“Não é que os jovens acham que ali vão encontrar alegria, satisfação, realização dos seus sonhos. Mas é onde podem encontrar condições de vida, de mobilidade social, que sejam mais coerentes com seus anseios para o futuro”, explica a professora Valéria Cristina de Oliveira.
Entrevistada do Visões Populares, a professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (FaE-UFMG) é pesquisadora do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública e do Núcleo de Pesquisas em Desigualdades Escolares, e integra o time que realizou a pesquisa.
Parte do projeto Becoming or Getting By, a análise comparativa entre as rodadas de pesquisa realizadas em 2021 e 2025 revelou crescimento significativo no interesse de jovens brasileiros por carreiras nas Forças Armadas e na Polícia Militar. O estudo foi conduzido em uma parceria entre o King’s College London, a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a UFMG, e a Sciences Po. Oliveira comenta as possíveis explicações e consequências do fenômeno.
Confira a entrevista:
Brasil de Fato MG – Como foram feitos esses estudos e qual foi a metodologia da análise?
Valéria Cristina de Oliveira – A pesquisa é coordenada pela professora Andressa Arusca, que hoje é professora do King’s College, em Londres e coordena um centro de estudo sobre o Brasil. Ela é brasileira, mas está fazendo pesquisas sobre o Brasil na Europa há algum tempo. Em 2021, ela estava na Universidade de Oxford e, durante a pandemia de covid-19, se interessou pelo efeito da pandemia e das consequências da crise econômica, que estava se disseminando em função da crise sanitária, para os jovens, principalmente em relação ao mercado de trabalho.
Considerando o contexto em que a nossa sociedade brasileira estava incluída, em um governo que era muito mais próximo de funções militares, onde o presidente era também um egresso de uma carreira militar nas Forças Armadas, a hipótese que ela levantou era de que havia uma tendência dos jovens a se aproximarem dessas carreiras, seja como uma forma de se virar diante das impossibilidades de se inserir de maneira formal no mercado de trabalho, seja por uma proximidade ideológica dessas formações.
Isso também inspira o nome do projeto: Becoming or Getting By, algo como “se tornando ou se virando” alguém que seja de carreira militar. Ela trabalhava, à época, em uma parceria com o professor Gabriel Feltran, que era professor da USP e que foi meu supervisor de pós-doutorado. A partir dele, que era uma pessoa em comum, comecei a trabalhar junto.
Eu cheguei no projeto ainda em 2021 e foi quando realizamos essa primeira pesquisa. Depois que a pesquisa foi realizada, chegou também para somar com a gente o professor Dalson Figueiredo, que é da Universidade Federal de Pernambuco, da ciência política.
E a gente construiu esse grupo que no final do ano passado realizou o segundo estudo. A pesquisa é amostral, com uma amostragem por cotas, que é muito parecida com as amostras de pesquisas eleitorais, de jovens com idade entre 18 e 26 anos no Brasil. Foram 2.055 na primeira onda e 2.032 agora, nesta segunda coleta.
As entrevistas são realizadas por telefone, de maneira a serem representativas da juventude no país. Então, tem um equilíbrio por sexo, uma composição que representa, nos termos da classe socioeconômica, uma distribuição parecida com a população brasileira. E também com uma proporção que se assemelha à distribuição da proporção do país em relação à distribuição regional.
Essa pesquisa é realizada a partir dessa metodologia quantitativa, com questionário que tem itens fechados. As questões são fechadas, em que, além do interesse dos jovens por carreiras militares, a gente também faz questões socioeconômicas, sociodemográficas, outras relacionadas às atitudes, aos valores, escolaridade dos pais, uma série de questões.
O estudo demonstra um crescimento no interesse por carreiras militares em praticamente todos os grupos analisados. O que isso indica para nós?
