REALEZA AFRICANA

‘A memória da África está em nosso sangue’, diz rainha cangolesa, em conferência na Ufrgs

Diambi Kabatusuila Tshiyoyo Muata, soberana tradicional do povo Bakwa Luntu, visitou o Rio Grande do Sul essa semana

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“Nós nunca paramos de tocar o tambor, de dançar, de cantar, de construir nossas comunidades e nossos reinos. Olhem para cada um de nós e veja o quão belos e fortes somos”, destaca rainha | Crédito: Foto: Débora Simões

A Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) recebeu nesta quarta-feira (12) a rainha Diambi Kabatusuila Tshiyoyo Muata, soberana tradicional do povo Bakwa Luntu, da República Democrática do Congo, para a conferência “Confluências do Real: um Diálogo Bantu-Brasil”. A visita integra sua agenda oficial no país e busca fortalecer os laços culturais e espirituais entre o continente africano e a diáspora afro-brasileira.

Na abertura, o estudante Duan Kissonde destacou o simbolismo do título e a herança africana viva no Brasil. “Quando pensei esse título, pensei logo com o nosso saudoso mestre quilombola Nego Bispo: são duas águas que se juntam e não perdem sua essência, elas se fortalecem. Essa relação entre Brasil e África se dá nesse campo da confluência”, afirmou. Para ele, a presença da rainha reafirma a realeza africana e o reconhecimento de uma memória antes apagada.

A professora Fernanda Oliveira definiu o encontro como um marco de visibilidade e reconciliação histórica. “Crescemos nesse Sul tão nosso, com tantas coisas que nos pertencem, mas também com muita invisibilidade. Essa história não passa apenas pela escravidão, mas por trajetórias de construção da liberdade”, disse. Ela lembrou que “o cativeiro nunca foi capaz de submeter a alma das pessoas”, destacando as irmandades e espaços culturais criados em resistência.

Oliveira também relacionou o debate à justiça climática, lembrando que as populações negras estão entre as mais afetadas pelas enchentes e crises ambientais no estado. “Estamos aqui para pensar sobre nossas questões, sobre os problemas que nos afligem desde o ano passado com as enchentes que, não à toa, atingem em cheio as pessoas negras que estão na ponta”, ressaltou.

” O que deixamos não foi um berço, foi uma casa. Um templo. Uma universidade. Uma indústria. Deixamos sabedoria, espiritualidade, ciência, conhecimento do cosmos “, afirma rainha – Foto: Débora Simões

O pró-reitor de Ações Afirmativas da Ufrgs, Alan Alves Brito, agradeceu a presença da rainha e destacou o caráter simbólico do encontro. “É sobre como enfrentamos as estruturas perversas que tentam retirar de nós a potência que a rainha, com sua fala e presença, nos devolve”, disse. Para ele, a conferência expressa uma “transluzência” de saberes que conecta o Brasil à África, integrando ciência, espiritualidade e ancestralidade.

“Sua visita nos convida ao enfrentamento diário do racismo institucional e epistemológico. O que chega primeiro é a espiritualidade, viva, próxima, que nos lembra que sempre estivemos aqui”, destacou Brito.

A visita foi coordenada pela comitiva oficial da rainha Diambi no Brasil e tem o apoio da The Elikia Hope Foundation. As atividades realizadas na Ufrgs são organizadas conjuntamente pelo Grupo de Estudos Dimensões da Cultura Bantu-Kongo na África e na Diáspora, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Programa de Pós-Graduação em Música do Instituto de Artes e pelo Departamento de Educação e Desenvolvimento Social (Deds) da Pró-Reitoria de Extensão da Universidade. Em sua passagem pelo estado a realeza visitou os terreiros Águas Claras, em Guaíba, e o Ilê Ase Iyemonja Omi Olodo.

Em sua visita a rainha Diambi assinou o Livro de Ouro em que são registradas as visitas ilustres à Universidade - Foto: Rochele Zandavalli/Ufrgs
Em sua visita a rainha Diambi assinou o Livro de Ouro em que são registradas as visitas ilustres à Universidade – Foto: Rochele Zandavalli/Ufrgs

Ancestralidade

Durante sua fala, a rainha Diambi fez um discurso sobre ancestralidade africana, sabedoria dos povos do Congo e reconciliação entre continentes. Falando em português, com trechos em inglês, ela destacou a força da herança africana e o papel espiritual do Brasil na construção de uma nova consciência humana.

“Eu tenho apenas dez semanas de prática em toda a minha vida de português. Desculpem se não é muito sofisticado. Eu gostaria de falar em inglês para poder compartilhar num nível mais profundo”, iniciou. “Quero expressar meu agradecimento e minha honra por estar aqui, com um povo tão bonito, tão forte, com representantes de cada cor, de cada conhecimento, de cada sabedoria, que quer construir uma nação de diversidade.”

