Dez anos depois do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), o Brasil ainda convive com as marcas profundas do maior desastre socioambiental de sua história. Mais do que um episódio trágico, o caso de Mariana simboliza os limites de um modelo de desenvolvimento baseado na exploração intensiva dos recursos naturais e dos territórios, além da subordinação econômica às grandes corporações.
O colapso da barragem, em novembro de 2015, matou 19 pessoas, destruiu comunidades inteiras e contaminou o Rio Doce, fonte de vida para centenas de comunidades, áreas rurais, urbanas e de preservação ambiental. O que se seguiu foi um longo processo de disputas, que podem denotar impunidade e lentidão na reparação das famílias atingidas. Mas o que está em jogo vai muito além da tragédia local: é o retrato de uma crise estrutural que combina dependência econômica, devastação ambiental e desigualdade social.
Crise global e dependência brasileira
A crise econômica mundial iniciada em 2008 expôs a fragilidade dos países periféricos diante do capital financeiro internacional. No Brasil, os efeitos se intensificaram a partir de 2010, com a desaceleração do crescimento, queda dos investimentos e aumento da pobreza. A resposta do Estado foi o velho receituário de austeridade: teto de gastos, reformas trabalhista e previdenciária, corte de direitos sociais.
Essas medidas aprofundaram a desigualdade e reforçaram a condição de dependência do país. Boa parte da riqueza produzida aqui continua a ser drenada para o exterior por meio de remessas de lucros, juros e royalties. É a lógica do capitalismo dependente, mais especificamente da transferência internacional de valor, descrita por Ruy Mauro Marini há meio século, ainda atual e visível nas contas nacionais.
O preço da mineração
Entre 2005 e 2013, o minério de ferro viveu um ciclo de valorização global. Quando os preços despencaram com a crise, as empresas reagiram aumentando a produção e reduzindo custos, inclusive nos sistemas de segurança. O resultado foi previsível: barragens fragilizadas, riscos ignorados e tragédias anunciadas.
A história de Mariana é, portanto, menos um “acidente” e mais uma consequência direta do modelo neoextrativista que domina a economia brasileira. Um modelo que transforma territórios em zonas de sacrifício, onde vidas humanas e ecossistemas são tratados como meros custos colaterais.
O colapso ecológico em marcha
Karl Marx chamou de “ruptura metabólica” o desequilíbrio entre sociedade e natureza provocado pela lógica capitalista. Hoje, essa ruptura se traduz no aquecimento global, na perda da biodiversidade e na escassez de água. O planeta dá sinais de exaustão, mas o capital responde ampliando as fronteiras de exploração, seja com as novas tecnologias, seja com a financeirização da natureza.
A economia global consumiu, entre 2016 e 2021, quase 600 bilhões de toneladas de materiais, praticamente o mesmo volume de todo o século XX. O discurso verde das grandes empresas, muitas vezes, é apenas uma maquiagem: greenwashing que encobre a continuidade de práticas destrutivas.
Racismo ambiental e injustiça social
Os impactos do colapso ecológico não são distribuídos de forma igual. No Brasil, as comunidades mais afetadas são as negras, indígenas e tradicionais. São principalmente elas que vivem nas margens dos rios contaminados, que perdem o sustento com a pesca e enfrentam a lentidão burocrática das indenizações.
Pesquisas realizadas em São Mateus (ES) mostram que 87% das famílias atingidas pelo desastre pertencem a comunidades tradicionais e 93% tiveram de interromper suas atividades pesqueiras. A catástrofe ambiental, assim, é também expressão de um racismo ambiental que hierarquiza vidas e territórios.
A nova face da dependência
A chamada transição energética, celebrada como caminho sustentável, esconde novas formas de dependência. A corrida por lítio, cobre e terras raras, indispensáveis às tecnologias verdes, repete a velha lógica colonial: exploração intensiva no Sul Global para abastecer a produção nos países centrais.
Enquanto a China aposta em planejamento estatal e soberania tecnológica, o Ocidente transforma a transição verde em mais um campo de especulação financeira. No Brasil, políticas de bioeconomia e créditos de carbono prometem sustentabilidade, mas frequentemente reforçam a apropriação privada dos recursos naturais e a exclusão de populações locais.
Um futuro em disputa
Revisitar Mariana, uma década depois, é revisitar as contradições de um país que ainda insiste em crescer destruindo. O modelo de desenvolvimento baseado na extração e exportação de recursos continua a gerar riqueza concentrada e desigualdade espalhada.
Romper esse ciclo exige mais do que remediar desastres: é preciso repensar a própria lógica da acumulação. Significa reconstruir modos de vida, garantir soberania sobre os territórios e colocar a justiça socioambiental no centro do projeto nacional.
Porque, se nada mudar, Mariana não será lembrada apenas como o maior desastre ambiental do Brasil, mas como o prenúncio de um colapso ainda maior.
*Camilla dos Santos Nogueira é professora do Departamento de Economia, da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) Economista, doutora e pós-doutora em Política Social, pela UFES.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