A segunda rodada da pesquisa conta ainda somente com o relatório, que é muito descritivo. Já o primeiro trabalho, de 2021, tem uma publicação, um artigo aprovado e publicado em um periódico, no qual a gente tentou reunir diferentes variáveis e aspectos associados a esse interesse e dizer algo.
Quando eu coloco tudo isso junto, o que ainda conta para explicar o interesse do jovem por seguir carreiras militares? Ele ser homem ou mulher, ser de qual região do Brasil, os pais terem mais escolaridade ou menos escolaridade, ser mais conservador ou menos conservador, ser alguém que estuda e trabalha ou não, ser um jovem que é mais simpático às carreiras militares (o que a gente já imaginava). Colocamos juntos todos esses fatores para tentar explicar o interesse dos jovens por seguir essas carreiras.
Quando falamos de carreiras militares, é importante destacar que temos duas perguntas. Uma para perguntar se ele se interessaria, já pensou ou consideraria ir para as Forças Armadas (Exército, Marinha e Aeronáutica); e uma outra pergunta em que repetimos a mesma questão a respeito da Polícia Militar, como sendo a instituição de segurança pública que mais se aproxima constitucionalmente, inclusive, das Forças Armadas.
Colocamos todas essas variáveis para, juntas, tentar explicar esse interesse em modelos estatísticos que vão combinar diferentes perfis e falar: “Olha, a chance de encontrar alguém interessado em carreiras militares com essas características é tanto”. E o que chamou a nossa atenção é que, quando eu coloco todas essas variáveis juntas para explicar esse interesse, duas coisas se destacam.
A escolaridade dos pais, que usamos como uma medida indicadora do nível socioeconômico da família, ou seja, quanto maior a escolaridade dos pais, em geral, menor o interesse desses jovens por seguir carreiras militares. Portanto, eu tenho uma questão econômica de fundo. Uma pergunta que nós fizemos naquela primeira rodada também era se ele entendia que a covid-19 tinha afetado sua entrada no mercado de trabalho. Essa pergunta era uma pergunta importante também. Então, aspectos econômicos estavam colocados.
Contudo, também há questões no nosso instrumento de coleta de dados a respeito de posturas conservadoras. Ou seja, se ele é um jovem que se sente mais próximo de valores como “homens trabalham, mulheres ficam em casa cuidando das crianças”. Temos um índice que combina essas respostas e o que aparecia lá era que, quanto mais o jovem pontuava nessas perguntas, maior o seu interesse por essas carreiras. A ponto de que, mesmo entre aqueles com mais alta escolaridade, se ele era alguém que também era muito conservador, ele continuava tendo um interesse maior por seguir essas carreiras.
O que a gente observou desde a primeira onda e que agora, nas análises exploratórias que a gente tem feito desse segundo banco de dados, continua observando, é uma combinação de uma necessidade de uma demanda material econômica com uma posição mais conservadora.
Do ponto de vista material, essa nova versão traz, por exemplo, uma questão muito interessante, que é o interesse e a disposição desse jovem pelo empreendedorismo, por seguir trajetórias que sejam distantes de um serviço público com horários rígidos e da carteira assinada.
E o que percebemos é que esse percentual também é alto, ou seja, tem um grupo que converge. Tem um tipo de jovem que se dispõe tanto a fazer concursos para seguir essas carreiras que são muito hierárquicas, estruturadas, com disciplina, tudo isso que é contrário ao empreendedorismo e, ao mesmo tempo, ele se sente à vontade para dizer que também se interessa por uma carreira mais flexível.
Do ponto de vista econômico, acreditamos que é um critério que continua valendo, e a aposta é que esse dado do empreendedorismo também mostra isso. Por outro lado, continua existindo essa maior associação com as posições mais conservadoras. Acho que as duas coisas se combinam para explicar um pouco como esse resultado se apresenta.
