Argentina e Venezuela têm hoje políticas opostas em relação a programas sociais. No combate à fome, os dois países tomaram caminhos diferentes e, em 2025, apresentaram dados antagônicos. Enquanto o governo chavista tem caminhado para sair do mapa da fome, o país governado por Javier Milei aumenta o índice de pessoas que vivem em insegurança alimentar.
O dado mais recente sobre a fome na Argentina foi publicado no relatório “Insegurança alimentar entre crianças argentinas: um problema estrutural observado na situação atual”. O levantamento indica que, no país, 4,3 milhões de crianças vivem em situação de insegurança alimentar em 2024, ou seja, enfrentam falta de qualidade e redução na quantidade de alimentos. Isso significa que, em 2024, cerca de 35,5% das crianças no país enfrentaram insegurança alimentar moderada e 16,5% grave.
O número de famílias que sofre com esse problema passou de 32% em 2010 para 51% no ano passado.
Ainda de acordo com o relatório, 28% da população vive em casas com algum grau de insegurança alimentar e 12,6% em lares com insegurança alimentar grave. Esse dado representa um aumento de 3,3 pontos percentuais em relação ao ano anterior e é o maior percentual desde 2005, quando mais de 30,3% da população estava inserida no índice.
O número contrasta com dois fatores importantes. Primeiro o discurso do presidente Javier Milei. O mandatário ultraliberal insiste em falar sobre a queda na inflação (que está em 31,8% no acumulado de 12 meses) e no aumento da “confiança do mercado”. As falas de Milei ecoam nos jornais hegemônicos não só da Argentina como também de outros países. Editorias até de jornais brasileiros destacam o “milagre econômico” do mandatário, mesmo com os indicadores sociais apresentando ainda números alarmantes.
O Instituto Nacional de Estatística e Censos da República Argentina (Indec) corrobora a pesquisa feita pela PUC. Segundo o órgão, 31,6% da população argentina vive abaixo da linha da pobreza.
O segundo contraste se dá com um país que é estigmatizado pelo desabastecimento, mas que, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), tem caminhado para sair do mapa da fome. O último relatório da organização mostra que a Venezuela tem conseguiu reduzir o Índice de Prevalência de Subnutrição (IPS) de 17,6% para 5,9% nos últimos três anos. Isso representa uma queda de 5 milhões para 1,7 milhão de pessoas em insegurança alimentar.
Mesmo com 10 milhões de pessoas a menos e 1.042 sanções contra o sistema econômico e político, a Venezuela se consolidou, de acordo com a ONU, como um país que luta contra a fome e que conseguiu baixar a taxa de subnutrição em 11,7% entre 2022 e 2024, tirando 3,3 milhões de pessoas da fome.
A própria FAO reconhece nos seus informes o impacto do bloqueio econômico sobre a população venezuelana e afirma que as medidas coercitivas acabam impactando no poder de compra da população, o que leva a incapacidade de comprar produtos básicos para a alimentação.
Mas o que diferencia tanto as políticas de Javier Milei e Nicolás Maduro no combate à fome?
Para a engenheira agrônoma e autora do livro Sobre Alimentos e Poder, Clara Sanchez, os dois governos tratam de maneira muito diferente as políticas de assistência social. Enquanto os governos chavistas colocaram sempre a população no centro do debate, a gestão de Milei na Casa Rosada prioriza os lucros das grandes corporações em detrimento da necessidade da população.
“Um dos primeiros elementos que tem que se colocar na mesa é o modelo político. A Venezuela tem um modelo que coloca a alimentação como algo primordial. É algo histórico, nacional. A Argentina hoje trata a alimentação como uma mercadoria. O país é um dos maiores produtores de alimentos do mundo, mas exporta muito e não alimenta a própria população. E isso não é falta de alimentos, como foi o caso da Venezuela no passado. A questão é de acesso”, afirmou ao Brasil de Fato.
Ela entende que a Argentina priorizou a exportação de alimentos para conseguir acumular dólares e não pensou uma política de abastecimento ampla no país.
Cortes sociais
Milei tomou posse em dezembro de 2023 com 28% da população sendo afetada pela fome. Uma das alternativas que havia sido apoiada por governos peronistas eram os restaurantes populares, que serviam refeições para argentinos que estavam abaixo da linha da pobreza. Logo no segundo mês de mandato, o presidente promoveu cortes e zerou o orçamento mensal previsto para o abastecimento de alimentos às cozinhas populares.
Mais de 10 milhões de refeições eram ofertadas pelas cozinhas populares diariamente, segundo estimativa do Observatório Villero, mantido pela organização popular La Poderosa. O impacto desses cortes foi sentido pela população e organizações populares organizaram marchas para protestar contra a “motosserra” de Milei.