A líder africana recordou que os desafios enfrentados pelos povos negros atravessam fronteiras e continentes. “Há muita dificuldade para nós, pessoas negras, não só no Brasil. Também nos Estados Unidos, na Colômbia, em toda a América, na Europa, na Ásia. Mesmo no continente africano há sofrimento, só porque somos negros. Esta é uma experiência coletiva, transnacional. Uma dor compartilhada, mas também uma força compartilhada.”

O verdadeiro significado do Congo e o espírito do leopardo

“Eu venho do Congo. Quando as pessoas pensam no Congo hoje, imaginam dois países: a República Democrática do Congo, o meu, e a República do Congo. Mas essa não é a verdadeira realidade; isso veio com a colonização”, afirmou. Segundo ela, por milhares de anos o nome “Congo” designou toda a África Central e parte da África Setentrional.

Explicou ainda que a palavra Congo deriva do termo “concoi”, da língua Kwa, falada por povos da floresta do Congo. “Concoi significa ‘aqueles que acalmam o leopardo’, que vivem em paz com o leopardo”, relatou. Por isso, os povos da região central da África, onde vive o leopardo, seriam considerados “filhos do leopardo”. E completou: “O Congo é toda essa região. O povo que hoje vive na Angola atual também é Congo. Os da Zâmbia também. Os da República Centro-Africana também. Camarões, Uganda, Chade, toda a África Central. Todos são Bantu. E Bantu significa pessoas. Antes da colonização, não existiam fronteiras nem passaportes. Por quase 400 mil anos, os povos africanos puderam viajar livremente, se conectar e se misturar.”

Para Kissonde, a presença da rainha reafirma a realeza africana e o reconhecimento de uma memória antes apagada – Foto: Débora Simões

“A África não é o berço, é a casa do mundo”

Diambi destacou que a África é o continente com maior diversidade do planeta e a matriz da humanidade. “Nós somos o útero do mundo. Mais de 80% da vida humana aconteceu no continente africano. Muitos dizem que a África é o berço da humanidade. Mas isso reduz a nossa importância. Um berço é para bebês. A humanidade não era um bebê quando viveu na África, era adulta, sábia. O que deixamos não foi um berço, foi uma casa. Um templo. Uma universidade. Uma indústria. Deixamos sabedoria, espiritualidade, ciência, conhecimento do cosmos. Não apenas um berço.”

A rainha usou uma metáfora para ilustrar a trajetória humana. “Se a humanidade fosse uma mulher de 100 anos, ela teria deixado a África com 8 anos de idade. Então não saímos de um berço, saímos de uma casa. Uma casa que ensinou tudo o que era necessário para viver.”

Ela lembrou que “a primeira tecnologia do ferro, a primeira cirurgia, o primeiro tratamento médico, a primeira arquitetura, tudo começou na África”. E acrescentou: “Essa informação não se extinguiu por causa de 400 anos de abuso e violência. Ela está no nosso sangue.”

Sabedoria ancestral e apagamento histórico

Diambi contestou as visões coloniais que descreveram a África como “atrasada” e “sem desenvolvimento”. “Hoje nós sabemos que no Congo já existia matemática há 25 mil anos, geometria há 35 mil anos. A África contribuiu com inteligência em cada domínio da vida.”

Ela mencionou o chamado Relógio Adam, construído há mais de 70 mil anos na África, como um mapa das estrelas que guiou os ancestrais na navegação e no conhecimento do mundo. “É um mapa de todo o sistema estelar, que mostra como nossos antepassados compreendiam o universo.”

A rainha denunciou o apagamento histórico e espiritual causado pela colonização: “Apagaram da nossa mente a nossa história. Tornaram pecado falar a nossa língua, vestir nossas roupas tradicionais, praticar nossos rituais. Nos ensinaram que o melhor era o Ocidente e que devíamos abandonar nossa identidade para nos tornarmos algo que nunca poderíamos ser.”

Diambi destacou que, mesmo após “400 anos de abuso e violência”, o saber africano não se extinguiu. “Essa informação está no nosso sangue. O único problema foi a falta de comunicação, desenhada para nos manter em grilhões mentais e espirituais, fazendo-nos acreditar que somos inferiores. Essa crença ainda nos aprisiona.”

Rainha Diambi e Francisca Dias, Rainha Ginga do Maçambique de Osório – Foto: Livia Biasotto

“Vocês têm mais África em vocês do que eu”

Nascida em Kinshasa, capital da República Democrática do Congo, Diambi contou que cresceu distante da própria história. “Meu pai nunca me falou sobre minha terra, sobre nossos reis e rainhas. Nas escolas, não aprendemos sobre a escravidão, sobre a grandeza dos reinos africanos. Ensinaram-nos que o melhor era o Ocidente, e fomos levados a abandonar nossa identidade para tentar ser algo que nunca poderíamos ser. Quando fui estudar nos Estados Unidos, encontrei descendentes africanos que queriam saber de onde vinham, e percebi que eles sabiam mais sobre mim do que eu mesma.” Segundo ela, Kinshasa hoje com cerca de 20 milhões de habitantes, representava uma vida urbana intensa, distante das raízes culturais que só reencontraria mais tarde.