Agora, quando olhamos o crescimento, temos apostas, já que não dá para dizer cravado o que explica o crescimento. Eu acho que temos passado, ao longo dos últimos anos no Brasil, por uma cada vez maior popularização da discussão sobre essas carreiras e até uma polarização também, com uma parcela da população muito simpática, outra muito menos simpática. As pessoas não vão passar ilesas a essa discussão.
Por outro lado, não dá para dizer que a população brasileira confia cada vez mais nessas instituições. Temos pesquisas internacionais que fazem coleta de dados sobre confiança institucional e que tem mostrado que o Brasil, ao longo dos anos, teve um crescimento da confiança nas Forças Armadas, mas nas últimas duas edições essa confiança diminuiu, de 2019 para 2023.
Isso explica em parte, mas não explica tudo. A gente tem uma popularização das Forças Armadas, da segurança pública, do debate sobre segurança pública, como um debate presente na sociedade. Então, claro, isso explica que eventualmente um jovem ou a pessoa que, na mesma idade, antes ouvia muito pouco falar sobre essas carreiras, hoje tem ouvido falar cada vez mais.
Mas, na contraparte, temos tido menos oportunidades também de boas carreiras, bons vínculos no serviço público; os concursos não pagam tão bem. Por isso a gente sempre trouxe a Polícia Militar, porque ela é mais popular do que as demais. Então, eu acho que tem um pouco desse conjunto de fatores explicando.
Temos visto uma melhora nos índices econômicos e de desemprego no Brasil nos últimos quatro anos. Ainda assim, o interesse por carreiras militares cresceu. Como podemos explicar isso?
Ainda estamos tentando descobrir os motivos, as razões. Mas eu acho que há essa sensação de que os indicadores econômicos melhoram, mas não necessariamente são sentidos pela população da mesma maneira. Tem bastante a ver com a mudança da estrutura do mercado de trabalho e do modo como a juventude vê o trabalho.
Qual o tipo de carreira, qual o tipo de vínculo que me interessa? Quais são as características desse trabalho? Eu acho que a renda é um fator essencial, não podemos desconsiderar, mas deve haver uma curva ótima entre o custo-benefício de se vincular a uma carreira que te demanda uma dedicação exclusiva, que é o que acontece no caso de um concurso público como esse.
Se a gente precisasse comparar a popularidade desses concursos em carreiras militares com outros concursos, talvez eles continuem ganhando e até aumentando o interesse por eles, porque o custo-benefício deles ainda é mais positivo.
Quando colocamos na balança, ainda é melhor se dedicar, se for para se dedicar a uma instituição que vai demandar que eu tenha uma dedicação exclusiva, que ela me oferece outras possibilidades que também são muito valiosas. A gente vê isso na pesquisa, porque tem algumas questões a respeito do plano de carreira, da estabilidade, das possibilidades de você entrar em planos de financiamento de imóveis, de habitação. Acredito que essa é uma questão.
Essa carreira formal e estável no serviço público, como essas que são oferecidas pelas carreiras militares, destaca-se em relação a outras possibilidades de formalização. Por que o interesse por elas cresce, ainda que em um contexto de melhora dos indicadores econômicos, e esse interesse não se reflete no interesse por outras carreiras? Porque as oportunidades, as posições de trabalho que se abrem, talvez não sejam tão atrativas quanto essas representadas por essas carreiras.
Em termos de concurso público, a gente geralmente não têm equivalentes. Por exemplo, a docência talvez seja, nos estados, a que está em uma posição parecida, mas tem uma série de outros fatores que fazem com que seja uma carreira vista como cada vez mais desafiadora. Seja pelas relações interpessoais, pelas dificuldades que se vive na escola, pelas questões de infraestrutura.
Por outro lado, temos poucas outras possibilidades de carreiras para um grupo menos especializado, que é esse da juventude ainda pouco formada. E no mercado formal, mas que não é o serviço público, as posições não pagam tanto.
