A Universidade Normal da China Oriental (ECNU) em Xangai sediou nesta quarta-feira (13) o primeiro dia do Fórum Acadêmico do Sul Global 2025, que reuniu acadêmicos, diplomatas e especialistas para discutir a guerra antifascista e a construção da ordem mundial pós-1945. O evento, organizado em parceria com a Universidade de Joanesburgo (África do Sul), ocorre no ano em que se comemoram os 80 anos da vitória na Segunda Guerra Mundial e da fundação das Nações Unidas.
Kuai Shuguang, diretor da Divisão de Cooperação e Intercâmbio Internacional da ECNU, abriu o evento destacando que a universidade, fundada em 1951, mantém acordos com mais de 300 instituições ao redor do mundo. “Este fórum representa um esforço prático para promover o conhecimento e a cooperação entre os países do Sul Global“, declarou Kuai, referindo-se às áreas de educação, ciência e tecnologia.
Zhang Meifang, diretora do Comitê de Trabalho de Intercâmbio Internacional do Instituto Chinês para Estratégia de Inovação e Desenvolvimento (CIIDS), situou o evento no contexto da 4ª Sessão Plenária do 20º Comitê Central do Partido Comunista da China, que aprovou planos estratégicos para a modernização da governança nacional. O CIIDS, aprovado pelo Conselho de Estado chinês em 2010, atua em pesquisas sobre questões estratégicas domésticas e internacionais.
O professor Li Shenming, da Academia Chinesa de Ciências Sociais e ex-vice-presidente da instituição, fez o discurso principal. Li iniciou citando o relatório do presidente Xi Jinping no 20º Congresso Nacional, que menciona as mudanças históricas e de época que a humanidade enfrenta. O professor argumentou que construir uma comunidade de futuro compartilhado para toda a humanidade é uma aplicação da teoria marxista ao contexto internacional.
Li desenvolveu sua análise em três pontos. Primeiro, relacionou a proposta de Xi Jinping com os escritos de Marx e Engels sobre comunidade e liberdade individual. Segundo, explicou que a diplomacia e as relações internacionais de qualquer país são extensões da política interna, e que a ênfase de Xi no povo representa uma expressão do internacionalismo proletário no contexto internacional. Terceiro, abordou a necessidade de integrar as questões universais do marxismo com as realidades concretas do mundo contemporâneo.
O acadêmico analisou a coexistência sob a Guerra Fria entre grandes potências, citando conversas de Mao Zedong [Mao Tsé-Tung] com militar britânico Bernard Montgomery nos anos 1960. Li argumentou que não haverá guerra quente entre China e Estados Unidos porque “nenhuma das partes tem disposição para isso”, mas que os EUA usam guerras por procuração contra outros países. Ele afirmou que os 1% mais ricos do mundo controlam 43% dos ativos financeiros globais, indicando que “ainda estamos na definição de Lenin de uma era imperialista”.
Li identificou três categorias na conjuntura atual seguindo o método de análise de Mao Zedong. Os inimigos são “a hegemonia, a política de poder e os sinais crescentes de fascismo e militarismo”. Os amigos incluem “todos os países, nações e indivíduos que se opõem a essas forças, inclusive estadistas do primeiro e segundo mundo”. E “nós” são “os povos do mundo – trabalhadores, camponeses, massas e intelectuais unidos às massas”.
O professor enfatizou o papel dos intelectuais, argumentando que precisam estudar as obras originais marxistas e combiná-las com as condições reais de cada país. “Como a vida pode ser significativa se não lutamos pelo povo comum e pela construção dessa comunidade compartilhada?”, questionou Li. Ele concluiu afirmando que “no século 21, o socialismo fornecerá as potenciais luzes” e que “apenas o socialismo pode salvar o mundo, incluindo os EUA, a Rússia e todos os países do Sul Global e do Terceiro Mundo”.
Rejeição da “paz pela força” dos EUA
O embaixador de Cuba na China, Alberto Blanco Silva, enviou mensagem em vídeo destacando que a China “se estabeleceu como o principal fronte oriental na Guerra Mundial Antifascista [2ª Guerra Mundial]”. Blanco Silva denunciou as tentativas de “banalizar essa história e tergiversar os fatos históricos”. O diplomata analisou a situação internacional contemporânea, caracterizada por “insegurança, incerteza e perigos resultantes do hegemonismo, unilateralismo desenfreado, intolerância ideológica e cultural, medidas coercitivas unilaterais”.

O embaixador cubano rejeitou a doutrina estadunidense de “paz através da força”, classificando-a como “imposição arbitrária da vontade do imperialismo norte-americano através de ameaças, coerção e agressão”. Blanco Silva mencionou ações unilaterais dos EUA no Caribe e no Pacífico, incluindo “ataque e destruição de lanchas sem identificação, assassinato ou execução extrajudicial de civis, intercepção de embarcações ou buques pesqueiros”, que “violam o direito internacional e ameaçam a paz e segurança regionais”.
O diplomata destacou iniciativas chinesas como os fundos para cooperação Sul-Sul, a ajuda oficial para o desenvolvimento a centenas de países, a promoção da ampliação do Grupo Brics e a defesa do papel das Nações Unidas. Blanco Silva elogiou os esforços da China para fortalecer o papel internacional do yuan (moeda chinesa) como resposta ao “sistema financeiro global centrado no dólar, cada vez mais frágil, governado por instituições obsoletas que são legado da Guerra Fria”.
Sobre Cuba, o embaixador mencionou a presença de médicos e professores cubanos nos países mais desfavorecidos “sempre de maneira altruísta e sem condicionamentos”. Blanco Silva destacou que a maioria da comunidade internacional votou recentemente a favor da resolução cubana contra o bloqueio econômico estadunidense na Assembleia Geral das Nações Unidas, demonstrando que “o poderio dos EUA tem limites”. O diplomata concluiu expressando convicção de que “a China culminará seu processo de modernização com características próprias, conduzindo à conformação de um mundo multipolar e ao ascenso de uma potência socialista moderna, anti-hegemônica e solidária com os países do Sul Global”.
A programação do primeiro dia incluiu painéis sobre a Ásia Nordeste como campo de batalha oriental da guerra antifascista, o desenvolvimento do Sul Global pós-guerra e o Movimento Não-Alinhado, além de discussões sobre as Nações Unidas e a ordem internacional do pós-guerra.
