mundiais. 

O Brasil já vive uma guerra muito mais velada. Nós abraçamos, defendemos e entendemos que a guerra não é um instrumento para defender a paz em lugar nenhum. Guerra é guerra e paz é paz. A paz se busca com diálogo e negociações, não com bombas, não matando crianças, não ameaçando governos e não tirando a soberania de nenhum país.  Embora eu não fale em nome da igreja institucional pois meu estudo é independente, como alguém que faz parte da igreja, tenho propriedade para dizer que defendemos a paz sem guerras. 

Além da pauta trabalhista, este ano falaremos disso, pois as sanções econômicas impactam diretamente as relações de trabalho no mundo todo. Por isso, a missa traz esse tema atual, que foge um pouco do tema da Campanha da Fraternidade deste ano, que é sobre moradia. Historicamente, puxamos para a missa o tema da Campanha da Fraternidade, que este ano fala sobre moradia. A CNBB propôs falar sobre moradia, mas o clamor pela paz fala muito mais forte neste momento.

Contagem também é um palco histórico da luta dos trabalhadores. Em abril de 1968 os operários da cidade deram início ao que foi a primeira greve de trabalhadores após o golpe militar de 1964. Qual é a importância de, no 1º de maio, resgatar esse histórico de resistência? 

A greve de 1968 envolveu 16 mil operários metalúrgicos e foi a maior greve da cidade, que era o polo industrial de Minas Gerais. Mostrou o poder de uma categoria unida. Por isso, governos impositivos buscam enfraquecer os sindicatos, pois uma categoria unida conquista seus direitos.

Outras reivindicações passaram pela missa: houve greves de professores, movimentos de motofretistas e a atuação dos atingidos pelas barragens, que usam esse espaço público para manifestar.  É legítimo e necessário. 

Jesus era uma pessoa extremamente combativa, trazia a luta dos pobres, falava das mulheres e das viúvas. Se o espelho é Jesus, ele trazia a categoria dos enfraquecidos, com a licença da metáfora, como se fosse um sindicato dos desfavorecidos. 

Há uma história curiosa sobre esse movimento entre a fé e a sociedade. Em um dado momento da história da missa, as bandeiras vermelhas eram procuradas pela polícia, pelo medo do comunismo. As senhorinhas do Apostolado da Oração, sabendo do perigo para os trabalhadores, misturaram suas bandeiras vermelhas (do Sagrado Coração de Jesus) com as dos movimentos sociais. Na multidão de quase 10 mil pessoas, a polícia não sabia quem era quem, e todos ficaram bem.

A fé e a igreja têm que caminhar com o povo, principalmente com o povo mais vulnerável e a grande massa de trabalhadores que sofre, pois isso traz união. Essa greve foi emblemática, não foi ela que deu origem à missa, mas já mostrava que o movimento era forte. 

Com o avanço da ditadura militar, esse tipo de situação ficou mais difícil. Muitas pessoas foram mortas e desapareceram. O papel da memória é importante por isso. Depois da Comissão da Verdade, essas histórias foram para o meio cultural, o cinema e os livros, e pudemos ver o quanto a ditadura foi letal. Essa letalidade só conseguiu ser minimizada, um pouco, em Contagem, quando a missa entrou em cena, unindo os operários e alcançando grandes vitórias.

As Diretas Já passaram muito pela pauta da missa. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) também. Muitas pessoas das pastorais sociais, como a Pastoral da Criança, levavam a pauta para a missa e, em seguida, para as casas legislativas. Eram pautas que caminhavam junto com as trabalhistas. É um movimento interessante, porque não é apenas uma missa. Damos esse nome, porque há uma celebração eucarística, mas não é só sobre rezar, é sobre lutar e rezar.

Como o memorial da Missa do Trabalhador dialoga com esse tema? 