Então, acho que, diante de um certo cálculo, uma certa leitura do cenário, o que interessa? Eu deixo de valorizar uma lógica mais empreendedora, a troco de quê? Talvez a troco de algo que seja realmente estável, que realmente retorne respeito, autoridade, e não necessariamente para uma posição de trabalho que vai me demandar muitas horas, uma dedicação de 40 horas com retorno financeiro e de tempo pequeno.
Eu acho que essa conta pode explicar um pouco dessa percepção ou dessa ideia de que tem um desarranjo entre essa lógica de melhora econômica. Por um lado, e, por outro, as pessoas valorizando o empreendedorismo e, ao mesmo tempo, uma carreira tão fixa, tão estruturada, quanto a das Forças Armadas ou da polícia.
Entre os grupos analisados, os jovens evangélicos apresentaram os maiores níveis proporcionais de interesse em 2025, embora outras religiosidades também tenham apresentado aumento. Como a religião influencia nisso?
Eu acho que a religião é um elemento interessante porque, principalmente entre os evangélicos, o cristianismo, de certa maneira, aproxima-se um pouco mais dessas visões mais conservadoras. Então, a gente poderia seguir uma explicação que vai nesse caminho, nessa direção, de tentar falar: “olha, se a gente tem uma maior proximidade dessas visões mais conservadoras com o interesse nas carreiras militares, a gente também podia explicar isso pelo caminho da religião”.
Mas eu realmente não acho que seja um dos fatores mais significativos. Eu acho que as diferenças entre as distintas religiões não são tão grandes a ponto de explicar por essa via esse maior interesse. Porque quando eu olho para gráficos como esses, que são de análise de duas variáveis, a gente tem uma série de outras coisas que ajudam a explicar as características daquele cruzamento, daquele perfil.
Eu acho que a religião aparece aí como sendo algo que concentra maior interesse porque se relaciona com uma postura mais conservadora, e não necessariamente pela religiosidade em si. Eu iria mais por esse caminho de existir uma associação com uma lógica mais ou menos conservadora e, por conta disso, talvez ela nem se sustente como uma grande explicação, se a gente colocasse em diálogo essas duas variáveis.
Será que um jovem sem religião, mas que é tão conservador quanto o outro religioso, também não teria um interesse maior? Eu acredito que talvez sim. Agora, tem uma variável que é importante e da qual eu não falei antes, que é uma pergunta que a gente também faz: se ele está estudando e se ele está trabalhando. A gente consegue compor o perfil “nem-nem”, o perfil daquele que nem estuda e nem trabalha. E o que a gente observa é que esse que nem estuda e nem trabalha, em geral, têm menos interesse por essas carreiras.
O que pode parecer um pouco estranho, mas eu acredito que existe, na pessoa que se interessa por esse tipo de carreira, algum tipo de mobilização ou de disposição para estudar. Ela sabe que é um concurso público, sabe que vai ser preciso concorrer com outros perfis, então talvez isso ajude a explicar um pouco porque esse perfil que não estuda e nem trabalha acaba sendo um perfil menos atraído para essas carreiras militares, ainda que haja também o nível socioeconômico escolar dos pais como uma variável explicativa correlacionada.
São muitas as possibilidades. Um próximo passo importante da pesquisa é fazer estudos qualitativos para a gente entender um pouco mais daqueles que se interessam por essas carreiras, dos motivos que eles apontam. Porque a gente aqui está tentando, do ponto de vista estatístico e matemático, fazer as correlações e as associações, mas vai ser legal ouvir os jovens e saber um pouco de como eles constroem esse interesse por esse tipo de carreira.
A segurança tem ganhado enorme visibilidade pública. Por outro lado, entendemos que os policiais e agentes de segurança no Brasil estão entre os que mais matam e morrem. Na sua opinião, esse cenário impacta a procura por carreiras na área de segurança?
