O Salão Nobre da Associação Riograndense de Imprensa (ARI) ficou lotado na manhã de sábado (25) para homenagear a memória do jornalista Vladimir Herzog, assassinado pelos militares durante a ditadura militar, em São Paulo, há 50 anos. A homenagem ocorreu por meio de um painel mediado pela jornalista Márcia Turcato e com a participação dos jornalistas Elmar Bones e Rafael Guimarães, que trabalharam naquele período e também foram presos durante o regime ditatorial.
O painel 50 Anos por Vlado foi uma iniciativa do Movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH), com apoio da ARI, do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS (Sindjors), da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e da Associação de Ex-Presos e Perseguidos Políticos do RS (AEEPP-RS). Na abertura, falaram a vice-presidenta da ARI, Cláudia Coutinho, e o coordenador do MJDH, Jair Krischke.
Os painelistas relembraram o episódio histórico que se tornou um marco na luta contra a ditadura. Herzog foi preso e morto sob tortura em um sábado, 25 de outubro de 1975. “Embora o regime tenha tentado encobrir o crime como suicídio, ficou claro que Herzog foi assassinado por exercer sua profissão. Vlado morreu por ser jornalista”, destacou Bones. Guimarães, por sua vez, falou sobre a censura nas redações da época e sobre os assassinatos de jornalistas que continuam ocorrendo até hoje.
A censura e o caso do Coojornal

Elmar Bones e Rafael Guimarães trabalhavam no Coojornal, mensário editado pela Cooperativa dos Jornalistas do Rio Grande do Sul. Ambos foram perseguidos, presos e condenados junto aos jornalistas Osmar Trindade e Rosvita Saueressig por uma matéria que denunciava a incompetência do Exército na perseguição ao capitão Carlos Lamarca e seus 23 companheiros, que iniciaram um movimento de resistência armada no Vale do Ribeira (SP). Lamarca e seus camaradas conseguiram escapar de um cerco de 5 mil homens. As matérias do Coojornal basearam-se em relatórios do próprio Exército, entregues por um militar em 1980.
A denúncia sobre o assassinato de Herzog ganhou repercussão após um ato ecumênico na Catedral da Sé, presidido pelo cardeal Dom Paulo Evaristo Arns e com a participação do rabino Henry Sobel e do reverendo Jaime Wright, apoiados pelo jornalista Audálio Dantas, então presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. No último sábado, também na Catedral da Sé, foi realizado um novo ato ecumênico pelos 50 anos da morte de Herzog, com a presença do presidente em exercício, Geraldo Alckmin (PSB).
Da fuga do nazismo ao jornalismo no Brasil
De acordo com o site do Instituto Vladimir Herzog, o jornalista ficou conhecido mundialmente como símbolo da luta contra a ditadura militar brasileira e em defesa da democracia. Nascido em Osijek (então parte da Iugoslávia, hoje Croácia), em 27 de junho de 1937, Vlado viveu em Banja Luka até agosto de 1941, quando o exército nazista ocupou a cidade. A família então partiu para a Itália.
Entre 1941 e 1944, os Herzog viveram em três cidades italianas — Fonzaso, Fermo e Magliano di Tenna — e depois foram para um campo de refugiados em Bari, onde permaneceram por dois anos. No fim de 1946, emigraram para o Brasil, desembarcando no Rio de Janeiro em 24 de dezembro.
A morte que expôs a face do regime militar
A carreira jornalística começou em 1959, como repórter de O Estado de S. Paulo, onde cobriu a inauguração de Brasília, a visita de Jean-Paul Sartre ao Brasil e a posse de Jânio Quadros. Em 1962, viajou à Argentina para cobrir o Festival de Mar del Plata e, entusiasmado, iniciou a trajetória no jornalismo cultural, especialmente na crítica de cinema.
Vlado também se dedicou ao cinema, produzindo o curta-metragem Marimbás e colaborando em outras duas obras — Subterrâneos do Futebol (Maurice Capovilla) e Viramundo (Geraldo Sarno). Atuou ainda na TV Excelsior, na Rádio BBC de Londres, na Revista Visão, na agência J. Walter Thompson, na TV Universitária da UFPE e no jornal Opinião. Foi professor de jornalismo na Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP) e na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP).
Na TV Cultura, teve duas passagens. Em 1973, a convite do amigo Fernando Pacheco Jordão, coordenou a redação do jornal Hora da Notícia e, em setembro de 1975, assumiu a direção de jornalismo da emissora.
No dia 24 de outubro de 1975, militares procuraram Vlado na TV Cultura. Ele combinou que se apresentaria voluntariamente no dia seguinte para depor. Compareceu espontaneamente à sede do Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi/SP), na Vila Mariana, onde foi assassinado.
Além da tortura e da violência, os militares forjaram uma versão de suicídio, rapidamente desmentida. A missa de sétimo dia, celebrada na Catedral da Sé, reuniu mais de 8 mil pessoas. O ato ecumênico conduzido por Dom Paulo Evaristo Arns, o rabino Henry Sobel e o reverendo Jaime Nelson Wright tornou-se um marco na luta pela democracia e na derrocada do regime ditatorial.