A rainha destacou que muitos afrodescendentes nas Américas preservam conexões profundas com o continente. “Vocês lutaram contra abusos, preconceito, brutalidade e ignorância para manter viva essa herança. Às vezes, têm mais África em vocês do que eu”, declarou.

A colonização, aponta, deixou feridas profundas, não apenas físicas, mas espirituais e psicológicas. “A maior parte dos problemas que enfrentamos no continente hoje vem dessa amnésia forçada, dessa ferida emocional que nos fez acreditar que nossa identidade não tinha valor. Muitos de nossos sistemas políticos são cópias do modelo ocidental, e isso gera desequilíbrios, porque não correspondem à nossa cultura.”

Ela lembrou que o povo congolês é descendente de dois genocídios, a escravidão e a colonização. “Durante a colonização, perdemos de 12 a 14 milhões de pessoas. Somos descendentes desses sobreviventes, de quem decidiu, apesar de tudo, continuar de pé e dar vida à próxima geração.”

Por mais de 300 anos, cerca de 4,9 milhões de africanos escravizados chegaram ao Brasil. Desse contingente, aproximadamente 70% vieram da África Centro-Ocidental, região que hoje corresponde a países como Congo e Angola.

De acordo com matéria publicada no site O Globo, Congo e Angola foram os principais territórios de origem das pessoas escravizadas trazidas ao Rio de Janeiro. Somente no século 18, cerca de 720 mil africanos chegaram ao porto da cidade.

Conforme pontuou a rainha a violência colonial envolveu diversas potências europeias ao longo dos séculos. “Para cada ancestral que entrou no barco, muitos morreram tentando protegê-lo. Foi uma guerra de centenas de anos, nossa verdadeira primeira guerra mundial”, afirmou, citando franceses, ingleses, portugueses, holandeses e dinamarqueses entre os colonizadores.

Diambi enfatizou que a primeira riqueza saqueada do continente foi o próprio povo africano. “Eles não levaram apenas trabalhadores para os campos ou para o serviço doméstico. Levaram arquitetos para construir casas, intelectuais e educadores para construir universidades, engenheiros para construir fábricas e estradas. Esse povo tinha conhecimento.”

A luz que não se apaga

“Sim, a história foi triste e difícil”, disse a rainha. “Mas na sabedoria africana, sabemos que todo mal contém um pedaço de luz. E vocês são essa luz. Se uma sala estiver escura e acendermos apenas uma vela, ela não será mais escura. Imaginem o que podemos fazer quando brilhamos em plena luz.”

Ela convocou africanos e descendentes de todas as origens, europeus, asiáticos, árabes e indígenas – a se unirem pela reconciliação e pelo amor. “Nós nunca paramos de tocar o tambor, de dançar, de cantar, de construir nossas comunidades e nossos reinos. Olhem para cada um de nós e vejam quão belos e fortes somos. Isso é uma inspiração para o mundo inteiro: nada pode apagar essa luz que vem do divino, que chamamos de Zambi.”

A psicologia da dor e o caminho da reconciliação

A rainha, que também é psicóloga e economista, refletiu sobre o comportamento humano e as origens da violência. “Eu tive que entender por que meus ancestrais europeus agiam assim. Será que são pessoas ruins? Ou agiam assim para sobreviver? Não é desculpa, mas compreensão. Porque só em um espaço de entendimento podemos aprender a perdoar, e também libertar quem carrega a culpa.”

Ela defendeu a necessidade de curar as feridas coletivas: “A dor é uma herança transgeracional. Há a dor do trauma e a dor da culpa. Para construir uma nação, precisamos reconciliar as duas.”

O Brasil como possibilidade

Por fim, a rainha destacou o papel do Brasil como símbolo de integração e esperança. “O Brasil representa essa oportunidade, porque vocês são uma mistura única. Eu já encontrei brasileiros de olhos azuis e pele clara que se parecem com meu pai. Vocês são uma nação que pode criar o espaço de reconciliação.”

Ela fez um apelo à valorização da diversidade e à responsabilidade coletiva. “Cada criança negra sem acesso à educação é um engenheiro, um médico, um líder que se perde. Toda vez que vocês fecham a porta para uma pessoa preta, indígena ou imigrante, vocês se tornam mais pobres. Eu venho para lembrá-los quem vocês têm ao lado: vocês têm a civilização dos nossos ancestrais. Aprendam a confiar nela, porque ela já construiu este país.”

Editado por: Katia Marko

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