Eu acho que essa questão é das mais graves que a gente tem, principalmente se tomamos como referência os jovens negros residentes em periferias, em áreas pobres da cidade. Essas são as principais vítimas dessa violência policial que se apresenta de várias maneiras: na abordagem policial no cotidiano, nas operações policiais, nas áreas onde você tem atuação de grupos armados, etc. Em todos esses cenários, essa população de que estamos conversando aqui é a população-alvo, infelizmente.
Contudo, podemos voltar um pouco até as origens da pesquisa. Quando a professora Andressa convidou o professor Gabriel Feltran para participar do estudo, e foi assim que a gente se encontrou, quando eu fui fazer pós-doc em São Paulo, era uma pesquisa de campo em uma área de favela que eu estava propondo. Ele já fazia, àquela época, pesquisa etnográfica há anos na zona leste de São Paulo, pesquisa essa que rendeu muito trabalho, muita publicação, muitos livros.
Uma coisa que chamou a atenção do Gabriel para esta pesquisa aqui é que ele já percebia isso na periferia onde fazia a pesquisa. Era uma área onde a violência institucional e a violência policial atingiam jovens, negros e pobres, mas, ainda assim, entre eles havia muitos que queriam seguir carreiras militares. Eles viam essas carreiras como sendo uma possibilidade de mudança, de mobilidade social.
Então, eu não acho que são coisas antagônicas. Se você é um jovem da periferia que observa esse ator, nessa busca por reconhecimento, por ser visto pela sociedade, pela comunidade, como alguém que tem valor, alguém que produz, faz algo que é legítimo. Some-se a isso o fato de que ali a gente tem uma dificuldade muito grande de pensar em boas possibilidades de trabalho que remunerem, que garantam uma vida digna, que garantam um tempo de lazer.
Para mim, está posto que, em algumas situações, essa pode ser vista como uma carreira possível. É como se fosse possível fazer uma distinção: “não, eu vou me comportar bem, eu vou estar dentro de uma instituição que vai me proteger. Eu vou ser uma pessoa que não vou produzir esse tipo de violência”, ainda que em alguma medida também produza.
Porque quem mata e morre são esses policiais e os praças são os que morrem muito, que em geral são esses jovens que entraram há pouco tempo, também vêm de famílias de baixo nível socioeconômico, mas ainda assim eles encontram dentro dessa instituição um modelo, uma forma de mobilidade social que não é frequente em outros campos, que não está aberta em outras instituições.
Essa questão da polícia e da relação que eles têm com a raça e com a violência que praticam, com o racismo institucional, que eu acho que é um aspecto que se liga muito a esse da violência, é muito curiosa. Eu participava de um grupo de trabalho sobre racismo institucional, violência policial e instituições no âmbito do Ministério Público aqui em Minas Gerais. Eu me lembro de estar participando de uma reunião com um comandante da polícia, ele estava no nível intermediário, era um oficial, e estava acompanhado de alguém de um nível mais baixo, que era uma pessoa negra.
E os dois, muito enfaticamente, diziam: “como a gente pode dizer que a Polícia Militar é uma instituição racista, se ela é uma instituição tão negra? Uma das instituições no serviço público com maior proporção de profissionais negros”. E ele não mente, é verdade. Só que é diferente: uma coisa é reconhecer que quem é visto como elemento suspeito é uma pessoa negra e uma pessoa pobre; outra é ser essa pessoa depois que você faz parte da instituição.
Eu acho que esse imaginário da população e do jovem a respeito do que é a segurança pública se forma nesse caldo de cultura da sociedade que coloca essas carreiras como sendo ora aqueles profissionais que podem promover algum tipo de agressão contra você, porque você está no lugar errado na hora errada; mas também como aqueles que têm um plano de carreira bacana, que têm um suporte de moradia, que vão poder ser reconhecidos, que têm o orgulho de estar dentro da instituição. É nesse cenário que esses interesses vão se construindo.
