O Instituto Médico Legal (IML) do Rio de Janeiro liberou neste sábado (1º) os últimos 8 corpos de vítimas do massacre realizado pelas forças policiais nas favelas da Penha e do Alemão na última terça-feira (28). Os familiares relatam alívio pelo fim da busca por filhos, primos e netos, mas também indignação com a ação.
Grávida, Karine Beatriz esteve no IML para reconhecer o corpo do esposo, Wagner Nunes Santana, após três dias de busca na mata. Ela relatou que ele foi retirado de dentro de um lago, na Serra da Misericórdia, na Penha.
“Após três dias de buscas consegui localizar o corpo, mas alívio eu só vou ter com repostas para as perguntar que não vão calar: de onde vem pena de morte, se existe presídio, presídio é apenas enfeite? Até quando vai isso? “, questionou ela, sobre o aumento da violência e da letalidade das ações policiais no Rio, nos últimos anos. “Temos crianças assustadas, uma comunidade abalada, é muita dor”, desabafou.
Karina ressalta que não nega os erros do marido, mas que nada justifica a ação policial feita para matar e não para prender, como tenta justificar o governo de Cláudio Castro (PL). “Eles não vieram prender ninguém, eles foram para matar. E até mesmo quem se entregou, eles mataram. Eu procurei, desde o primeiro dia, eu procurei um por um. Não sei o que fizeram, mas enterro vai ter de ser caixão fechado”, relatou.
“Independente dos erros dele, ele era trabalhador, era família, semana passada, estava ajudando a erguer uma casa na comunidade, ajudou a fazer o ‘cabelo maluco’ da minha filha. Tenho uma filha de 9 anos, que não era filha dele e ele fez o cabelo dela para escola, levou para brincar, sabe, são momentos que não vão voltar”, completou.
Desde a tarde de terça-feira, o governo Castro vem tentando justificar o massacre, alegando que todos os mortos seriam criminosos integrantes do Comando Vermelho. Dados divulgados pela gestão estadual informaram que, dentre os mortos, 42 tinham mandado de prisão pendente e 78 tinham algum envolvimento com o crime, sem detalhes. Outros tinham histórico de apreensão na adolescência.
No entanto, nenhum deles constava dos mandados de prisão expedidos pela justiça do Rio para a operação.
Alguns relatos dão conta de que, entre as vítimas que eram integrantes do Comando Vermelho (CV), todos já se encontravam rendidos, quando foram baleados. “Eu vi eles gritando ‘perdi, perdi’, se entregando, e os caras sem motivo atirando e ainda comemoravam”, conta a prima de uma vítima, que pediu para não ser identificada, no portão do IML.
O advogado Guilherme Pimentel, coordenador da Rede de Atenção a pessoas Afetadas pela Violência de Estado (Raave), que atendeu mais de 70 familiares de vítimas desde terça, a chacina tem vários objetivos, mas nenhum deles é o combate ao crime organizado.
“Esse governador que faz uma chacina que não é só eleitoreira, com o objetivo de angariar votos, disseminando fake news e ativando redes de ódio na nossa sociedade. É também uma chacina para desviar o seu verdadeiro caráter de criminoso”, destaca ele.
A ação envolveu 2.500 agentes das polícias Civil e Militar e tinha como objetivo anunciado desarticular o Comando Vermelho, cumprindo 100 mandados de prisão e 150 de busca e apreensão.
O principal alvo da operação, no entanto, fugiu. O traficante Edgar Alves de Andrade, o Doca, considerado o maior chefe do Comando Vermelho (CV) em liberdade, escapou da ação e não foi preso até o momento.
com informações da Agência Brasil