O memorial se chama Memorial Fé e Resistência e, neste primeiro momento em que vai às ruas, traz os 50 anos da Missa do Trabalhador. A memória tem o poder de nos fazer entender, como indivíduos e como coletivo, quem nós somos, qual é o nosso valor, o que defendemos e o que precisamos defender.

Quando se quer desestruturar e fragilizar um grupo ou movimento, apagam-se as memórias dele. Como jornalista, percebi que, ao longo dos anos, as bandeiras dos sindicatos e dos movimentos foram diminuindo na missa e quis entender o porquê de a missa continuar. Comecei a pesquisar e vi que isso tem tudo a ver com memória. 

Tive acesso a arquivos da igreja e de sindicatos e vi que, sobretudo na Igreja Católica, não há um espaço organizado que preserve essa memória. Muita coisa foi descartada, porque as pessoas não reconheceram o verdadeiro valor desse movimento. Pedi licença oficialmente à igreja para pesquisar sobre o assunto, tive uma carta de anuência do bispo referencial da Região Episcopal Nossa Senhora Aparecida, que reúne quase 90 paróquias em Contagem, Ibirité, Sarzedo, entre outras. Comecei a pesquisar e percebi que as memórias estavam sendo apagadas. 

Fui às casas das pessoas, ao trabalho, aos sindicatos e ouvi muitas histórias interessantes, histórias de esperança e de luta. Vi casos como o de um servente de pedreiro que, estudando a Doutrina Social da Igreja e sendo conduzido a estudar política, ascendeu e hoje ocupa cargos de liderança ou políticos.

Com o esvaziamento dos sindicatos e a mudança do perfil da sociedade, houve um apagamento da memória. As pessoas começaram a entender que a missa era apenas um momento de oração a São José Operário, padroeiro dos trabalhadores, esquecendo a questão da luta do trabalhador.

O movimento do memorial é trazer isso de volta à cena. Não queremos que a missa volte a ser a de 1976, pois o momento é outro, mas queremos mostrar para quem está ali que muita gente lutou e conquistou direitos coletivos e individuais a partir dessa missa.

O memorial trará fotos e objetos, e a ideia é que seja itinerante. Estará no espaço da missa, com parcerias com outros movimentos e momentos culturais. Depois, junto com os sindicatos, seguiremos para a Praça da Estação, em Belo Horizonte. Finalizaremos o percurso do 1º  de maio no Viaduto de Santa Tereza, onde haverá um samba do trabalhador à tarde. Estaremos lá mostrando esse movimento dos trabalhadores que vão para a missa e depois para a luta. O memorial começa no dia 1º de maio de 2026, quando a missa faz 50 anos. A ideia é que esse coletivo, fruto do meu estudo de mestrado em Teologia Prática, continue sendo abraçado por muitos movimentos e pessoas. 

Ele só está acontecendo porque padres, pessoas de sindicatos e de movimentos sociais contribuíram. É um memorial representativo que perpetua a memória e traz o movimento de união e diálogo que a missa sempre proporcionou.

Ao instituir a comemoração de São José Operário no mesmo dia em que é celebrada a data civil do Dia do Trabalhador, em 1955, o Papa Pio 12 defendeu a dignidade do trabalho, “a fim de que inspire na vida social as leis da equitativa repartição de direitos e deveres”. Hoje, a grande reivindicação dos trabalhadores é o fim da escala 6×1. Essa pauta se liga à proposta de dignificar o trabalho? 

A mudança do perfil da sociedade fez com que o espaço da missa ficasse mais devocional do que social. Este ano, a missa passou das 7h para as 8h, e os sindicatos estarão lá. Recentemente, em 15 de abril, houve uma conferência dos sindicatos que apresentou 12 pautas para o governo federal se debruçar nos próximos quatro anos. 

A mais forte é a redução da jornada 6×1, pois várias outras pautas são consequência disso, inclusive o adoecimento mental de muitos trabalhadores. Não é à toa que a Norma Regulamentadora 1 (NR-1) será intensificada a partir de 26 de maio, exigindo que as empresas se preparem para gerir e prevenir o adoecimento mental de seus funcionários, algo que as estatísticas mostram ser muito grave.