Recentemente nós tivemos, pela primeira vez no nosso país, a condenação de uma cúpula militar por tentativa de golpe. Que impacto todo esse cenário golpista teve neste interesse?
Eu não acho que faça de maneira direta. Eu acho que existe uma visão muito mais instrumental do que é o meu futuro e por onde eu vou seguir essa carreira do que necessariamente uma leitura de que essas instituições são mais ou menos golpistas.
Tem um exemplo interessante disso: como em alguns cenários a gente vê e agora falando mais da educação, não são raros os casos de profissionais da educação que são favoráveis à militarização das escolas. Mesmo reconhecendo os efeitos nocivos de uma lógica pouco democrática dentro de uma instituição escolar, às vezes até para o próprio trabalho.
Contudo, considerando o modo como esse tipo de modelo é lido como sendo importante para a disciplina dentro da escola, podemos encontrar apoios vindo de lugares onde não imaginava. Eu vi isso em alguns contextos de pesquisa, o professor fala: “não, aqui a gente sofre tanto com indisciplina que não me surpreende que uma colega apoie esse tipo de intervenção”.
Mais que isso, falando de um outro lugar de pesquisa também, temos trabalhos publicados falando disso: quando você conversa com os gestores sobre como administram os problemas de violência e de convivência na escola, são muitos os casos de indicação de que chamam a polícia para coisas que são absolutamente disciplinares, que não são questões de segurança pública.
Mesmo que já seja extremamente conhecido o fato de que a polícia atua de uma forma violenta e agressiva, principalmente contra jovens em espaços de periferia. Não estou dizendo que isso acontece sempre, e tenho muito respeito pela instituição e pelos profissionais da área, mas o senso comum te levaria a pensar nisso.
Se eu sou professor, sou diretor de uma escola em uma favela e aconteceu uma indisciplina, e eu decido chamar a polícia, tem muitas chances de se tornar um caso de violência praticada contra esse jovem dentro ou nos arredores da instituição. Contudo, existe uma leitura tão forte de: “ah, eu não tenho o que fazer”, um cansaço, um certo mal-estar em relação às condutas, que isso acaba virando uma possibilidade.
Então, ainda que haja essa percepção de que esse tipo de coisa acontece e que a população não seja, como outras pesquisas de opinião já mostraram, favorável ao golpe ou a tudo o que ocorreu em 8 de janeiro e antes, ainda assim, eu não acho que isso seja um impedimento para que encontremos jovens que considerem essas carreiras como uma possibilidade de mobilidade social e econômica.
Em um dos gráficos da pesquisa, temos a descrição de frases sobre as carreiras militares. A variável de maior concordância é: “o suporte e alimentação de uma carreira militar é importante”. Logo em seguida: “o suporte de moradia da carreira militar é importante”, com 49% concordando totalmente com o primeiro e 47% concordando totalmente com o segundo. Desses itens, o que aparece lá embaixo, onde há menos concordância e mais divergência, é: “trabalhar em uma carreira militar traz felicidade e realização”. Só 25% concordam totalmente.
Ou seja, não é que eu acho que ali eu vou encontrar alegria, satisfação ou a realização dos meus sonhos. Mas é onde eu vou encontrar condições de vida e de mobilidade que sejam mais coerentes com meus anseios para o futuro. E basta ver que as carreiras estão cada vez mais valorizadas.
Ao longo dos anos, a Polícia Militar se tornou uma instituição com um plano de carreira excelente. Houve uma greve nos anos 90 que foi essencial para que houvesse uma reformulação do plano de carreira da instituição e, a partir daí, é muito claro quais são os passos para que alguém que entra ali como soldado vá galgando posições, é uma questão de tempo, é muito transparente como se dá.