Juan Ignacio Bonfiglio é pesquisador do Observatório da Dívida Social Argentina (UCA) e entende que algumas políticas foram fundamentais ao longo do tempo para manter a população em um nível de estabilidade e de segurança alimentar, especialmente nos governos de Nestor e Cristina Kirchner.
De 2010 a 2015, durante o mandato da peronista, o número de pessoas atingidas pela fome variou entre 28% e 32%. Parte disso se deve a políticas como o Cartão Alimentar, que disponibiliza um valor para alimentação para famílias inscritas no programa Auxílio Universal para Crianças (AUH).
“As políticas moderam as crises e fazem com que elas sejam menos intensas, o que ajuda a ter menores níveis de indigências. As transferências diretas para a população têm impactos imediatos. A queda nos serviços também tem impactos diretos, assim como a queda na inflação”, disse.
O aumento da fome na Argentina também está relacionado ao emprego no país, que segundo o relatório, atingiu seu nível mais baixo desde 2006. Entre 2023 e 2024, caiu de 40,4% para 39,7%, principalmente devido ao aumento do emprego informal (que passou de 26,5% para 27,8%).
Apoio mesmo com sanções
O caminho oposto é traçado pelo governo venezuelano há 26 anos. Desde que assumiu em 1999, o então presidente Hugo Chávez começou uma política voltada para garantir a soberania alimentar da Venezuela e uma distribuição “justa” dos alimentos no país. O primeiro passo foi criar, em 2003, a Grande Missão Alimentação, programa voltado para, justamente, promover o acesso aos alimentos no país.
Chávez assumiu uma Venezuela com 21% de pessoas em situação de insegurança alimentar. Em 7 anos o presidente conseguiu tirar o país do mapa da fome. O sucesso da política chavista foi tamanho que a própria FAO deu um prêmio em 2013 ao governo venezuelano por atingir as metas do “Desafio Fome Zero” dois anos antes do previsto.
Uma das plataformas para isso foi a aprovação da Lei de Terras em 2001. Essa regulamentação reformulou a política de uso da terra no país e promoveu não só uma reforma agrária no país como deu uma orientação ao uso produtivo da terra.
A partir de 2014, no entanto, a situação mudou com o aumento da pressão dos Estados Unidos sobre o governo chavista. Naquele momento, a Casa Branca começava a ampliar o número de sanções contra o país caribenho e passou a bloquear a venda de petróleo no mercado internacional. O impacto foi brutal para as contas venezuelanas e o país teve um impacto de US$ 642 bilhões (R$ 3,5 tri) no PIB de 2015 a 2022. Para efeito de comparação, o PIB da Venezuela em 2023, segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), foi de US$ 92,2 bilhões (R$ 506 bi).
Isso, somado a um boicote de empresários do ramo da alimentação, levaram a um desabastecimento em mais de 80% dos mercados venezuelanos. Naquele momento, a Venezuela importava quase a totalidade dos produtos alimentícios industrializados, o que agravou a fome no país. De acordo com a FAO, a fome voltou a atingir cerca de 21,2% da população venezuelana.
Neste momento, o presidente Nicolás Maduro começa a implementar uma política ampla de produção e distribuição de alimentos dentro do marco da Grande Missão Alimentação. A principal ferramenta foram os Comitês Locais de Abastecimento e Produção (Clap). O programa buscava combater desabastecimento com distribuição de cestas básicas através de organizações comunitárias, mas acabou se tornando uma política permanente de distribuição de alimentos.
Somado a isso, o país também passou a estruturar um plano produtivo para garantir a soberania alimentar e dar cada vez mais protagonismo para a agricultura familiar na estruturação da produção. O caso mais recente foi um território de 180 mil hectares no sul do país destinado à produção de alimentos orgânicos em parceria com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
A partir daí, a Venezuela deu um salto no acesso e aumentou a disponibilidade de alimentos em mais de 500% entre 2016 e 2024, ou seja, 1.378 gramas por dia. O último relatório da FAO chamado de “O Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo 2025” afirma que a Venezuela tem hoje 5,9% de pessoas atingidas pela fome no país, mesmo com mais sanções dos EUA sobre a economia venezuelana.
“Enquanto na Venezuela seguem mantendo os restaurantes populares, na Argentina isso não acontece. E uma das coisas é que segue excluindo as pessoas vulneráveis, que está ligado a problemas estruturais, inflação, mas, principalmente, ao controle da distribuição. Na Argentina, as grandes corporações alimentares controlam a produção. E não só controlam, como definem o rumo e o direcionamento dessa produção”, concluiu Sanchez.