A pauta da escala 6×1 será discutida no chão da missa. O movimento mostra para a igreja o que queremos, e esperamos que eles ecoem essa voz no altar. No memorial, o espaço também é para essas vozes. Esperamos ouvir na homilia essa pauta principal das centrais sindicais, que foi entregue ao presidente e ao Congresso Nacional. A pressão popular já fez essa pauta avançar, e este 1º de maio será decisivo para mostrarmos que queremos o fim da escala 6×1.

Outra questão a ser lembrada é a pejotização, o trabalhador que virou “empresário”, assumindo todos os encargos sobre si mesmo. Esse movimento enfraquece a questão trabalhista. O fim da escala 6×1 precisa ser abraçado por todos, pois trará mais saúde e impactará a juventude. Uma mãe terá mais tempo para o filho, um pai poderá cuidar mais da família e a pessoa terá condições de cuidar da sua casa.

Essa pauta vai para o chão da missa e esperamos que seja reverberada no altar. Além dela, há o clamor pela paz e contra o feminicídio, que entrou nas pautas sindicais e impacta diretamente o mundo do trabalho. As mulheres são arrimo de família e estão sendo mortas brutalmente todos os dias. A paz que clamamos é também a paz para as mulheres.

O Papa Pio 12 trouxe a primeira encíclica que falou exclusivamente sobre a questão do trabalho, a Rerum Novarum. No tempo da industrialização, a igreja percebeu a necessidade de falar sobre o trabalho e sua relação teológica. Se fizermos do trabalho um instrumento de desmonte e opressão, a pessoa não encontra nele aquilo que a fará encontrar Deus. 

A igreja entendeu que a realidade do trabalho na América Latina é diferente do restante do mundo, o que impactou sua visão. É um universo que vale a pena estudar para entender esse movimento. A Missa do Trabalhador não consegue trazer tudo isso em um dia só, mas é o ápice de tudo o que é discutido ao longo do ano.

Além da redução na jornada, quais outros avanços são urgentes para a classe trabalhadora e precisam ser reivindicados neste 1º de maio ?  

Para mim, duas pautas são essenciais: a primeira é o cuidado com a saúde psicossocial dos trabalhadores. As estatísticas assustam. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estudou o impacto na saúde mental no mundo do trabalho e viu que o impacto é trilionário, em níveis mundiais.

A Previdência Social constatou mais de 273 mil afastamentos, no Brasil, em 2024, somente por crises de ansiedade e depressão, fora o burnout e outros problemas. Isso sem contar os casos subnotificados e os suicídios. A saúde mental e psicossocial é urgente e precisa ser trabalhada culturalmente. As pessoas e as empresas precisam entender que é uma responsabilidade do ambiente de trabalho. A intensificação da NR-1 mostra a urgência dessa pauta.

A outra questão urgente é o feminicídio. Estamos vivendo uma verdadeira pandemia de feminicídio. Mulheres estão sendo mortas brutalmente, e muitas vezes os casos são mascarados como suicídio ou outras causas, deixando os algozes impunes. Precisamos falar mais sobre isso e fazer as leis valerem. 

São bandeiras que estarão presentes na missa, além do pedido de paz. E vendo tantas bandeiras que precisam ser hasteadas, como não continuar celebrando o 1º de maio? Precisamos rezar para pedir a Deus força para continuar e agradecer as pequenas vitórias.

Já ouvi mais de 50 pessoas e todas dizem que não é saudosismo trazer o memorial da missa, mas reconhecer que ali, na praça, a igreja sai, encontra o povo e pede mais dignidade para homens, mulheres, crianças, atingidos por barragens, indígenas e tantos outros. 

Editado por: Ana Carolina Vasconcelos

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