E é uma carreira que, desde o começo, oferece apoio de saúde, um plano de saúde de qualidade, um hospital próprio. Tudo isso é muito visto no bairro: “ah, não, o meu colega mora aqui também, mas o pai dele é da Polícia Militar. Então ele não está no SUS, ele tem um hospital, ele tem um plano de saúde melhor”. Eu acho que isso tudo vai participando desse mesmo imaginário, junto com todos esses outros fatores. Elas não são exatamente contraditórias, porque tudo isso compõe um processo de escolha.
Na sua opinião, o que a pesquisa pode nos dizer sobre o cenário do Estado democrático de direito no Brasil e sobre a legitimidade que a democracia, como modelo político, tem entre os jovens?
Eu acredito que aí temos talvez uma oportunidade. O resultado dessa pesquisa pode ser lido como o copo meio cheio ou o copo meio vazio. Eu acho que tem uma coisa bem interessante como oportunidade: se ele se interessa por empreendedorismo, se ele não acha que a carreira militar é o lugar de ser feliz e de se realizar, se ele está vendo esse tipo de saída como uma saída economicamente importante, quer dizer também que, se ele tiver outras saídas econômicas tão interessantes quanto, ele vai seguir essas outras saídas.
Então, acho que esse é um primeiro ponto. Eu acredito que quanto mais possibilidades o jovem tiver, melhor. E que todas elas sejam possibilidades que garantam para ele vida boa, vida com dignidade, vida plena, moradia, alimentação, salário, tempo de descanso. Tudo isso é importante. Se a gente tivesse um portfólio com mais carreiras conhecidas e valorizadas, eu tenho certeza de que talvez não teríamos um percentual tão elevado de interesse por essas instituições.
Esse é um primeiro passo, precisamos retomar a preocupação com o tema do trabalho, não só da relação entre formação e trabalho, mas escolarização, manter os jovens em formação. Isso são coisas importantes e eu acho que essa pesquisa reflete isso de outra maneira.
Por outro lado, acho que a gente tem que pensar no seguinte: esses jovens veem hoje essas instituições como uma porta de entrada para uma mobilidade social, mas a gente sabe que o processo de formação nessas carreiras é um processo intenso, duro e que direciona a conduta para uma forma específica de relação com a sociedade. Em uma lógica que é distante, eventualmente muito militarizada no sentido de segurança nacional, muito mais que de segurança pública; muito menos de prevenção e muito mais de defesa.
Eu acredito que o que a gente tem aqui é um perfil específico que vai se direcionar por conta de uma proximidade ideológica com esse tipo de modelo. Mas a instituição transforma, ela constrói um modelo de ser e de estar no mundo, uma visão em relação ao mundo. Essa formação pode se desenvolver também em um terreno que pode, em alguns casos, ser bastante fertil para isso, porque se já é alguém que tem uma posição mais conservadora, facilmente vai aderir a esses ideais.
Mas tem um outro grupo que não, que está ali em função da necessidade, do modo como aquela carreira se coloca como uma oportunidade. Então, o processo de formação pode ser também uma oportunidade de construir um modelo de segurança pública e de atuação das Forças Armadas que seja mais próximo de uma lógica em que a gente não está o tempo inteiro em guerra, em que não está o tempo inteiro em conflito. O processo de formação é um processo importante; não está tudo perdido. Não é todo mundo que entra lá que está entendendo que a gente precisa viver em um estado de guerra permanente.
Como a gente vai conseguir oportunizar formação? O foco da política pública hoje no ensino médio, de pensar estratégias de escolarização e no acesso ao ensino superior, são todas formas importantes de pensar nisso, para que essas carreiras sejam uma entre outras muitas possibilidades. E, por outro lado, não deixar a atenção à formação inicial desses profissionais como sendo um lugar onde a gente talvez ainda tenha algum tipo de oportunidade.
Enfim, é um desafio, porque se gastou muito dinheiro em algum momento com formação de profissionais da defesa e da segurança pública e não necessariamente tivemos o retorno que se esperava, mas eu não acho que seja o caso de abandonar essa frente de trabalho. Acho que a gente podia caminhar por ela.
